LULA e um canto de um herói

25/12/2011

 

Não são tantos os heróis assim, porque deixar um rastro profundo na alma de qualquer povo exige do pretendente, antes de tudo, que se torne o sal da terra. Ora, ser um daqueles caras que adubam o chão por onde passam é fazer o que tem que ser feito, quando tem de ser feito, independente das conseqüências, porque se assim não for “será jogado fora e pisado pelos homens.” Quem escreveu isso foi o apóstolo Mateus. “Cheguei  à Presidência, disse Lula, para fazer as coisas que precisavam ser  feitas e que muitos presidentes antes de mim foram covardes e não tiveram coragem de fazer.” (Folha de São  Paulo, 30/10/2003). E assim se tornou o sal da terra.

O mesmo apóstolo lembra: “ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim num candeeiro, onde ela brilhará para todos….” Talvez tenha sido assim com Lula, cintilou e estendeu seu brilho para todos e por todos os rincões deste país. Não demorou e a intensidade da chama alcançou os outros lados do planeta. Então passaram a lhe render homenagens.

“Eu sou  filho de uma  mulher que  nasceu analfabeta,” disse ele em 8 de março de 2004, no Dia Internacional da Mulher. E por conta desse falar estropiado, por ter nascido pobre, retirante, operário e líder sindical, por ter estudado quase nada e ter a língua presa, por cada uma de suas falas dar a impressão que a simplicidade destoava da sabedoria, por lhe faltar além do dedo a solenidade que se espera de um presidente a imprensa-empresa e parte considerável das elites médias e altas do Brasil nunca o perdoaram e assim optaram por fazer do absurdo um estilo com o qual consagraram um sistemático bombardeio difamatório – que se prolonga até os dias de hoje – ao governo daquele “sapo barbudo” que ousava exibir qualquer coisa de esfinge atrás de um rosto amável fora do tempo. Nunca o entenderam, tampouco o decifraram. Sequer perceberam aquele dom que ampliava a intensidade da sua luz: a paciência – como a de um camelo – que exaltava assim, o que escrevera Giacomo Leopardi: “é a mais heróica das virtudes, justamente por não ter nenhuma aparência de heroísmo.”

“Pobre do país que precisa de heróis para defender a dignidade”, pronunciou Lula em 29 de junho 2004, dessa vez na  abertura da Conferência Nacional dos Direitos Humanos. “Nunca dantes na história deste país” alguém atropelou com tanta habilidade, graça e magia a língua portuguesa. E assim, com os olhos incandescentes e por vezes lacrimejantes de um sonhador, com sua personalidade avassaladora, barba de profeta e um coração benevolente iluminou um canto de amor à dignidade dos pobres deste país.

Certa vez falou aos jornalistas, sem se apequenar, o quanto era tamanho o peso de chumbo da sua educação. Se via cercado pela ditadura das palavras erradas e o quanto invejava a liberdade das palavras certas. “O governo tenta fazer o simples, porque o difícil é difícil”, pronunciou solene na 1ª Conferência  Nacional do Esporte, em 17 de junho de 2004. Aos meus olhos isso é parte de um horizonte brilhante que muitos adorariam ter alcançado, desse universo de semelhanças que num instante o identificam com seu povo, muito maiores que as diferenças que poderiam separá-los, ainda mais quando adornado com a expressão de um orgulho ímpar com que celebra cada conquista de sua tenacidade, com a luz da poesia.

E é por causa dessa luz inebriada de paciência que ele exibe no rosto as marcas das vitórias e das perdas em oito anos de mandato e que, embora decorrido um ano, ainda teima em brilhar para todos, que a jornalista Zilda Ferreira, finalmente, poderá entender – doze meses depois de ter escrito -, “por que a multidão [em Brasília, 01 de janeiro de 2011] gritava ‘Lula, herói do povo brasileiro!’. Gritava também enquanto o ex-presidente passava a faixa presidencial…. Depois, quando descia a rampa… Nesse momento…, em que quebrou o protocolo, atravessou a rua e foi cumprimentar o povo, quase chorando.” Consagrou então seu canto de herói, entregou-o em lágrimas à multidão que o aclamava, ampliou como ninguém a chama de seu candeeiro e sem ornamento algum tornou pálida a arte dos governantes que o antecederam.
 
– “Cheguei à Presidência para fazer as coisas que precisavam ser  feitas…” Taí…, um singelo canto de um herói.
 

 Antonio Fernando Araujo 

 

 


ARGENTINA – O caso “Papel Prensa”

25/12/2011

 

Esclarecedor texto publicado em Carta Capital desta data.

 

 

 

O monopólio controlado ao longo dos últimos 34 anos pelos dois maiores jornais argentinos começará a desmoronar, e esse desmoronamento será veloz. É fácil entender a ira do Clarín, do La Nación e de todos os barões da imprensa latino-americana, a começar pelos do Brasil. Difícil é entender que não se diga, às claras, que o que está sendo ameaçado é um negócio espúrio, embora de ouro, e não a sacrossanta liberdade de expressão. O artigo é de Eric Nepomuceno.

 

Eric Nepomuceno, de Buenos Aires.

 

A aprovação no Congresso argentino, por ampla maioria de votos, do projeto de lei que declara que “a fabricação, distribuição e comercialização do papel de imprensa é questão de interesse público”, reforçou ainda mais os ataques dos dois principais jornais argentinos, o La Nación e o Clarín, contra a presidente Cristina Kirchner.

E isso porque, assim que entrar em vigor, a nova legislação argentina irá tirar o papel de imprensa do férreo controle desses dois jornais, que controlam o capital da Papel Prensa. O Clarín tem 47% das ações, o La Nación outros 22%, enquanto o Estado argentino é dono de 27%. Os restantes 4% estão pulverizados entre pequenos acionistas.

A fábrica é a única a fornecer o papel utilizado pelos jornais e revistas do país. De um consumo médio de 230 mil toneladas anuais, a Papel Prensa produz e distribui 175 mil toneladas. Outras 55 mil são importadas, isentas de impostos. Controlar 75% desse mercado, como faz a Papel Prensa é exercer, de fato, o monopólio.

A nova lei, além de declarar de interesse público a fabricação, distribuição e importação do papel de imprensa, estabelece exigências que vão da expansão da capacidade da Papel Prensa à aplicação de um preço único, sem levar em conta a quantidade adquirida pelos compradores. Isso significa que um pequeno jornal do interior pagará o mesmo preço cobrado ao Clarín, que vende em média 400 mil exemplares diários e 700 mil nos fins de semana.

Hoje, o Clarín e o La Nación consomem 71% da produção da Papel Prensa. Os outros 29% vão para 168 publicações, que pagam pelo menos 15% a mais do que é pago pelos dois maiores jornais do país. E mais: ao controlar o capital da fábrica, Clarín e La Nación sabem, com certa antecedência, quando o preço do papel vai subir, e antecipam compras grandes, forçando um aumento nas importações. Todas as outras publicações argentinas pagam a diferença.

Outro detalhe do negócio: a Papel Prensa compra, para reciclar, os exemplares não vendidos tanto do Clarín como do La Nación, pagando 900 dólares a tonelada. Apenas esses dois jornais vendem seus encalhes à Papel Prensa. Os outros vendem no mercado avulso, a um preço bastante inferior.

Atualmente, a Papel Prensa opera com apenas 60% de sua capacidade. Quando a nova legislação entrar em vigor, será determinado de imediato um aumento na produção, até o país alcançar sua autonomia. Serão estabelecidas metas de investimento a cada três anos. Caso os dois jornais, que detêm a maioria da Papel Prensa, não cumpram sua parte, o Estado cobrirá a diferença, aumentando sua participação no capital da empresa. Por isso, o Clarín e o La Nación acusam Cristina Kirchner de ter armado uma tramóia que permitirá que o Estado assuma a empresa.

É assim que o monopólio controlado ao longo dos últimos 34 anos pelos dois maiores jornais argentinos começará a desmoronar, e esse desmoronamento será veloz. É fácil entender a ira do Clarín, do La Nación e de todos os barões da imprensa latino-americana, a começar pelos do Brasil. Difícil é entender que não se diga, às claras, que o que está sendo ameaçado é um negócio espúrio, embora de ouro, e não a sacrossanta liberdade de expressão.

Difícil, além disso, é entender as razões claramente falaciosas de tantos protestos indignados, todos eles tendo como bandeira a liberdade de imprensa. Afinal, mesmo que se admita que deixar o controle do papel de jornais e revistas nas mãos do Estado possa ser uma ameaça, manter esse mesmo controle nas mãos de dois grupos privados hegemônicos seria um meio eficaz de assegurar essa tão ameaçada liberdade? Será que os métodos aplicados pelo Clarín e pelo La Nación à concorrência asseguram essa liberdade?

Não é necessário mencionar a desfaçatez com que o Clarín distorce o noticiário e sabota informação através de seu formidável poderio, que vai de emissoras de rádio à internet, passando por jornais regionais, revistas e o domínio praticamente absoluto da televisão por cabo. Bastaria recordar a maneira com que, sempre em associação com o La Nación, impõe regras draconianas e imperiais sobre a publicidade privada.

Nas críticas que tanto um como outro lançam, furiosos, contra o governo, sempre há amplo espaço para denunciar a concentração da publicidade oficial em meios que são, em maior ou menor medida, simpáticos ao governo.

Essa concentração realmente ocorre. Mas falta recordar que tanto o Clarín como La Nación se jactavam, até há pouco, de sua recusa sistemática a aceitar publicidade oficial em suas páginas, salvo raras exceções. No caso específico do Clarín, José Aranda, vice-presidente do grupo, diz que um terço da receita vem de anúncios classificados, outro terço da venda de exemplares, um terço mais de anúncios convencionais. Portanto, diz ele, a publicidade oficial não faz falta.

Além disso, os dois jornais têm uma regra comum para a venda de seus respectivos espaços de publicidade: os grandes comércios e indústrias que anunciarem nos dois, e somente nos dois, têm um desconto de 50% sobre suas tabelas. Quem se dispuser a anunciar nos outros jornais, ou seja, nos que se alinham com o governo, perde esse desconto.

O que acontece na Argentina é mais profundo e complexo do que parece. Existe, sim, uma clara pressão do governo, mas não sobre a liberdade de expressão e de informação: o que se trata de combater é a liberdade de pressão e de deformação.

Além do mais, paira sobre a Papel Prensa a denúncia de um crime. Há indícios mais que concretos de que a única fábrica de papel de imprensa do país foi parar nas mãos do Clarín e do La Nación graças à ditadura militar que seqüestrou, ameaçou e torturou familiares de David Gravier, que era seu sócio majoritário e morreu de forma misteriosa em agosto de 1976, quando o terrorismo de Estado estava no auge (um auge, a bem da verdade, que durou até 1983).

Foi assim, na base de crimes de lesa-humanidade, que a Papel Prensa foi parar nas mãos dos donos do Clarín e do La Prensa. Os mesmos que, beneficiados por um regime sanguinário e corrupto que ajudaram a construir e, depois, a manter, agora acusam um governo eleito democraticamente, e reclamam o sacrossanto direito da propriedade privada.

 

 

Edemar ainda acredita e confia no “Efeito Orloff”


Leia, mas confira tudo que Veja diz

15/09/2011
 
Normalmente, os países buscam informações sobre outros pesquisando a imprensa destes. Espionagem à la 007 é, comparativamente, bastante rara.
 
Os americanos não fogem à regra mas, confirmando seu pendor para o domínio mundial, já perceberam que nossa Veja não é das publicações mais confiáveis.
 
Ao contrário, muitos de nós, brasileiros, fazemos profissão de fé sobre as capas do semanário. O texto abaixo foi copiado http://operamundi.uol.com.br. Edemar.
 
 
 
 
 

Wikileaks: Para EUA, Veja fabricou proximidade do PT com as FARC por objetivos políticos

 
No dia 16 de março de 2005, a revista semanal Veja publicou a matéria “Os Tentáculos das FARC no Brasil”, em que detalhava uma possível relação entre membros do PT (Partido dos Trabalhadores) com a guerrilha colombiana. O caso, porém, foi relatado pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília como um exagero, além de uma tentativa de “manobra política”.  O documento da embaixada com o relato foi  divulgado pelo Wikileaks.
 
Segundo a matéria, candidatos petistas teriam recebido 5 milhões de dólares da guerrilha durante uma reunião no ano de 2002, em uma fazenda próxima a Brasília. Na ocasião, membros do PT teriam se encontrado com o representante da organização colombiana no país, Francisco Antonio Cadenas, e acertado os detalhes. O objetivo seria financiar a campanha de reeleição do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010)… 
 
O partido, porém, negou as acusações e a Veja não conseguiu provas documentais sobre a transferência de dinheiro.
 
Para embaixada norte-americana, a revista “exagerou o real nível das relações entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o PT”, segundo o documento datado de março de 2005. Isso porque, após as acusações, membros da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) em Brasília, que de acordo com a revista, estavam infiltrados no encontro, não obtiveram provas concretas sobre o recebimento de dinheiro.
 
Citado pela embaixada norte-americana, o general Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Abin e que acompanhou a investigação, afirmou que os documentos internos da agência citados pela Veja como provas foram “forjados”, já que não estavam nas formatações da agência.
 
“O que foi publicado é uma mistura de meias verdades e meias mentiras. Nós não temos qualquer documento oficial que prove que o encontro ocorreu”, afirmou o delegado e chefe da Abin, Mauro Marcelo, também citado no despacho.
 
No documento, fica explícito o estranhamento do embaixador norte-americano em relação a demora de três anos para divulgação do possível financiamento. “A história mais parece uma manobra política. O que é incontestável é que os membros do PT e representantes das FARC estiveram juntos em um encontro, mas não há provas de colaboração financeira”, disse.
 
Para ele, o que deveria ser uma denúncia importante tornou-se uma ferramenta arquitetada pela Veja para minar a candidatura de Lula ao segundo mandato. “Enquanto os opositores e a outros veículos de comunicação estão notavelmente desinteressados em prosseguir com as acusações e investigações, parece que a Veja está exagerando os fatos”, conclui o embaixador.
 
 
 

Veja José Dirceu

06/09/2011

 

Reproduzo alguns trechos do blog de José Dirceu (www.zedirceu.com.br) onde este desnuda a desonestidade daquela revista. Edemar.

 

Medo da regulação da mídia? É pavor de concorrência                                                                                                                     Publicado em 06-Set-2011

Os barões da mídia e seus porta-vozes, inclusive no Congresso Nacional, continuam inconformados com a decisão tomada no 4º Congresso Nacional do PT, realizado no fim de semana, em Brasília, de lutar e mobilizar o país e a sociedade pela regulação da mídia. Também não mudaram de tática: continuam a seguir a principal, adotada há muito tempo, de tentar infundir na opinião pública que regulação da mídia é o mesmo que censura à imprensa.

Mais do que infundir, querem confundir, desinformar seus leitores. Vejo que hoje são auxiliados por dois senadores da oposição, o líder do PSDB, senador Álvaro Dias (PR) e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). O parlamentar pernambucano diz que marco regulatório da mídia “é o nome pomposo para um verdadeiro tribunal da inquisição da comunicação que os petistas querem implantar”. O líder tucano vem com uma história de que o PT defende a regulação para impedir denúncias de corrupção.

Os barões da mídia e seus porta-vozes nada mais fazem do que defender sua posição retrógrada e atrasada de sempre contra a regulação que, repito, existe na maioria dos países democráticos do mundo. É uma posição defensiva deles. Acuados, temem a concorrência e a perda do poder político, dos monopólios que detêm sobre a informação, graças aos impérios de comunicação que, ou herdaram, ou montaram em cada Estado.

Regulação não tem nada a ver com censura à imprensa

Regulação não tem, no entanto, nada a ver com censura ou controle da mídia. Ao contrário do que falou o senador Jarbas Vasconcelos, tampouco tem a ver com Veja, até porque o PT e a parcela consciente da nossa sociedade pró-regulação defendem-na há muito tempo e essa reportagem da revista contra mim saiu na semana passada (Leia mais neste blog). E a reportagem é outra coisa, é um caso de polícia e de jornalismo marrom.

Muito menos – ao contrário do que afirma Álvaro Dias – regulação tem a ver com denúncias de corrupção, que precisam ser todas apuradas e os responsáveis punidos.

Essa questão da regulação é um direito – meramente isso – inscrito na nossa Constituição, e defendido para que a mídia, que reina absoluta entre nós sem nenhuma legislação, tenha leis que rejam seu funcionamento e a obriguem a respeitar a Constituição (remeto-me a ela, mais uma vez) a princípios universais elementares como o respeito aos direitos de resposta, de imagem, privacidade e presunção da inocência.

Tudo isso já é assegurado pela nossa Constituição. Os barões da mídia fazem disso letra morta, mas terão de obedecer esses princípios com a regulação – daí a sua resistência contra.

Leiam também no portal Opera Mundi material completo sobre a regulação da mídia em diversos países.
 

  

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A tentativa de Veja de justificar seu injustificável jornalismo marrom
Publicado em 06-Set-2011

Veja usa toda a Carta ao Leitor desta semana para tentar justificar sua reportagem da edição 2232, de 31 de agosto, a meu respeito. É uma iniciativa para justificar o injustificável. Antes de a matéria ser publicada eu já havia denunciado a tentativa criminosa de seu jornalista, Gustavo Ribeiro, de invadir meu apartamento e o uso ilegal de imagens – obtidas não se sabe de que forma – de cidadãos que se reuniam ou me visitaram no Hotel Nahoum, onde resido quando estou em Brasília. 

Sem falar na tentativa do mesmo jornalista de se passar por assessor da prefeitura de Varginha (MG), cidade onde ele nasceu, para me entregar supostos documentos com pedidos da prefeitura ao governo, o que caracteriza outro crime – o de falsidade ideológica, o que também denunciei (Leia mais neste blog). 

A Carta ao Leitor, com o título sugestivo de “A verdadeira questão”, começa com um erro que revela o mau jornalismo da revista, ou o mais grave, as suas mentiras: diz que meus direitos políticos foram cassados. Não foram. A Câmara, ao me cassar o mandato de deputado federal em 2005, sem provas e injustamente, tornou-me inelegível por oito anos, mas não me cassou os direitos políticos. Voto, sou filiado ao PT, membro do Diretório Nacional e tenho direitos políticos sem restrições, inclusive para ocupar cargos públicos.

Ônus da prova cabe ao acusador

Ser réu não significa culpabilidade, já que o ônus da prova cabe ao acusador, no caso o Ministério Público Federal, como deixaram claro vários ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao acolherem a denúncia em agosto de 2007. Veja não pode afirmar – ao contrário do que faz em suaCarta ao Leitor – que a reportagem se baseia em imagens da câmera de segurança do hotel. Somente a perícia a ser realizada a partir do Boletim de Ocorrência (BO) e do inquérito instaurado pela 5ª  Delegacia de Polícia do Distrito Federal poderá dizer se as imagens são da câmera do hotel ou têm outra origem.

E, ao afirmar que suas imagens são da câmera do hotel, a revista reconhece que cometeu mais um crime, o de publicar, sem crédito, imagens sem autorização do hotel e dos hóspedes e visitantes que aparecem nas fotos, uma invasão da privacidade e da intimidade desses cidadãos. A revista não esclarece a seus leitores que meu escritório de advocacia, Oliveira e Silva e Ribeiro Advogados Associados na capital paulista, mediante contrato de reciprocidade (inclusive no uso das instalações comuns) registrado nas seccionais da OAB de São Paulo e Brasília, tem associação com o escritório Tessele & Madalena Advogados Associados.

Não esclarece, tampouco, que os apartamentos 1604 e 1606 do hotel estão alugados pelo escritório Tessele & Madalena, conforme confirmação de reserva nº 2309386 da Nahoum Turismo e Hospedagem S.A.. No registro da reserva de 13/03/11 a 06/12/11 consta como hóspede Oliveira, José Dirceu. 

Gabinete pseudo secreto

A revista diz que tenho um “gabinete secreto”, mas sabe que me hospedo nesse hotel e, inclusive, que jornalistas ali me visitam para entrevistas. Aliás, notas publicadas na coluna política dos jornalistas Cláudio Humberto e no Blog do Noblat registram que, desde 2006, em Brasília, resido em hotéis, frequento suas academias, restaurantes e cafés. É público e notório, portanto, que tenho residência e atendo naquele domicílio como extensão de meu escritório de advocacia, conforme o contrato registrado na OAB-DF. 

Tudo isso torna muito mais grave a tentativa de invasão de meu apartamento, só frustrada pela ação da camareira do hotel. Ela impediu que o jornalista Gustavo Ribeiro consumasse sua intenção de entrar no meu quarto ao alegar que perdera a chave do meu apartamento. O incidente foi imediatamente comunicado pela funcionária à sua chefia. 

Há, também, o fato gravíssimo de o jornalista somente ter se registrado no hotel depois da tentativa criminosa de invadir minha residência. Mesmo assim, não fui eu quem o acusou. Quem o fez foi o Hotel Nahoum, como consta do Boletim de Ocorrência à disposição de todos em meu blog (confira as imagens aqui e também neste link). Por esse documento, quem comunicou os fatos à polícia foi o chefe da segurança do hotel. No BO, José Dirceu e Hélio Madalena (meu sócio no escritório) constam como vítimas. O jornalista Gustavo Ribeiro é registrado como autor e a camareira como testemunha. O hotel consta como responsável pela comunicação do fato. Repito: não sou o autor do BO, como falsamente afirma a revista. Mais claro impossível. 

“Gente desclassificada”

Sobre a origem das imagens, não adianta a revista vociferar e agredir os blogs que, segundo ela, são feitos por “gente desclassificada”. Esse tipo de afirmação mostra o desespero da publicação.

Somente o inquérito policial poderá dizer se as imagens são da câmera do hotel ou de uma câmera ilegalmente instalada por arapongas, e se a revista comprou, ou não, as imagens. O fato irrefutável é que a Veja usou imagens sem autorização e as obteve ilegalmente. Também não se pode negar que o jornalista procurou se passar por mim para tentar invadir meu quarto; e que, por fim, simulou ser um assessor da prefeitura de Varginha para, novamente, ter acesso ao meu quarto.

O malfeito da revista está provado. São fatos e imagens que nenhumaCarta ao Leitor ou editorial podem mudar. Sem contar com o ridículo do conteúdo político da matéria, uma prova concreta do mau jornalismo panfletário e ideológico de Veja.

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Noventa Vezes em Nove Anos

04/09/2011

 

Trago material copiado do excelente Blog do Miro (http://altamiroborges.blogspot.com) e manifesto minha curiosidade sobre as razões de tanto ódio. Um dia saberemos, espero. Edemar.

Dirceu, Veja e o tribunal midiático

 
Por Washington Araujo, no Observatório da Imprensa:

Espanto, perplexidade, surpresa. Alguém em sã consciência poderia dizer que teve uma destas reações ao deparar com a capa da revista Veja (nº 2232, de 31/8/2011)? Só se for a de um brasileiro residindo em Berlim ou em Nairobi. Veja pode ser acusada de práticas jornalísticas pouco usuais, politicamente destemperada, editorialmente desequilibrada, mas não pode ser acusada de incoerência. No caso atual, a eterna “bola da vez” é o combativo militante petista – e sempre combatido pela revista – José Dirceu. E quem apostar que está difícil nesses tempos de turbulência na economia internacional “emplacar” um escândalo com fortes cores nacionais apostará corretamente, pois nesses casos a revista da Abril lança mão de seu tema-de-escândalo-habitual: Zé Dirceu.

Uma rápida busca nos arquivos digitalizados da própria revista mostra nada menos que 49.587 resultados quando preenchemos o campo de pesquisa com as palavras “José Dirceu”. E se formos pesquisar por edição, teremos que bisbilhotar – algo que a revista faz com maestria – nada menos do que em 91. Este é o número de vezes em que, no período 2002-2011, José Dirceu irá figurar na capa da revista, seja na manchete ou em chamadas secundárias.

Em uma breve retrospectiva vemos o vírus insidioso da intriga em seu nascedouro, como a farejar a proximidade inevitável do poder. E assim nasce a primeira chamada lateral de capa (25/9/2002): “José Dirceu: O homem que faz a cabeça de Lula”. E perfil mostra o guerrilheiro que treina em Cuba, participa ativamente da luta contra a ditadura brasileira e, foragido, se submete a uma cirurgia plástica no rosto.

A segunda “aparição”, ocorre na edição de 6/11/2002, quando Dirceu divide a capa-palco com dois outros ministros do primeiro governo Lula – Antonio Palocci e Luiz Gushiken. Os três vestidos a caráter para ilustrar a chamada que guarda certa nostalgia dos tempos do Brasil Império. Diz a manchete: “A cúpula da nova corte – Os três mosqueteiros com quem é preciso falar para ser ouvido no governo Lula”. O texto tem um único objetivo: mostrar quem tem poder real no novo governo e classificar as demais autoridades como meros figurantes, resultado de acertos de promessas a partidos políticos ao longo da campanha presidencial.

Escolhidos a dedo

Chega o ano de 2004 e Veja mostra a que veio, elegendo José Dirceu como representante-mor do “mal” que se apossa do corpo do Brasil, quase como uma entidade sobrenatural, não obstante a chamada lateral de sua capa de 3/3/2004 parecesse vender a imagem de um ex-ministro-todo-poderoso em franca desgraça: “José Dirceu: O ministro continua encolhendo”.

Para chegar à tese do encolhimento do detentor de poder político, a revista vinha desde 2003 lançando farpas e lanças, como para dividir de forma irremediável aqueles mesmos três que antes saudara como sucedâneos de Athos, Portus e Aramis. É o período em que escapa da artilharia pesada apenas o D’Artagnan redivivo em Luiz Inácio Lula da Silva. E escapa porque consegue se manter em crescente popularidade junto aos milhões de súditos, para usar a metáfora acolhida pela revista. Logo na semana seguinte a edição de Veja (10/3/2004) traz seu rosto tomando toda a capa e os dizeres simulando desabafo do retratado: “Dirceu: Não vou sair do governo”.

São muitas matérias, geralmente citando fontes em off, frases recolhidas fora do contexto em que foram ditas e reajuntadas a contextos mais atuais, mas tendo um único objetivo: manter com Dirceu a aura de malévolo, gângster, traficante de influência nato e outros epítetos nada lisonjeiros a alguém que tem claro protagonismo político e partidário, além de sagaz operador do governo que ajudou a eleger ao criar estratégias vitoriosas e reconhecidas mesmo por seus mais acerbos adversários. Esta abordagem que cada vez mais se enraíza no modo-Veja-de-fazer-jornalismo deságua em outra capa com o rosto do ex-ministro e a manchete premonitória e sombria (3/8/2005): “O Risco Dirceu”.

De 2005 a 2007, José Dirceu estará sempre relacionado com o que a grande imprensa optou por chamar de “Mensalão do PT”. Matérias e quase-reportagens no período esposarão teses fatalistas tendo como ponto de convergência o impeachment do presidente Lula, a desmoralização completa dos partidos de esquerda, em particular do Partido dos Trabalhadores. As “páginas amarelas”, aquelas que abrem as edições de Veja com “grandes entrevistas”, serão literalmente amareladas com entrevistados que desenvolvam qualquer tese, por mais estúpida que seja, para desmerecer ou se contrapor frontalmente a quaisquer das políticas públicas mais vistosas do governo Lula: o Bolsa Família, a transposição de águas do Rio São Francisco, o ProUni, a política de ações afirmativas (cotas para negros, índios nas universidades). Entrevistados mostrarão por a+b que o Bolsa Família é na realidade uma Bolsa-Esmola, que o programa tem apenas apelo eleitoral, é insustentável e só tem porta de entrada.

Lembram dessas histórias? Entrevistados escolhidos a dedo para prestar sua devoção incondicional aos cânones do neoliberalismo, ao papel mínimo do Estado, ao sacrossanto direito a extensões de terras para corar de inveja os faraós do antigo Egito. O acesso de afrodescendentes às universidades através de cotas receberá a cada semana um novo petardo onde tais luminares encontrarão apenas mazelas sociais no Brasil e nunca mazelas raciais.

Imprensa criminosa

Na edição de 19/9/2007 a chamada lateral na capa é um primor de síntese da atividade judiciária: “Caso MSI/Corinthians: A Polícia Federal descobre as pegadas de José Dirceu”. A criminalização de José Dirceu parece fazer parte do manual de redação da revista. É quando Veja levanta suspeitas, investiga, acusa, julga, condena, acompanha o cumprimento da pena e veta qualquer direito ao contraditório. O Tribunal Midiático parece ter mais poder destruidor que Tribunal regular, instância judiciária em uma sociedade democrática.

O Tribunal Midiático recebe o apoio não falado, não escrito, não reverberado, não consignado de seus pares, igualmente juízes e donos do mesmo poder de noticiar, informar, afirmar, acusar, julgar, condenar. Para integrar tal Corte basta ter jornal impresso com alta tiragem e ampla circulação diária, ter concessão pública de exploração de canal de tevê aberta e emissora de rádio com cobertura nacional em AM e FM, além de vistosos portais na internet e a propriedade de alguns canais de tevê a cabo.

Como um contrato de gaveta, sem legitimidade ou valor legal perante o Poder Público, os que integram o Tribunal Midiático agem à la James Bond, aquele velho personagem vivido por Sean Connery, cujo poder estava inscrito em sua identidade: “Licença para matar”. A verdade é que a maior concessão que um capo da mídia pode fazer em relação a um desafeto é lhe conceder, eventualmente, espaço para escrever algo, colocar de pé uma ideia. Mas nunca para se contrapor de maneira frontal e explícita contra o veículo de comunicação que assaque contra sua honra, invada sua privacidade, utilize de banditismo para fazer circular a “sua” verdade sobre um determinado assunto. Qualquer assunto.

Chega agosto, mês de desgosto para alguns, mês de tragédias nacionais na política brasileira (Getúlio Vargas, Jânio Quadros etc). E a revista Veja parece continuar impressionada com a saga de Mario Puzo, com o seu Don Corleone, de O Poderoso Chefão. A capa da edição de 31/8/2011 traz o rosto de José Dirceu, óculos escuros, meio-sorriso mafioso, bem versão Marlon Brando, vestindo o personagem de Puzo. O texto de capa é, muito provavelmente, o mais destoante entre uma chamada de capa e sua matéria interna: “O Poderoso Chefão / O ex-ministro José Dirceu mantém um ‘gabinete’ num hotel de Brasília, onde despacha com graúdos da República e conspira contra o governo da presidente Dilma”.

O que merecia mesmo uma ampla reportagem é a metodologia adotada pela revista para cumprir sua pauta. Repórter se passando por companheiro de quarto de hotel de José Dirceu. Repórter tentando conseguir a chave do apartamento de José Dirceu com a camareira. Imagens citadas/retratadas na revista como se houvessem sido cedidas pela segurança do hotel – aliás, e isso parece inacreditável, o mesmo hotel que lavrou boletim de ocorrência em delegacia de polícia dando conta de hóspede suspeito querendo invadir um quarto. Etc., etc., etc. Os crimes lançados na “reportagem” infelizmente, para a revista, não são tipificados no Código Penal brasileiro: receber visitas em seu quarto de hotel, visitas que tanto podem ser de entregadores de pizza ou comida chinesa, como de parlamentares ou mesmo ministros de Estado.

Não discorro mais sobre o assunto porque Ricardo Kotscho já disse tudo sobre esta última parte (ver “Repórter não é polícia; imprensa não é justiça”). A pulga que tenho na orelha é saber se, por algum acaso, repórteres de Veja estagiaram recentemente no jornal News of the World do realmente mafioso midiático Rupert Murdoch. Caso tenham estagiado, pelo jeito não aprenderam bem as lições que somente uma imprensa criminosa poderia ensinar.

  

O Banco Central e os juros

02/09/2011

 

 

Reproduzo com orgulho, por todos escassos meios a meu alcance, este elucidador artigo do Jornalista Mauro Santayana que li no Conversa Afiada, do Paulo Henrique Amorim. Edemar.

 

Os juros e o Banco Central


por Mauro Santayana


Os defensores da plena autonomia do Banco Central consideraram um erro a redução da taxa Selic, de meio ponto percentual, para 12% ao ano – ainda assim, a mais alta entre as economias industrializadas. Sempre que isso ocorre, os mesmos interesses se erguem, na defesa dos rentistas. Como as moedas não copulam, nem partejam, quem paga os juros é o trabalho, que produz a mais valia obtida pelo capital. Desculpem se a expressão é marxista, mas qualquer um que pense um pouco não precisa de Marx e seus textos contestados pelo fundamentalismo mercantil, para chegar à verdade. Como trabalho se entenda também a administração das empresas produtivas, seja diretamente pelos acionistas ou gerentes contratados. Mas o rentista clássico, que vive longe das máquinas ou, que, como banqueiro, manipula o dinheiro alheio – e leva à angústia e ao desespero os devedores, os estados à falência, como está ocorrendo agora, com o desemprego e a violência –  sua atividade não pode ser vista como produtiva, por mais se esforcem os seus porta-vozes, ao expor os argumentos de uma pseudo-filosofia econômica. Esse “senhorio” da moeda, em nome de falsa racionalidade técnica, que está sempre a serviço do capital, e não das pessoas,  tem sido responsável pelas grandes crises do capitalismo moderno, como a História demonstra.


O Banco Central – e os lugares comuns têm a sua força – vem sendo, no Brasil, mais do que em outros países, a central dos bancos. Ora, seus diretores, por mais geniais sejam, não dispõem de legitimidade política para cuidar da moeda, que é o símbolo mais forte da soberania nacional. A moeda representa os bens da comunidade, acumulados com o trabalho de gerações sucessivas. Para que assegure  seu valor real, ela deve ser emitida por quem tenha a legitimidade política para fazê-lo: os eventuais governantes do Estado, como detentores da vontade nacional. Sem voto, nos estados democráticos como se identifica o nosso, não há poder legítimo. De duas, uma: ou o Banco Central se submete às decisões políticas do governo nacional, ou se estará sobrepondo ao poder dos eleitos para conduzir o Estado, e, assim, colocando-se acima da soberania do povo.


A quem interessa manter os juros altos? Há um axioma, que nunca se respeitou no Brasil, de que a taxa de juros não pode superar a taxa de crescimento do PIB. O raciocínio, empírico, é irretorquível: uma sociedade não pode pagar mais de juros do que o que ela obtém com o seu trabalho. A tradução de um leigo, como o colunista, é simples: trata-se de uma extorsão cometida pelo sistema financeiro contra os que trabalham e produzem. É mais do que uma transferência de recursos, é uma usurpação do poder real sobre a sociedade. Isso explica a dívida pública acumulada como confisco de parcela dos resultados do trabalho dos brasileiros.


É um mistério que o país continue crescendo dentro desse sistema. Talvez ele se explique se considerarmos as estatísticas uma ficção. É provável, portanto, que o nosso PIB real seja maior do que o IBGE constata no exame do comportamento da economia. Se assim for, que viva a informalidade, menos sujeita à expropriação dos bancos e aos instrumentos de aferição oficial.


A economia não é, como dizem os que a conhecem melhor,  ciência exata. Deveria ser  ciência moral, mas não é, a não ser que ouçamos alguns santos, que dela trataram, como Santo Antonino de Florença, do século XV, autor do clássico de teologia “Summa Moralis” e feroz combatente contra a usura.


Os economistas, de modo geral (menos, é claro, os mais competentes) costumam fazer de seu ofício uma espécie de culto esotérico, com confusas fórmulas algébricas e aleijões lógicos. Como recomendava Lord Keynes, eles deveriam encarar o seu trabalho com a mesma modéstia com que os dentistas encaram o seu. O certo é que todas as aplicações da inteligência, ou todos os saberes, se assim entendemos as ciências, se encontram a serviço das relações de poder.  Isso faz com que a economia volte à sua denominação clássica, da qual seus profissionais de hoje buscam fugir: economia política. Fora da política, que trata do poder, não há economia, nem há coisa alguma. O Banco Central, como administrador da moeda, deve sim, submeter-se à legitimidade do poder político.


Para lembrar um empresário e homem público brasileiro, que nos deixou recentemente – José Alencar – a taxa de juros cobrada no Brasil (e cobrada sobretudo do Estado, com a cumplicidade de alguns de seus servidores) é um assalto.


Aconteceu em 05 de agosto de 1981

08/08/2011
 
Edemar copiou de www.cartamaior.com.br.
 
 
 
 
 
 

Trinta anos atrás hoje: o dia em que a classe média morreu

Houve um tempo em que o povo trabalhador dos Estados Unidos podia criar uma família e enviar as crianças à faculdade com a renda de um só dos pais (e que as faculdades em estados como Califórnia e Nova York eram quase gratuitas). De um tempo em que quem quisesse ter um trabalho remunerado decente o teria; em que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana e oito horas por dia, tinham todo o fim de semana de folga e as férias pagas todo verão. Esse tempo terminou no dia 5 de agosto de 1981. O artigo é de Michael Moore.

Michael Moore

De tempos em tempos, alguém com menos de 30 anos irá me perguntar: “Quando tudo isso começou, o deslizamento da América ladeira abaixo?”. Eles dizem que ouviram falar de um tempo em que o povo trabalhador podia criar uma família e enviar as crianças à faculdade com a renda de um só dos pais (e que as faculdades em estados como Califórnia e Nova York eram quase gratuitas). De um tempo em que quem quisesse ter um trabalho remunerado decente o teria; em que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana e oito horas por dia, tinham todo o fim de semana de folga e as férias pagas todo verão. Que muitos empregos eram sindicalizados, de empacotadores em supermercados ao cara que pintava sua casa, e isso significava que não importava qual o seu trabalho, pois, por menos qualificado que fosse, lhe daria as garantias de uma aposentadoria, aumentos eventuais, seguro saúde e alguém para defendê-lo se fosse tratado injustamente.

As pessoas jovens têm ouvido a respeito desse tempo mítico – só que não é mito, foi real. E quando eles perguntam: “quando tudo isso acabou?”, eu digo: terminou neste dia: 5 de agosto de 1981.

A partir desta data, 30 anos atrás, o Grande Negócio e a Direita decidiram “botar para quebrar” – para ver se poderiam de fato destruir a classe média, e assim se tornarem mais ricos.

E eles se deram bem.

Em 5 de agosto de 1981, o presidente Ronald Reagan atacou todos os membros do sindicato dos controladores de vôo [PATCO – sigla em inglês], que tinha desafiado sua ordem de retornarem ao trabalho e declarou seu sindicato ilegal. Eles estavam de greve há apenas dois dias.

Foi um movimento forte e audacioso. Ninguém jamais tinha tentado isso. O que o tornou ainda mais forte foi o fato de que o PATCO foi um dos dois únicos sindicatos que tinha apoiado Reagan para presidente! Isso gerou uma onda de pânico nos trabalhadores ao longo do país. Se ele fez isso com as pessoas que votaram nele, o que fará conosco?

Reagan foi apoiado por Wall Street na sua corrida para a Casa Branca e eles, junto à direita cristã, queriam reestruturar a América e mudar a direção da tendência inaugurada pelo presidente Franklin D. Roosevelt – uma tendência concebida para tornar a vida melhor para o trabalhador comum. Os ricos odiavam pagar salários melhores e arcarem com os custos dos benefícios sociais. E eles odiavam ainda mais pagar impostos. E desprezavam os sindicatos. A direita cristã odiava qualquer coisa que soasse como socialismo ou que defendesse o reconhecimento de minorias ou mulheres.

Reagan prometeu acabar com tudo. Assim, quando os controladores de tráfego aéreo entraram em greve, ele aproveitou o momento. Ao se livrar de todos eles e jogar seu sindicato na ilegalidade, ele enviou uma clara e forte mensagem: os dias de todos com uma vida confortável de classe média acabaram. A América, a partir de agora, será comandada da seguinte maneira:

* Os super-ricos vão fazer muito, mas muito mais dinheiro e o resto de vocês vai se digladiar pelas migalhas deixadas pelo caminho.

* Todos devem trabalhar! Mãe, Pai, os adolescentes, na casa! Pai, você trabalha num segundo emprego! Crianças, aqui estão as suas chaves para vocês voltarem para casa sozinhas! Seus pais devem estar em casa na hora de pô-los para dormir.

* 50 milhões de vocês devem ficar sem seguro de saúde! E para metade das companhias de seguro: vão em frente e decidam quem vocês querem ajudar – ou não.

* Os sindicatos são maus! Você não será sindicalizado! Você não precisa de um advogado! Cale a boca e volte para o trabalho! Não, você não pode ir embora agora, não terminamos ainda. Suas crianças podem fazer seu próprio jantar.

* Você quer ir para a faculdade? Sem problemas – assine aqui e fique empenhado num banco pelos próximos 20 anos!

*O que é “aumento”? Volte ao trabalho e cale a boca!

E por aí vai. Mas Reagan não poderia ter levado tudo isso a cabo sozinho, em 1981. Ele teve uma grande ajuda: a AFL-CIO

A maior central sindical dos EUA disse aos seus membros para furarem a greve dos controladores de tráfego aéreo e irem trabalhar. E foi só o que esses membros do sindicato fizeram. Pilotos sindicalizados, comissários de bordo, motoristas de caminhão, operadores de bagagens – todos eles furaram a greve e ajudaram a quebra-la. E os membros do sindicato de todas as categorias furaram os piquetes ao voltarem a voar.

Reagan e Wall Street não podiam crer nos seus olhos! Centenas de milhares de trabalhadores e membros dos sindicatos apoiando a demissão de companheiros sindicalizados. Foi um presente de natal em Agosto para as corporações da América.

E isso foi só o começo. Reagan e os Republicanos sabiam que poderiam fazer o que quisessem, e o fizeram. Eles cortaram os impostos para os ricos. Tornaram a sua vida mais dura, caso quisesse abrir um sindicato no seu local de trabalho. Eliminaram normas de segurança do trabalho. Ignoraram as leis contra o monopólio e permitiram que milhares de empresas se fusionassem ou fossem compradas e fechassem as portas. As corporações congelaram os salários e ameaçaram mudar de país se os trabalhadores não aceitassem receber menos e com menos benefícios. E quando os trabalhadores concordaram em trabalhar por menos, eles exportaram os empregos mesmo assim.

E a cada passo dado nesse caminho, a maioria dos americanos estavam juntos, apoiando-os. Houve pouca oposição ou contra-ataque. As “massas” não se levantaram e protegeram os seus empregos, suas moradias e escolas (os quais costumavam ser os melhores do mundo). Simplesmente aceitaram seu destino e tomaram porrada.

Eu sempre me pergunto o que teria ocorrido se eles tivessem parado de voar, ponto, em 1981. E se todos os sindicatos tivessem dito a Reagan “Dê a esses controladores de voo os seus empregos de volta ou eles derrubarão o país”? Você sabe o que teria acontecido. A elite das corporações e seu boy, Reagan, teriam se dobrado.

Mas nós não fizemos isso. E assim, passo a passo, peça por peça, nos 30 anos seguintes aqueles que estiveram no poder destruíram a classe média em nosso país e, em troca, arruinaram o futuro de nossa juventude. Os salários permaneceram estagnados por 30 anos. Dê uma olhada nas estatísticas e você poderá ver que todo o declínio que estamos sofrendo agora teve seu início em 1981 (eis aqui http://www.youtube.com/watch?v=vvVAPsn3Fpk uma pequena cena para ilustrar essa história, do meu filme mais recente).

Tudo isso começou neste dia, há 30 anos. Um dos dias mais obscuros na história dos EUA. E nós deixamos que isso ocorresse a nós. Sim, eles tinham o dinheiro e a mídia e as corporações. Mas nós tínhamos 200 milhões de nós. Você já se perguntou o que seria se 200 milhões tivessem se enfurecido e quisessem seu país, sua vida, seu emprego, seu fim de semana, seu tempo com suas crianças de volta?

Nós todos simplesmente desistimos? O que estamos esperando? Esqueça os 20% que apoiam o Tea Party – nós somos os outros 80%! Esse declínio só vai terminar quando exigirmos isso. E não por meio de uma petição online ou de uma twittada. Teremos de desligar as tevês e os computadores e os videogames e tomar as ruas (como o fizeram no Wisconsin). Alguns de vocês precisam sair dos seus gabinetes de trabalho local no próximo ano. Precisamos exigir que os democratas tenham coragem e parem de receber dinheiro de corporações – ou as deixem de lado.

Quando será suficiente, o suficiente? O sonho da classe média não reaparecerá magicamente. O plano de Wall Street é claro: a América deve ser uma nação dos que têm e dos que nada têm. Isso está bem para você?

Por que não aproveitar hoje (05/08) para parar e pensar a respeito dos pequenos passos que você pode dar pela sua vizinhança e em seu local de trabalho, em sua escola? Há algum outro dia melhor para começar a fazer isso, que não seja hoje?

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte
http://www.michaelmoore.com/words/mike-friends-blog/30-years-ago-today