Projeto de lei a apoiar

30/05/2010

O Projeto de Lei Complementar 140/07 (PLP), que extingue o voto de minerva nos conselhos dos Fundos de Previdência Complementar de empresas estatais, foi aprovado, dia doze último, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados.

Esse projeto, de autoria do Deputado Eudes Xavier (PT/CE), tinha sido rejeitado pela Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara em fins do ano passado. Com esta última vitória, será apreciado, a seguir, pelo Plenário da Câmara.

Para nós, funcionários, aposentados e pensionistas, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, a aprovação desse projeto é de suma importância, pois retira dos patrocinadores a indicação do Presidente dos Conselhos Deliberativo e Fiscal das Caixas de Previdência, voltando sua composição paritária com escolha do Presidente do Conselho pelos conselheiros; é o fim do voto de desempate sempre nas mãos do patrocinador.

Os sindicatos de classe acompanham o processo, bem como as associações de funcionários, mas é de todo conveniente que cada um de nós se manifeste perante seu deputado, pedindo apoio para tal projeto. Reforçando a atuação de nossas associações e sindicatos, devemos também agir paralelamente a eles junto aos legisladores que nos representam, reafirmando nosso interesse, em saudável exercício de democracia. Todos deputados tem endereço eletrônico e um imeil custa quase nada, evidentemente sem desprezarmos outros meios de comunicação mais adequados em casos especiais.

Sejamos atentos e atuantes. O que engorda o boi é o olho do dono.

Edemar Motta.

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Lei da palmada

27/05/2010

Use corretamente o papel higiênico

Por João Ubaldo Ribeiro
Creio que sempre tivemos a mania de regular a conduta alheia e estabelecer normas para atos que não deviam ser da conta de ninguém, exceto os envolvidos. Mas, ultimamente, parece que isso está deixando de ser um vício burocrático, para virar moda.

Todo dia algum brioso engenheiro social inventa regras para a nossa conduta, muitas delas com a finalidade de nos proteger de coisas contra as quais não queremos ser protegidos, como acontece com as novas disposições relativas a balcões e prateleiras de farmácias.

E, povo acostumado a comportar-se como se direitos básicos, a exemplo da liberdade de ir e vir ou de pensar e expressar-se livremente, constituíssem outorgas do Estado, somos cada vez mais tiranizados por esses abusos e, daqui a pouco, se não prestarmos atenção, teremos de preencher um formulário do Ministério da Saúde, justificando nosso pedido de carne vermelha num restaurante.

Lembro a tentativa de regular nossa linguagem, através da adoção de termos e expressões politicamente corretos. Seus proponentes afirmavam que se tratava apenas de sugestão, mas, por obra de nossa índole ovina, é claro que, dali a poucas semanas, estaria o Brasil inteiro usando a língua pasteurizada que imaginavam ser a adequada ao bom convívio social.

Não duvido nada – e, sinceramente, não acho que estou exagerando muito – que baixem normas para a utilização do papel higiênico. Apareceriam especialistas e se produziria uma exposição de motivos em que se aludiria às várias posturas adotadas em relação ao delicado problema, provavelmente a escola centrífuga, a centrípeta e a eclética.

Em mais uma demonstração do engenho nacional, todas as três seriam rejeitadas, em favor do padrão brasileiro, único no mundo e o mais avançado entre todos. A desobediência às normas implicaria sanções, mas ninguém precisaria ficar preocupado com a invasão de sua privacidade, pois o monitoramento do uso de papel higiênico só seria realizado depois de autorização judicial. Quem quiser que pense que isto é delírio.

Agora está em curso no Congresso Nacional a chamada lei da palmada, projeto que pretende tornar ilegal qualquer castigo físico de crianças, inclusive eventuais palmadas dadas pelos pais. Certamente estão incluídos aí puxões de orelha, beliscões, cascudos, petelecos e até mesmo empurrões, se bem que a epistemologia do empurrão deva dar algum trabalho, na hora de distinguir o empurrãozinho do maltrato.

Isso, contudo, perde em complexidade para o banho. Como não ignoram muitos pais e a figura ilustre do Cascão não me deixa mentir, há crianças que, levadas ao banho, agem como se estivessem sendo esfoladas vivas. Para quem o abomina, banho não será violência? De que jeito a mãe agirá, até para não ser denunciada às autoridades pelo filho? Suponho que, no espírito da lei, contratará um psicólogo para, com alguns meses de trabalho, induzir o imundinho a se lavar, tudo muito prático, racional e moderno.

Leio também que o projeto prevê que os pais pilhados dando palmadas nos filhos terão de submeter-se a consultas com psicólogos ou psiquiatras. Quer dizer que, se o sujeito der uma palmada no filho, vai ser considerado de alguma forma anormal, doente mental ou desajustado e se verá obrigado a ser normal, sob as penas da lei.

Que diabo é ser normal? É o que o psiquiatra me diz? Ele sabe o que é normal? Que é um indivíduo bem ajustado? Isso não é uma questão científica, é uma questão de valores, não é um problema para o método científico, é um problema filosófico. Não pode haver definição científica da conduta “certa”. Todos sabem que quem é doido num contexto pode não sê-lo em outro e o bom ajustamento social às vezes não passa de conformismo, pobreza de horizontes, mesmice e ausência dos questionamentos que movem pessoas e coletividades.

Agora o que se pretende é que muitos de nós nos vejamos ameaçados pela perspectiva de que nos impinjam como compulsória a visão de normalidade de um psiquiatra ou psicólogo. E, se os pais se recusarem a essa consulta ou tratamento, estarão sujeitos a alguma pena adicional, perderão o pátrio poder, serão internados numa clínica especializada?

E, se o consultado disser que o psiquiatra é um cretino e se recusar a seguir suas prescrições, sofrerá as mesmas punições? Será encaminhado a uma junta onisciente de psicodoutores, cujo laudo irrecorrível poderá render-lhe interdição ou prisão? Quiçá lobotomia, para os casos renitentes? Duvido muito que os psiquiatras concordem com isso, a não ser os que alimentem fantasias de transformar o mundo num grande manicômio, entre neurolépticos, ansiolíticos, antidepressivos e sossega-leões.

Apresentam-se os argumentos habituais de que a Suécia, o Zuribequistão Exterior e a Baixa Eslobóvia adotaram legislação semelhante. Os suecos vão à praia nus, na companhia de vizinhos, família e amigos. Aqui, devido a nosso vergonhoso atraso, isso é suruba. Ou seja, o que é bom para sueco é bom para sueco e não há razão para crer que o que funciona lá seja verdade universal. Se o sueco queima a rosca, queimá-la-emos nós também?

O Estado não consegue, em lugar nenhum do Brasil, tirar as crianças abandonadas da rua, prevenir as sevícias medonhas sofridas por elas e denunciadas todo dia, dar horizontes a milhões de meninos e meninas. Mas agora, na esteira de seus inúmeros êxitos nessa área, acha de criar novas leis, como se as existentes, cumpridas fossem, não bastassem folgadamente.

Vão se catar, vão procurar o que fazer, chega de besteirol, chega de nos empurrar burrice inconsequente goela abaixo. Bem melhor fariam, se cuidassem das reformas que realmente importam, as esquecidas que nunca foram feitas, a tributária, a administrativa, a política, a… Sim, e vejam se consertam a safadagem sem lei e sem ordem em que, para a maioria dos brasileiros, o Congresso e a política se transformaram.

João Ubaldo Ribeiro é Escritor. Artigo publicado nos jornais O Estado de S.Paulo e O Globo – 23 de maio de 2010


Habitual, incompreensível subserviência

21/05/2010

Os interesses dos impérios e os nossos

Mino Carta


Ao ler os jornalões na manhã de segunda 17, dos editoriais aos textos ditos jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus perplexos botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo, a serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”.

Entendi a mensagem. A elite brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há quase um século, de súdito do Império. Antes, foi de outros. Súdito por séculos, embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas subordinado, sempre e sempre, às vontades do mais forte.

Para citar eventos recentíssimos, me vem à mente a foto de Fernando Henrique Cardoso, postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apoia as mãos enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha. O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante.

Não pretendo aqui celebrar o êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não. Em perfeita sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é do chefe do Estado e do governo do Brasil. Do nosso país. E a esperança da mídia é que se enrede em equívocos e desatinos.

Não há entidade, instituição, setor, capaz de representar de forma mais eficaz a elite brasileira do que a nossa mídia. Desta nata, creme do creme, ela é, de resto, o rosto explícito. E a elite brasileira fica a cada dia mais anacrônica, como a Igreja do papa Ratzinger. Recusa-se a entender que o tempo passa, ou melhor, galopa. Tudo muda, ainda que nem sempre a galope. No entanto, o partido da mídia nativa insiste nos vezos de antanho, e se arma, compacto, diante daquilo que considera risco comum. Agora, contra a continuidade de Lula por meio de Dilma.

Imaginemos o que teriam estampado os jornalões se na manhã da segunda 17, em lugar de Lula, o presidente FHC tivesse passado por Teerã? Ele, ou, se quiserem, uma neoudenista qualquer? Verifiquem os leitores as reações midiáticas à fala de Marta Suplicy a respeito de Fernando Gabeira, um dos sequestradores do embaixador dos Estados Unidos em 1969. Disse a ex-prefeita de São Paulo: por que só falam da “ex-guerrilheira” Dilma, e não dele, o sequestrador?

A pergunta é cabível, conquanto Gabeira tenha se bandeado para o outro lado enquanto Dilma está longe de se envergonhar do seu passado de resistência à ditadura, disposta a aderir a uma luta armada da qual, de fato, nunca participou ao vivo. Nada disso impede que a chamem de guerrilheira, quando não terrorista. Quanto a Gabeira, Marta não teria lhe atribuído o papel exato que de fato desempenhou, mas no sequestro esteve tão envolvido a ponto de alugar o apartamento onde o sequestrado ficaria aprisionado. E com os demais implicados foi desterrado pela ditadura.

Por que não catalogá-lo, como se faz com Dilma? Ocorre que o candidato ao governo do Rio de Janeiro perpetrou outra adesão. Ficou na oposição a Lula, primeiro alvo antes de sua candidata. Cabe outro pensamento: em qual país do mundo democrático a mídia se afinaria em torno de uma posição única ao atirar contra um único alvo? Só no Brasil, onde os profissionais do jornalismo chamam os patrões de colegas.

Até que ponto o fenômeno atual repete outros tantos do passado, ou, quem sabe, acrescenta uma pedra à construção do monumento? A verificar, no decorrer do período. Vale, contudo, anotar o comportamento dos jornalões em relação às pesquisas eleitorais. Os números do Vox Populi e da Sensus, a exibirem, na melhor das hipóteses para os neoudenistas, um empate técnico entre candidatos, somem das manchetes para ganhar algum modesto recanto das páginas internas.

Recôndito espaço. Ao mesmo tempo Lula, pela enésima vez, é condenado sem apelação ao praticar uma política exterior independente em relação aos interesses do Império. Recomenda-se cuidado: a apelação vitoriosa ameaça vir das urnas.

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Transcrição de editorial da Revista Carta Capital que começa a circular hoje.


Capitalismo x Socialismo em 1945

20/05/2010

O primeiro dia do resto de nossas vidas

Por Breno Altman

Aos 15 minutos do dia 8 de maio, ano 1945, o alto comando alemão assinava, perante os principais chefes das forças aliadas, a capitulação incondicional do regime nazista. Findava, em solo europeu, o mais sangrento e destruidor conflito de toda a história. O mundo acordaria, na manhã seguinte, livre de uma ditadura que se imaginava eterna.

A historiografia ocidental, mergulhada no clima da guerra fria, não demorou para ser dominada por uma versão daquele período conveniente às potências capitalistas. O esforço revisionista tinha – e segue tendo – dois objetivos: apresentar o nazismo como uma anomalia e demonstrar que as democracias liberais tinham sido as principais responsáveis por sua derrocada.

A primeira dessas ambições ideológicas é seminal. Hitler e seus sequazes deveriam ser tratados como loucos de carteirinha, descolados das classes sociais que representavam. Sua trajetória, contada como a antítese do liberalismo e, portanto, dos prazeres das economias de mercado.

Nada de abordá-los como a expressão mais agressiva do capitalismo tardio, sedento por mercados e fontes de matéria-prima já controlados por outras nações. Seria ainda menos adequado retratá-los como a ponta de lança contra o movimento operário e o primeiro país socialista, a União Soviética, conforme declaravam em seus próprios documentos.

O segundo dos propósitos da releitura ocidental sobre a guerra tem demandado mais munição. Não houve arma informativa ou cultural que não tenha sido usada para exibir os exércitos norte-americanos e ingleses como os bastiões da libertação. O Dia D é cultuado, geração após geração, como o momento culminante da luta contra Hitler.

Mesmo o holocausto tem sido manipulado como instrumento de propaganda, na tentativa de exibir o extermínio dos judeus e outras minorias como principal meta do nazismo. O genocídio racial, afinal, serve como cortina dramática para esconder que o objetivo central dos exércitos alemães era destruir a URSS e expandir o capitalismo alemão rumo ao leste.

O problema dessa versão, porém, são os fatos. Mais de vinte milhões de soviéticos pagaram com a vida por resistirem ao nazismo. Os países ocidentais abriram uma segunda frente somente três anos depois da agressão hitlerista contra a pátria de Dostoyevsky.

A coluna vertebral da poderosa Wehrmacht foi quebrada na Batalha de Stalingrado, um dos episódios mais épicos de que se tem notícia. Foi o início do fim para o Reich de mil anos.

Não é à toa que a capitulação alemã foi assinada no quartel-general das tropas soviéticas. Naquelas primeiras horas do resto de nossas vidas, a verdade ressurgia em honra aos mais heróicos combatentes.

 

Breno Altman é jornalista e diretor editorial do sítio Opera Mundi

(Artigo publicado originalmente no Opera Mundi www.operamundi.com.br)


XI Congresso da ANAPAR

19/05/2010

A  Anapar (Associação Nacional dos Participantes de Fundos de Pensão) realizou, de 29 a 1º de maio, seu XI Congresso Nacional dos Participantes e sua Assembléia Geral Anual.

Na oportunidade, foi renovada sua enxuta Diretoria Executiva, a qual passou de treze para quinze componentes. Foi eleita Presidente a anteriormente Secretária Geral, Cláudia Muinhos Ricaldoni e, para Secretário Geral, o anterior Presidente José Ricardo Sasseron.

Do encontro resultaram, entre outras, prioridade para ampliação do programa de formação da Entidade; instituição de novos planos de previdência; estudo para oferta, através de convênio com empresa especializada, de plano de saúde aos seus associados.

Como se percebe, nada deve preocupar os participantes da Anapar.

Edemar.


Gênios, cada vez + difíceis

11/05/2010
Vinha eu pela praia semi-deserta, maré totalmente seca oferecendo uma vastidão de areia firme e plana para caminhar, com muitos pequenos e rasos lagos, sol já forte às sete e pouco da manhã, céu de brigadeiro ainda livre dos barulhentamente desagradáveis helicópteros que circulam por aqui.
Distraído, entremeando minutos de puro devaneio com planejamento do dia e contemplação das paisagens, fixa e móvel, ocasionalmente dando especial atenção a determinadas parcelas da móvel, caminhava eu com alguma rapidez, convencido de estar me exercitando o suficiente para abrigar uma geladinha ao almoço.
Sandálias na mão e pés descalços, vista focada numa daquelas especiais partes da paisagem, foi  ‘a’ topada com o mindinho do pé esquerdo. Fiozinho de sangue e ardor provocado pela água salgada, procurei a causa de tão inesperado acontecimento.
Inesperado porque nessa praia não existem pedras nem tocos, só areia e o indefectível lixo plástico deixado pelos humanos e movimentado pelas marés. Encontrei o que me pareceu uma lata dessas de leite em pó, enferrujada e quase completamente enterrada.
Resolvi retirá-la para praticar minha boa ação do dia, evitando uma outra improvável topada de outro caminhante. Cavei um pouco a areia macia com as mãos e fui percebendo tratar-se de outro objeto, um cilindro de metal nobre, algo como bronze muito antigo, uns doze centimetros de diâmetro e mais de vinte de comprimento, em minha primeira avaliação.
Já com grande curiosidade, apressei meus movimentos e consegui retirar do poço de areia ela, a lâmpada! Mal a lavei na água existente em torno e me surge à frente um gênio esfregando os olhos, com a maior cara de sono que se possa imaginar.
Eu, assustado, ele, estremunhado, me falou:
– Miserável mortal, me acordaste bem quando eu sonhava com a Jeannie. Por isso só irei te conceder um desejo e, ainda assim, parcialmente. Pensa rápido, pois quero retornar a meu sono e retomar meu lindo sonho outra vez.
Para os menos idosos, Jeannie era uma ‘gênia’, muito bonita, da televisão dos anos 60; recomendo a todos uma busca nas locadoras por qualquer episódio da série ‘Jeannie é um gênio’.
Pois bem, sem pensar muito, falei para o mago da lâmpada:
– Quero uma fortuna maior do que a dívida dos Estados Unidos da América.
– Sem problemas, respondeu-me. – Como disse, vou te satisfazer apenas em parte. Pega os números CORECON e CREA de José Serra e aposta em loterias. Ganharás até o limite pedido. Adeus.
Por favor, alguém me informe esses números.

Edemar Motta.


Resposta a um imeil de um amigo. Amigo?

03/05/2010
 
Meu prezado,
Refiro-me ao imeil intitulado ‘O Cara’, de “autoria” de um sr. Caio Lucas, que você teve a bondade de me repassar.
 
Quando tiver uma crítica honesta, fundamentada, que fuja da inútil discussão de liberalismo econômico versus estatização, pois estas são questões ideológicas arraigadas em nossas mentes e que dificilmente mudarão, mande para mim que terei o maior prazer em aprender mais sobre nosso Presidente.
 
Claro que ele terá errado, e muito, como todos nós, que erramos em mais de um momento na vida. Somos todos humanos, o Presidente inclusive, e governar duzentos milhões de pessoas é mais complexo do que gerenciar os proventos de uma modesta aposentadoria.
 
Você, por exemplo, comete um erro grave, pondo em risco uma boa amizade, com o simples ato de repassar uma coleção de imbecilidades como esta sob resposta. Lembre-se, quando você repassa uma mensagem, assinala que está concordando com ela, está dando a ela seu valioso aval. Só li essas sandices porque vieram de você, e, é evidente, não sabia o que eram antes de lê-las.
 
Ocorre que pessoas de nossa idade já não teem mais muito tempo pela frente, daí não devermos desperdiçá-lo vendo maus filmes, lendo maus livros ou besteiras do calibre dessas que você me enviou, espero que distraidamente.
 
Vejamos: Reformas tributária, política e trabalhista. Perceba, modestos empregados, como você e eu, devemos agradecer todos os dias pelo freio da reforma trabalhista pretendida pelos neo-liberais. Ou você é tão crédulo que imagina seriam tais reformas a seu favor? Quanto às outras, lembre-se que não é da competência do Presidente editar leis, quem faz isso é o Congresso. Cobre dele suas ansiadas reformas.
 
Amigos envolvidos em mutretas. Perceba que nunca a Polícia Federal agiu com tanta desenvoltura como agora. Perceba que a imprensa nunca denunciou tanto, justa ou injustamente, como agora. Perceba que não existe mais um Engavetador Geral da República como no governo anterior. Perceba que se criam CPIs todos os dias, pelos motivos mais pueris, entre alguns sérios. Veja que, em São Paulo, nenhuma CPI prospera, graças a uma assembléia amplamente pró-Serra.
 
Inchaço do Estado. Muitos concursos para empregar pessoas em função de suas capacidades. Defina onde o funcionamento hoje é pior do que antes. Seria na Previdência? Na Receita? No Ministério Público? Na Saúde? Na Segurança? Na Educação? Onde piorou, por favor?
 
Viagens fúteis. Nosso comércio foi ampliado em volume e em parcerias, libertando-nos de alguns poucos clientes e/ou fornecedores. Hoje compramos e vendemos para inúmeros países, o que nos garante fluxos independentemente de problemas ocorrentes em um ou outro país. Organismos e publicações internacionais de inegável prestígio hoje reconhecem a importância do Brasil. Você, não. Quem é você, mesmo?
 
Humilhações de Argentina, Bolívia etc. Estamos em paz e negociando, com saldos favoráveis a nós, com todos esses países, exceção talvez de Honduras. As tais humilhações duraram só os quinze minutos que nossa imprensa golpista conseguiu dar-lhes. Diga qual país, no planeta, desrespeita ou está em crise com o Brasil.
 
Libertinagem e falta de futuro. Defina libertinagem em termos de política nacional ou guarde-a toda para si. Quanto a futuro, conte quantas escolas técnicas, quantas universidades, foram criadas e/ou ampliadas. Informe-se quantos alunos pobres (e também alguns picaretas não tão pobres) estudam com bolsas do PROUNI. Hoje há muito mais futuro do que tivemos nós em toda nossa vida.
 
Abrigo de marginais internacionais. Nomine esses marginais aqui abrigados. Lembro-me de Stroessner. Ah, mas foi abrigado aqui bem antes do Lula ser Presidente.
 
Corruptos e bandidos do passado ora aliados. Bem, se são do passado, lamento que seu intelecto não conheça inexistência de pena eterna. Sem citar nomes, é só uma frase feita que se pode aplicar a qualquer tempo e em qualquer situação, basta que não se tenha senso de responsabilidade.
 
Parasitas e vagabundos, bolsa família, bolsa terrorista, latifúndio improdutivo do MST. Aqui é metralhadora giratória que não cospe balas, mas ódio e tolices. Se você considera vagabundos os beneficiários do bolsa-família, nada posso fazer. Você deve achar justo deixar pessoas passar fome e/ou engrossarem as fileiras da criminalidade para
sobreviver. Põe grades em sua casa, blinda seu carro ou, se tiver dinheiro mesmo, foge para Miami ou Orlando, feliz por ter ajudado a construir o país onde nasceu. A bolsa-terrorismo lhe parece injustificável, afinal você não teve filho morto pela ditadura, parente ou amigo torturado, preso injustamente ou demitido do emprego. Agora, você se supera é com esse ‘latifúndio improdutivo do MST, o maior do mundo’. Tal frase decorre de má-fé, pois sei que você não é ignorante a tal ponto. Qualquer dicionário de bolso esclarece o que seja um latifúndio e lhe obrigará a saber que o MST não tem nenhum. Ou você está pensando naquele de João Cabral de Melo Neto?
 
Seus qualificativos para Dilma Roussef. Como é que uma pessoa dessas ficou livre até esta data, quando tantos inocentes foram jogados ao mar, ‘suicidados’, mortos ‘em confronto’, e sem sequer ter saído do Brasil?
Você pensa que a ditadura de 64 terminou quando? Por que não acionou a justiça durante mais de vinte anos para punir tal criminosa, só lembrando agora de suas barbáries?
 
Dizer que Lula rouba a nação é um privilégio que você desfruta agora. Agradeça por ele, o privilégio, a todos que contribuiram, de uma forma ou de outra, pela mudança de governo. Duvido que você dissesse isso, com ou sem razão, entre 1964 e 1985. Deveria usar a liberdade atual com mais respeito, ou apresentar provas do que diz.
 
O filho do Lula. Se você quiser me dizer alguma coisa sobre esse personagem, precisa falar, sim. Não sou advinho e não faço suposições irresponsavelmente.
 
Quase finalmente, as condecorações às mulheres. Desconheço a legislação concessiva delas e tenho certeza de que você nem sonha com sua existência. Todavia, caberá alguma ação contrária, basta que haja fundamentos. De meu lado, penso que tais senhoras não tenham menor mérito que os demais agraciados com as mesmas medalhas.
 
Por fim, enfim, ufa, o bravo e valente fecho que o autor, à la Arthur Virgílio, almeja para o Presidente da República: tapas na cara desferidos por todo brasileiro honesto e trabalhador.
 
Trabalhador me lembra sindicato. Talvez o ilustre sr. Caio Lucas, autor da peça, juntamente com o amigo que me repassou essa estrumeira, dirija-se com seu imeil a qualquer sindicato de trabalhadores de qualquer categoria profissional no Brasil e apresente sua proposta. Tentarei juntar as sobras.
Valentim Antunes Garcia.