Estão os animais à nossa frente?

Não garanto a autenticidade, mas que impressiona, impressiona.

Edemar.

“O ESTRANHO MISTERIOSO,  de Mark Twain

Editora AXISMVNDI


Eu e Satã caminhávamos na direção da minha casa. Eu estava pensando cá comigo que gostaria de ver como era o interior da prisão; Satã ouviu meus pensamentos e no momento seguinte estávamos dentro da prisão. Na câmara de torturas, disse Satã. O ecúleo estava ali, e os outros instrumentos, e havia uma ou duas lamparinas fumarentas penduradas nas paredes, ajudando a tornar o local sombrio e assustador. Havia prisioneiros ali, e também carrascos, mas como ninguém se deu conta de nós, significava que estávamos invisíveis. Um rapaz estava deitado, amarrado, e Satã disse que ele era suspeito de heresia, e os carrascos estavam a ponto de torturá-lo. Mandaram o rapaz se confessar culpado e ele disse que não podia, porque não era verdade. Então eles enfiaram lascas de madeira debaixo de suas unhas, e ele berrou de dor. Satã não se perturbou, mas eu não consegui suportar e tive de ser levado rapidamente dali. Eu estava quase desmaiando e enjoado, mas o ar fresco me revigorou e caminhamos para a minha casa. Eu disse que aquilo era uma coisa animalesca.

– Não, era uma coisa humana. Você não deve insultar os animais com o uso errado dessa palavra, eles não o merecem.

E continuou a falar coisas do mesmo gênero:

-É como a sua raça mesquinha, sempre mentindo, sempre clamando virtudes que não possui, sempre negando essas virtudes aos animais superiores, que são os únicos que as possuem. Nenhum animal jamais fez uma coisa cruel… isso é monopólio daqueles que têm o Senso Moral. Quando um animal inflige dor, ele o faz inocentemente. Ele não está errado. Para ele não existe o errado. E ele não inflige dor pelo prazer de infligi-la, só o homem faz isso. Inspirado por esse seu abastardado Senso Moral! Um senso cuja função é a de distinguir entre o certo e o errado, com liberdade de escolher qual deles praticará. Agora, que vantagem ele tira disso? Ele está sempre escolhendo, e nove vezes em cada dez ele prefere o errado. Não deveria haver nenhum errado. E, sem o Senso Moral, não haveria. Ainda assim, o homem é uma criatura tão irracional que não é capaz de perceber que o Senso Moral o degrada à camada mais baixa dos seres vivos e é uma posse vergonhosa. Você está se sentindo melhor? Quero lhe mostrar uma coisa.

Num instante estávamos numa cidade da França. Percorremos uma espécie de grande fábrica, onde homens, mulheres e crianças trabalhavam no calor e na sujeira, envoltos numa nuvem de pó. Vestiam andrajos e cambaleavam ao peso do trabalho, porque estavam exaustos e semimortos de fome, enfraquecidos e entorpecidos. Satã disse:

– Eis outro exemplo de Senso Moral. Os proprietários são ricos e muito virtuosos, mas o salário que pagam a estes seus pobres irmãos e irmãs é mal o suficiente para impedi-los de cair mortos de fome. Eles trabalham quatorze horas por dia, do inverno ao verão, das seis da manhã às oito da noite, criancinhas inclusive. Vão e vêm dos chiqueiros onde moram, sete quilômetros na vinda e sete na ida, através da lama e do lodo, da chuva, neve, geada e tempestade, todo dia, entra ano e sai ano. Têm quatro horas de sono.. Vivem em choças miseráveis, três famílias em um cômodo, num fedor e sujeira além da imaginação. A doença chega e eles morrem como moscas. Cometeram algum crime, estas coisas esquálidas? Não. O que fizeram para receber tal punição? Nada. Nada, exceto terem nascido nessa sua raça insensata. Você viu, lá na cadeia, como eles tratam os criminosos… agora está vendo como eles tratam os inocentes e os justos. A sua raça é ilógica? Estes inocentes fedorentos vivem melhor do que aquele herege? Certamente que não. O castigo do herege é trivial comparado com o castigo destes inocentes. O herege, eles quebraram seus ossos na roda e o chicotearam até deixar seu corpo em tiras, e agora ele está morto e livre da sua preciosa raça. Mas estes pobres escravos aqui, ele vêm morrendo há anos, e alguns deles não escaparão da vida por muitos anos ainda. É o Senso Moral que ensina aos proprietários desta fábrica a diferença entre o certo e o errado, o resultado você está vendo. Eles pensam que são melhores que os cães. Ah, vocês são uma raça tão ilógica, tão irracional! Mesquinha, indizívelmente mesquinha!

Então ele abandonou toda seriedade e esforçou-se para nos ridicularizar, troçando do nosso orgulho por nossos feitos guerreiros, nossos grandes heróis, nossa fama imperecível, nossos poderosos reis, nossas antigas aristocracias, nossa história venerável, e riu e riu até que meu estômago virava só de ouvi-lo. Finalmente ficou um pouco mais sério e disse:

– Bem, afinal de contas, nem tudo é ridículo. Há algo patético quando lembro como são poucos os seus dias, como são infantis as suas pompas e as sombras que vocês são.

Tudo desapareceu de repente da minha visão e eu sabia o que isso significava. No momento seguinte caminhávamos por nossa aldeia e mais abaixo, perto do rio, eu via as luzes do Cervo Dourado piscando entre as árvores. Então ouvi um grito alegre: “Ele voltou!”

Era Seppi Wolmeyer, ele tinha sentido seu sangue pulsar e seu ânimo subir de um modo que só podia significar uma única coisa: Satã estava por perto, embora estivesse escuro demais para vê-lo. Seppi veio até nós e caminhamos juntos, e Seppi transbordava alegria como água da fonte. Parecia um apaixonado que tivesse reencontrado a namorada perdida. Seppi era um menino esperto e animado, tinha entusiasmo e expressão, bem ao contrário de Nikolaus e de mim. Ele estava fascinado pelo último grande mistério local: o desaparecimento de Hans Oppert, o vagabundo da aldeia. As pessoas estavam começando a ficar curiosas, disse ele. Não disse “ansiosas”, curiosas apenas, era a palavra certa. Ninguém vira Hans nos últimos dois dias.

– Desde que ele fez aquela coisa animalesca, sabe?

– Que coisa animalesca?

Foi Satã quem perguntou.

– Bem, ele estava sempre batendo no cachorro, que era um bom cachorro e o único amigo dele, era fiel e amava o Hans, não fazia mal a ninguém. E dois dias atrás ele estava de novo batendo no cachorro com um pedaço de pau, por nada, só por prazer, e o cachorro uivava e gania. Theodor e eu pedimos para ele parar pelo amor de Deus, mas ele ameaçou a gente e bateu de novo no cachorro com tanta força que arrancou fora um olho dele, daí ele disse para nós. “Viu, estão satisfeitos agora ? Foi isso que o bicho ganhou por causa de vocês meterem o bedelho onde não é da sua conta” e caiu na risada, aquele animal sem coração.

A voz de Seppi tremia de pena e de raiva. Eu imaginei o que Satã iria dizer, e foi exatamente o que ele disse.

– Aí está outro mau uso da palavra, uma calúnia vergonhosa. Os animais não agem assim, só os homens.

– Bom, de todo modo aquilo foi desumano.

– Não, Seppi, não foi desumano, foi humano, perfeitamente humano. Não é agradável ouvir você difamar os animais superiores atribuindo-lhes disposições das quais eles estão livres e que só são encontradas no coração humano. Nenhum dos animais superiores está maculado com a doença chamada Senso Moral. Purifique sua linguagem, Seppi, tire dela essas expressão falsa.

Satã falou num tom que, para ele, era severo e me arrependi de não ter avisado Seppi para ser mais cuidadoso com as palavras que usava. Eu sabia como ele estava se sentindo. Ele não queria ofender Satã, preferiria antes ofender toda a sua própria família. Houve um silêncio desconfortável, mas logo chegou alívio. O pobre cão surgiu, com o olho dependurado e caminhou direto para Satã, gemendo e soltando murmúrios entrecortados. Satã lhe respondeu do mesmo modo. Estava claro que eles conversavam na língua dos cachorros. Sentamos na grama, ao luar, porque as nuvens estavam agora se afastando, e Satã pôs no colo a cabeça do cachorro, colocou seu olho de volta no lugar, o cão ficou bom, abanou o rabo e lambeu a mão de Satã. Parecia agradecido e disse isso; eu sabia que ele estava dizendo isso, mesmo não entendendo os sons. Depois os dois conversaram mais um pouco e Satã falou:

– Ele diz que o dono estava bêbado.

Nós confirmamos:

– Sim, estava.

– E uma hora mais tarde ele caiu de um precipício perto da Pastagem do Penhasco.

– A gente conhece o lugar, fica a uns cinco quilômetros daqui.

– O cão foi várias vezes até a aldeia pedir às pessoas que fossem até lá, mas todo mundo o enxotou e ninguém lhe deu ouvidos.

Nós nos lembrávamos disso, mas não tínhamos entendido o que o cão queria.

– Ele só queria ajudar o homem que o maltratara, só pensava nisso, não comia nada nem pensava em comida. Ficou ao lado do dono durante duas noites. O que vocês acham da raça humana? O céu está reservado para vocês e este cão está excluído do céu, como dizem seus professores? Acham que a raça humana pode acrescentar alguma coisa ao estoque de moral e grandeza deste cão?

Ele falou com o cachorro, que pulou ansioso e feliz, parecendo pronto para receber ordens e impaciente para executá-las.

– Pequem alguns homens e sigam o cão, ele vai levar vocês até aquela carniça. E levem um padre junto para negociar o seguro, porque a morte está próxima.

Com estas palavras ele se desvaneceu, para nossa tristeza e desapontamento. Pegamos os homens e o Padre Adolf, fomos até a Pastagem do Penhasco e vimos o homem que tinha acabado de morrer. Ninguém se incomodou, exceto o cachorro. O cachorro gemeu e lamentou-se, lambeu o rosto do morto, desconsolado. Enterramos o homem ali mesmo, sem caixão, já que ele não tinha dinheiro nem amigos, exceto o cachorro… Se tivéssemos chegado uma hora antes, o padre teria tido tempo de enviar aquela pobre criatura para o céu, mas agora ele tinha ido para os fogos terríveis, onde queimaria para todo o sempre. Parecia uma tristeza que num mundo onde tantas pessoas têm dificuldades em ocupar seu tempo, uma mísera hora não tenha sido dedicada àquela pobre criatura que ela tanto precisava, e para quem teria feito a diferença entre a eterna alegria e a dor eterna. Isso dava uma idéia espantosa do valor de uma hora, e eu pensei que nunca mais desperdiçaria uma hora sem remorso e terror. Seppi estava deprimido e pesaroso, dizendo que devia ser bem melhor ser um cachorro e não correr tais riscos terríveis. Nós levamos o cachorro para casa e o conservamos como se fosse nosso. Seppi teve uma idéia fantástica quando estávamos a caminho: alegrou-nos e nos fez sentir melhor. Ele disse que, como o cão tinha perdoado ao homem que lhe fizera tanto mal, talvez Deus aceitasse aquela absolvição.”

Eu lembro: animais não matam à toa.


Anúncios

One Response to Estão os animais à nossa frente?

  1. Neri Perrud disse:

    Caro blogueiro,

    Eu relembro: só os homens matam por prazer.
    Conviver com animais é a medida exata para perceber o quanto eles estão avançados em seus interrelacionamentos.
    Em minha casa, convivendo com dez charmosos gatos, entre femeas e machos, percebo que toda e qualquer insatisfação é prontamente resolvida com um miau mais estridente ou mais rouco..e depois reclamante e reclamado vão dormir em paz…
    Imagine esta cena com Homo Sapiens…
    Parabéns pelo blog…quem não o acessa, não sabe o que perde, de tão variados assuntos e enfoques…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: