Guerra às drogas, onde irá parar?

30/11/2010
Em 27/11/2010 14:37,Gerardo Xavier Santiago <“mailto:gersan@centroin.com.br”
>gersan@centroin.com.br escreveu:

 

Uma vez mais a cidade do Rio de Janeiro sofre um surto de mortes e de
violência. Para a maioria aparentemente a causa disso é a atuação de grupos
criminosos e a solução é incrementar a repressão. As ferramentas adequadas
são os “caveirões” e os tanques de guerra Urutus da Marinha. E para garantir o
sucesso da empreitada repressiva é preciso endurecer a legislação criminal,
reduzir a maioridade penal e tornar o regime prisional ainda mais severo.

Será mesmo? Ousamos dizer que não, que a maioria está errada e que o preço
desse erro é terrível e se paga em sangue.Em primeiro lugar, está errada a ideia de
que a questão da criminalidade possa ser enfrentada como se fosse uma guerra,
ou seja, em termos militares. Ao contrário do enfrentamento entre duas ou mais
forças armadas, no qual o objetivo é a eliminação ou neutralização do inimigo, a
criminalidade é um fenômeno social, existente em maior ou menor grau em todas as
sociedades, e como tal não é passível de eliminação ou neutralização pela ação de forças
militares. Não é uma questão de serem tais forças bem equipadas e
comandadas, mas sim de que nenhuma ação militar pode resolver o problema, assim
como nenhuma ação militar resolverá o problema do aquecimento global ou a crise
econômica, por exemplo. Simplesmente não é a abordagem correta.

O que fazer então? Certamente que o domínio territorial de comunidades
carentes por bandos armados não é aceitável, mas a primeira preocupação
deve ser sempre a de preservar a vida humana, o que não parece ser o caso no
presente enfrentamento, que já produziu trinta e cinco mortos, até o
momento em que estas linhas são escritas. Como sempre nessas ocasiões, a polícia
diz que todos eram bandidos, a mídia aceita a versão sem questionar e a opinião
pública aplaude, numa catarse de ódio e através de um ritual de linchamento
virtual que ameaça muito mais os fundamentos do Estado democrático de
direito do que a ação do brancaleônico “exército” de jovens negros descamisados
empreendendo a sua “longa marcha” entre a Vila Cruzeiro e o Complexo do
Alemão.

O que está na origem de toda essa tragédia é o erro trágico da “guerra às
drogas”. Trata-se de uma política criminal falida em nível global, que
consiste em tentar eliminar um fato social e cultural, que é o uso de
certas substâncias, através da lei penal, criminalizando a produção, distribuição
e consumo delas. Após décadas de operações militares como essa na Penha e no
Alemão, as drogas continuam aí e vão continuar pelos próximos séculos. Hoje
elas são mais acessíveis e mais baratas do que no início da “guerra” contra
a sua existência. O número de mortos gerados pela proibição das drogas é
muito superior ao número de mortos pelo abuso de drogas. No México, que é o
Complexo do Alemão dos EUA, quase trinta mil pessoas morreram desde 2006, quando
o governo local fez a opção militar para enfrentar os cartéis de traficantes. É isso que
queremos ver acontecer aqui no Brasil?

A única solução estrutural para a crise da segurança pública é mudar a
política criminal. Colocar um ponto final a essa insanidade que é a “guerra
às drogas”. Legalizar imediatamente a maconha, que é de longe a substância
proibida mais usada, e mudar o foco em relação às outras drogas, trocando a
ótica policial pela ótica da saúde pública. Parar de gastar o dinheiro dos
contribuintes em imensos aparatos repressivos corrompidos e ineficazes, e
direcionar esses recursos para campanhas educativas, clínicas e
investimento social nas comunidades carentes hoje dominadas por criminosos.

A legalização seria o verdadeiro golpe mortal aplicado no narcotráfico,
pela simples razão de que o privaria de sua inesgotável fonte de recursos
financeiros, que vem a ser a receita com a venda de drogas. Responsabilizar
o usuário pelos atos dos traficantes é ridículo, fazendo um paralelo
histórico isso equivale a responsabilizar os cidadãos de Chicago que não obedeceram
à absurda proibição de tomar uma cerveja pelos crimes de Al Capone. Essa
abordagem moralista que mais uma vez vemos ser reproduzida na mídia, sem
que se dê o espaço ao contraponto, merece o mais firme repúdio. No mundo real,
a verdadeira opção é pelo fim da “guerra às drogas” ou pela barbárie.

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Esse texto me foi enviado por e-mail e não consegui apurar sua autoria, mas ele
espelha perfeitamente meu pensamento sobre o assunto, por isso levo-o a sua
consideração. Edemar.


Aposentados do BB x BB, quem diria

29/11/2010

Publicado dois meses atrás, este texto é atualíssimo.

Edemar.

O TEMOR DO BANCO DO BRASIL QUANTO AO SUPERAVIT
quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Perguntam-me, com insistência, sobre qual o temor do BB nessa questão do superavit e sobre a relevância da observação feita pela Morgan Stanley a respeito das apropriações.
Acho que o BB agora está pressionado para dar uma solução ao caso por várias razões e deve resolver o impasse até o final do ano, com certeza, pois está a descoberto, tendo em vista que se apropriou indevidamente do superavit da PREVI, existindo uma liminar, e , principalmente, porque se excedeu nos valores, pegando 14 bilhões em vez de oito bilhões, segundo consta.
O temor do BB não é só com o Morgan Stanley, que analisa as demonstrações financeiras com vista ao mercado de capitais e influi nas cotações das ações, mas principalmente com a SEC, organismo importantíssimo a serviço da Bolsa de Nova York, que fiscaliza as empresas que operam lá, como é o caso da VALE e do Banco do Brasil. A certificação da SEC é essencial para a credibilidade contábil e suas observações obrigam muitas vezes as empresas sob seu controle a revisar balanços e efetuar correções e estornar valores.

O balanço anual do BB está próximo. Faltam apenas NOVENTA DIAS, que passam rápido. E´ vital para o BB que tudo esteja em ordem, que não pairem dúvidas sobre seus critérios contábeis. E é dessa circunstância que nós temos que nos aproveitar agora por ocasião das negociações do superavit, exigindo não só sua distribuição justa e equânime, como também a solução para a renda certa e para o aumento do percentual das pensionistas, no mínimo. E no caso da distribuição não se pode esquecer da retroação.
O desespero do BB pode ser aquilatado pela nota ontem distribuida pela PREVI que dá conta da contratação justamente da Morgan Stanley, que contestou as demonstrações do banco, para avaliar os ativos da Neo Energia e da CPFL. Porque ela ?
Amanhã comentarei sobre como vejo a participação do BB no superavit.

Postado por Medeiros às 09:08

Original em http://www.blogdomedeiros-medeiros.blogspot.com


Terroristas no Brasil?

29/11/2010

 

 

Em segredo, Brasil monitora e prende suspeitos de terrorismo

Natalia Viana, especial para WikiLeaks

 

 

 

São Paulo, Brasil – A polícia federal e a ABIN seguem dicas da inteligência americana para realizar operações de contraterrorismo no país. É isso que mostram alguns telegramas enviados pela embaixada dos EUA em Brasília para Washington obtidos pelo Wikileaks.

Segundo os documentos – os primeiros de milhares enviados pela missão americana no Brasil obtidos pela organização – a polícia federal e a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) monitoram a presença de suspeitos de terrorismo em solo nacional desde pelo menos 2005.

“A Polícia Federal frequentemente prende indivíduos ligados ao terrorismo, mas os acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para não chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo”, relatou o embaixador Clifford Sobel em janeiro de 2008.

O governo sempre negou a existência de atividades terroristas no Brasil.

 

Almoço

No dia 4 de maio de 2005, o general Armando Félix esteve em um almoço na casa do então embaixador americano John Danilovich, que ficou no cargo até 2006.

Segundo o relatório enviado a Washington (See cable 05BRASILIA1207), Felix teria dito que é importante que as operações de contraterrorismo sejam ‘maquiadas’ da maneira apropriada para não afetar negativamente a “orgulhosa” e “bem-sucedida” comunidade árabe no Brasil.

Pouco antes, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional havia agradecido entusiasmadamente o apoio dos americanos através do RMAS – Regional Movement Alert System, um sistema que detecta passaportes inválidos, perdidos ou falsificados. A partir de informações do RMAS, a ABIN e a PF estariam monitorando “indivíduos de interesse” no país.

“Além das operações conjuntas conosco, o governo brasileiro também está pedindo que filhos de árabes, muitos deles empresários de sucesso, vigiem árabes que possam ser influenciados por extremistas ou grupos terroristas”, diz o relato. Para Félix, é de total interesse da comunidade “manter potenciais extremistas na linha”, evitando assim chamar a atenção mundial para os árabes brasileiros.

A preocupação em manter segredo sobre as operações anti-terrorismo foi uma constante durante o goveno Lula. Desde 2006, a administração tem protestado contra menções de atividades ligadas ao terrorimo na tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina, incluídas no relatório anual do governo dos EUA.

Em parte, isso se deve a uma discrepância formal: o governo americano considera o partido libanês Hezbollah e o palestino Hamas como terroristas, enquanto o Itamaraty os considera partidos legítimos. Os dois têm grande apoio dentre a comunidade árabe na tríplice fronteira.

 

Prisões “disfarçadas”

Mas para além das diferenças no discurso, os documentos vazados pelo Wikileaks mostram que na prática a polícia brasileira age frequentemente a partir de informações da inteligência americana.

“A sensibilidade ao assunto resulta em parte do medo da estigmatização da grande comunidade islâmica no Brasil ou de que haja prejuízo para a imagem da região (da tríplice fronteira) como destino turístico. Também é uma postura pública que visa evitar associação à guerra ao terror dos EUA, vista como demasiado agressiva”, analisa outro embaixador americano, Clifford Sobel, que esteve no cargo de 2006 a 2010.

Segundo o telegrama enviado por ele em 8 de janeiro de 2008 (LINK – 136564), a preocupação em não admitir atividades suspeitas de terrorismo seria maior ainda dentro do Ministério de Relações Exteriores. Por isso, diz Sobel, o Brasil participa “relutantemente” das reuniões anuais sobre segurança que reúne diplomatas, oficiais de segurança e inteligência da Argentina, Paraguai e Brasil com os EUA para discutir segurança na tríplice fronteira.

Na verdade, a região não é prioridade quando se trata de terrorismo. “A principal preocupação em contraterrorismo tanto para oficiais brasileiros quanto para a missão americana é a atividade de indivíduos ligados ao terrorismo – em particular diversos suspeitos extrermistas sunitas e alguns indivíduos ligados ao Hezbollah – em São Paulo e em outras áreas do sul do Brasil”, relata Sobel.

O telegrama revela que, apesar da retórica em contrário, a Polícia Federal, a Receita Federal e a Abin “monitoram” atividades suspeitas de terrorismo e “seguem todos as pistas passadas a elas”.

“A Polícia Federal frequentemente prende indivíduos ligados ao terrorismo, mas os acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para não chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo”, diz um trecho do telegrama secreto. “No ano passado a Polícia Federal prendeu vários indivíduos envolvidos em atividades suspeitas de financiamento de terrorismo mas baseou essas prisões em acusações de tráfico de drogas ou evasão fical”. A PF e a Abin sempre compartilham essas informações com as agências americanas, diz o relato.

O mesmo telegrama de Sobel cita dois exemplos. Em 2007, a PF teria preso um potencial faclitador terrorista sunita que operava primordialmente em Santa Catarina sob acusação de entrar no país sem declarar fundos – e estaria trabalhando pela sua deportação. A operação Byblos, que desmantelou uma quadrilha de falsifcação de documentos brasileiros no Rio de Janeiro para libaneses também é citada como exemplo de operação de contra-terrorismo.

 

Será que o governo sabe?

O Brasil não tem legislação específica sobre terrorismo, em parte por causa do legado da ditadura militar, que taxa oposicionistas de terroristas. A demora do Executivo em enviar um projeto de lei sobre tema ao Congresso desagrada aos americanos, como mostra outro relatório, enviado por Sobel em 11 de abril de 2008 (See Cable 08BRASILIA504).

Nele, o embaixador comenta com surpresa o comentário de José Antonio de Macedo Soares, secretário-adjunto do Gabinete de Segurança Institucional, de que o Brasil compartilha todas as informações referentes a contraterrorismo. Ele questiona se o alto escalão do governo recebe as mesmas informações da inteligência brasileira que os EUA recebem. “Embora não possamos responder definitivamente, os comentários de Soares sugerem que esse pode ser o caso e que, apesar das negativas, eles reconhecem os problemas potenciais que o Brasil enfrenta”.

Outra possibilidade seria que o governo tem acesso às informações, mas não as consideram evidência de ação terrorista. “Isso significa que ou estão jogando conosco ou consideram terrorismo apenas fora do Brasil”.

 

Duplo discurso

Outro documento publicado pelo WikiLeaks traz a mais recente avaliação da política brasileira de combate ao terrorismo, de 31 de dezembro de 2009 (See Cable 09BRASILIA1540). Nele, a Ministra Conselheira da Embaixada Lisa Kubiske reitera a existência de “dois discursos separados” no Brasil: enquanto o governo nega, a polícia monitora e colabora em operações de contraterrorismo. Ela cita como exemplo a prisão, em maio daquele ano, de um integrante da Al Qaeda.

A prisão foi feita pela PF em São Paulo durante uma pretensa investigação sobre células nazistas. O libanês, conhecido como “senhor K”, foi preso sob acusação de racismo. Para a PF, ele coordenava uma célula de comunicação e recrutamento da Al Qaeda em São Paulo.

Na época, o presidente Lula se negou a comentar o assunto.

No seu telegrama Lisa Kubiske avalia como positivo o fato a notícia ter vindo a público. Ela também elogia o Ministério das Relações Exteriores por ter admitido que terroristas podem se interessar no Brasil por causa das Olimpíadas de 2016.

Entre outras coisas, o relatório de dezembro de 2009 elogia atuação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) ligado ao Ministério da Fazenda, chamando-o de “eficiente”.

De fato, diversos documentos obtidos pelo Wikileaks mostram que o COAF tem colaborado bastante com o governo americano, investigando bens de diversos suspeitos de terrorismo. Entretanto, como aponta Lisa Kubiske, até o final de 2009 nenhum bem ou propriedade havia sido encontrado. O telegrama serviu de base para a avaliação oficial dos EUA sobre o Brasil em 2010.

Os documentos fazem parte de 251 mil telegramas enviados pelas embaixadas americanas de todo o mundo ao Departamento de Estado entre 1966 e 2010 que serão publicados pelo WikiLeaks nas próximas semanas.

 

Natalia Viana é jornalista e escritora. Edemar.


Rio – Vencida uma batalha

28/11/2010

 

 

Ocupado o QG do Comando Vermelho. Algo vai mudar?

Publicado em 28/11/2010 por Carlos Amorim

 

Às oito horas da manhã do domingo 28 de novembro – uma data histórica -, três mil policiais, soldados da Brigada Paraquedista do Exército, além de fuzileiros navais com 15 blindados leves, mais helicópteros de combate, invadiram o quartel-general do Comando Vermelho: o Morro do Alemão, no centro de um complexo de 14 favelas e quase meio milhão de moradores. Até as cinco horas da tarde, quando a ocupação se completava, a força milita ainda se impressionava com a calma aparente no bairro. Esperava enfrentar 600 traficantes fortemente armados, mas esse grande confronto, que resultaria em dezenas de mortos, simplesmente não aconteceu.

Utilizando a velha tática das guerrilhas, os bandidos se dispersaram e sumiram em meio à população. Deixaram para trás toneladas de maconha e cocaína, armas de guerra, dinheiro (60 mil dólares só numa mochila apreendida com um garoto) e as casas luxuosas dos gerentes do tráfico. Quase uma centena de pessoas foram presas, a maioria inocentes. A ocupação do Morro do Alemão encerra uma semana de violência desmedida no Rio de Janeiro. No domingo anterior, bandos armados começaram a queimar ônibus e carros por toda a cidade, num total de quase 100 veículos, semeando o pânico. No enfrentamento entre os criminosos e a polícia, 36 pessoas morreram e não há conta do número de feridos.

A batalha – e este é apenas um episódio numa guerra que levará décadas – produziu três resultados inéditos e surpreendentes: a reação solidária de todos os níveis de governo, com o governador aceitando a intervenção de tropas federais; a resposta indignada da população carioca, que colaborou com a força-tarefa inclusive nas favelas; a unificação das facções criminosas. A pergunta que se coloca é a seguinte: por que os bandidos tomaram a iniciativa do confronto, com a queima dos veículos, provocando abertamente o poder público? A explicação oficial é a de que eles estavam perdendo territórios para as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Difícil de acreditar, porque essas unidades existem apenas em 12 (agora 13) das mais de mil favelas cariocas – uma gota no oceano. Outra explicação: os bandidos estariam reagindo contra a transferência de suas lideranças para presídios de segurança em outros estados. Essa pode ser. Mas, como eles foram transferidos há muito tempo, soa estranho. A minha tese é a de que os ataques visavam criar uma moeda de troca para uma trégua na Copa do Mundo e nas Olimpíadas.

Todas as vezes em que o crime organizado promoveu esses levantes armados – e foram várias -, havia sempre uma pauta de reivindicações por trás dos atentados. Foi assim com os ataques do CV nos anos 1980 e 1990; com o PCC paulista em 2001, 2003 e 2006; com a Organização Plataforma Armada (OPA), em Salvador, em 2008. Quase sempre as reivindicações se destinavam a melhorar as condições carcerárias, especialmente porque tais facções agem de dentro para fora das prisões. Toda a chefia desses grupos está presa – e do lado de fora das celas os novos comandantes são da terceira geração do tráfico de drogas, jovens e cruéis, que não têm o mesmo senso de convivência comunitária que seus antigos líderes pregavam.

Esses movimentos reivindicatórios sempre foram mantidos em segredo pelos governantes, tratados em gabinetes, distantes da imprensa e da opinião pública. E quase sempre resultaram em acordos benéficos para o crime. Um exemplo escandaloso foi o de uma comissão do governo paulista que foi até o presídio de Presidente Bernardes se encontrar com o suposto chefe do PCC, Marcos Herbas Camacho, o Marcola, em plena onda de atentados de 2006. Vou repetir: muitas das exigências das facções criminosas (visitas íntimas, aumento do banho de sol, fim dos espancamentos e dos castigos, melhoria da comida, transferência de presos doentes) foram atendidas, porque esses confrontos cobram alto preço político, particularmente com as rebeliões prisionais banhadas a sangue, como no caso do Carandiru, o mais emblemático de todos.

E agora, neste episódio do Rio de Janeiro, silêncio total as autoridades e da mídia. O governador Sérgio Cabral tomou a atitude corajosa de partir para cima do crime organizado. Alguns anos atrás, chegou a admitir que o Rio “vive um estado de guerra”. E Cabral foi tão longe, que já não tem caminho de volta. A briga vai ser feia mesmo. Aliás, comente-se que a mídia aderiu completamente, sem qualquer tipo de questionamento. A capa da Veja, com foto de um soldado do Bope apontando uma arma, dizia: “o dia em que o Brasil começou a vencer o crime”. Parece mais um desejo do que uma realidade.

O Brasil, que vive uma democracia avançada e de plenas liberdades, com um partido popular no poder, agora se equiparou ao México, onde o narcotráfico está vencendo a guerra, e à Colômbia, onde há uma guerra civil que já dura 56 anos e que resultou até agora em quase um milhão de mortos. Lamentavelmente, adentramos o perigoso pântano de uma guerra urbana de verdade. (Ver o artigo “As UPPs e o Estado de Direito”, neste site.) Num dos meus livros, escrevi: “não quero ver a minha cidade ocupada por fuzileiros navais e paraquedistas – assim como não quero vê-la ocupada pelos meninos do tráfico”. Poucos anos depois, o pesadelo chegou. (E o que aconteceria se o PCC aderisse ao levante?)

Outra questão que me preocupa: comemorando 25 anos de liberdades, podemos conviver com ocupações militares, com pequenos Estados de Sítio? É isso que a população quer? Certamente, é isso que a classe média, a maior vítima da violência, deseja – assim como é o mesmo que deseja a elite consumidora de drogas e cínica. Vamos também erguer uma força-tarefa para pegar os bandidos da Esplanada dos Ministérios e da Avenida Paulista? E os traficantes da orla de luxo do Rio, do Guarujá, Floripa, Vitória ou Salvador? Aparentemente, o braço armado do Estado vai continuar caindo sobre as “classes perigosas”, os pobres em geral.

Quem acha que a batalha do Alemão vai acabar com o tráfico ou o crime, está enganado. O Comando Vermelho ocupava aquela área há quase 30 anos, inclusive com hotéis para receber seus fornecedores estrangeiros e seus sócios do PCC. Quanto tempo os militares ficarão por lá? Nossos governantes nem sabem direito o que é crime organizado. Os chefes do tráfico de drogas e de armas, da pirataria e do contrabando, não moram em favelas e não serão presos. O tráfico no Rio movimenta 100 toneladas de drogas por ano, com um faturamento de aproximadamente 700 milhões de reais. Quem vocês acham que são os agentes financeiros de toda essa grana, só no Rio?

Por que o governador Sérgio Cabral não aproveitou a ofensiva contra o crime organizado para atacar também as milícias, bandos armados formados por policiais e ex-policiais, que ocupam quase 100 favelas na cidade? Esses grupos paramilitares agem como forças auxiliares da polícia. A mais famosa dessas milícias – a “Liga da Justiça”, da zona oeste – é comandada por um deputado e uma vereadora – pelo menos é isso o que garante o Ministério Público e a imprensa carioca. Mais uma: porque não aproveitou o momento de mobilização para anunciar um plano de reforma do aparelho policial e combate à corrupção entre as forças da lei? Estava na hora de fazer tudo isso? Não! Essa hora já passou há muito tempo! Depois do calor das emoções, tudo isso escorrega para o silêncio.

Ou seja: dispersada a pólvora e a fumaça, vai começar tudo de novo.

 

 

Edemar, original em http://www.carlosamorim.com


A pobreza da riqueza

20/11/2010

Por Cristóvam Buarque

“Em nenhum outro país os ricos demonstram mais ostentação que no Brasil. Apesar disso, os brasileiros ricos são pobres. São pobres porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado dos ônibus de subúrbio. E, às vezes, são assaltados, seqüestrados ou mortos nos sinais de trânsito. Presenteiam belos carros a seus filhos e não voltam a dormir tranqüilos enquanto eles não chegam em casa. Pagam fortunas para construir modernas mansões, desenhadas por arquitetos de renome, e são obrigados a escondê-las atrás de muralhas, como se vivessem nos tempos dos castelos medievais, dependendo de guardas que se revezam em turnos.

Os ricos brasileiros usufruem privadamente tudo o que a riqueza lhes oferece, mas vivem encalacrados na pobreza social. Na sexta-feira, saem de noite para jantar em restaurantes tão caros que os ricos da Europa não conseguiriam freqüentar, mas perdem o apetite diante da pobreza que ali por perto arregala os olhos pedindo um pouco de pão; ou são obrigados a restaurantes fechados, cercados e protegidos por policiais privados. Quando terminam de comer escondidos, são obrigados a tomar o carro à porta, trazido por um manobrista, sem o prazer de caminhar pela rua, ir a um cinema ou teatro, depois continuar até um bar para conversar sobre o que viram. Mesmo assim, não é raro que o pobre rico seja assaltado antes de terminar o jantar, ou depois, na estrada a caminho de casa. Felizmente isso nem sempre acontece, mas certamente, a viagem é um susto durante todo o caminho. E, às vezes, o sobressalto continua, mesmo dentro de casa.

Os ricos brasileiros são pobres de tanto medo. Por mais riquezas que acumulem no presente, são pobres na falta de segurança para usufruir o patrimônio no futuro. E vivem no susto permanente diante das incertezas em que os filhos crescerão. Os ricos brasileiros continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela desigualdade que suas riquezas provocam: em insegurança e ineficiência.

No lugar de usufruir tudo aquilo com que gastam, uma parte considerável do dinheiro nada adquire, serve apenas para evitar perdas. Por causa da pobreza ao redor, os brasileiros ricos vivem um paradoxo: para ficarem mais ricos têm de perder dinheiro, gastando cada vez mais apenas para se proteger da realidade hostil e ineficiente.

Quando viajam ao exterior, os ricos sabem que no hotel onde se hospedarão serão vistos como assassinos de crianças na Candelária, destruidores da Floresta Amazônica, usurpadores da maior concentração de renda do planeta, portadores de malária, de dengue e de verminoses. São ricos empobrecidos pela vergonha que sentem ao serem vistos pelos olhos estrangeiros.

Na verdade, a maior pobreza dos ricos brasileiros está na incapacidade de verem a riqueza que há nos pobres. Foi esta pobreza de visão que impediu os ricos brasileiros de perceberem, cem anos atrás, a riqueza que havia nos braços dos escravos libertos se lhes fosse dado direito de trabalhar a imensa quantidade de terra ociosa de que o país dispunha. Se tivesse percebido essa riqueza e libertado a terra junto com os escravos, os ricos brasileiros teriam abolido a pobreza que os acompanha ao longo de mais de um século. Se os latifúndios tivessem sido colocados à disposição dos braços dos ex-escravos, a riqueza criada teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração descontrolada e com uma população sem miséria.

A pobreza de visão dos ricos impediu também de verem a riqueza que há na cabeça de um povo educado. Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria só deles, e ficaram pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor, não sabem mudar o mundo, não sabem construir um novo país que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados.

Para poderem usar os seus caros automóveis, os ricos construíram viadutos com dinheiro de colocar água e esgoto nas cidades, achando que, ao comprar água mineral, se protegiam das doenças dos pobres. Esqueceram-se de que precisam desses pobres e não podem contar com eles todos os dias e com toda saúde, porque eles (os pobres) vivem sem água e sem esgoto. Montam modernos hospitais, mas tem dificuldades em evitar infecções porque os pobres trazem de casa os germes que os contaminam. Com a pobreza de achar que poderiam ficar ricos sozinhos, construíram um país doente e vivem no meio da doença.

Há um grave quadro de pobreza entre os ricos brasileiros. E esta pobreza é tão grave que a maior parte deles não percebe. Por isso a pobreza de espírito tem sido o maior inspirador das decisões governamentais das pobres ricas elites brasileiras.

Se percebessem a riqueza potencial que há nos braços e nos cérebros dos pobres, os ricos brasileiros poderiam reorientar o modelo de desenvolvimento em direção aos interesses de nossas massas populares. Liberariam a terra para os trabalhadores rurais, realizariam um programa de construção de casas e implantação de redes de água e esgoto, contratariam centenas de milhares de professores e colocariam o povo para produzir para o próprio povo. Esta seria uma decisão que enriqueceria o Brasil inteiro – os pobres que sairiam da pobreza e os ricos que sairiam da vergonha, da insegurança e da insensatez.

Mas isso é esperar demais. Os ricos são tão pobres que não percebem a triste pobreza em que usufruem suas malditas riquezas”.

 

 

Não foi me foi possível confirmar a autoria. Edemar.



PREVI e seu superávit

06/11/2010

 

Superávit da Previ

 

Acredito na existência de superávit baseado em minha experiência pessoal (ninguém pense que estou me comparando com a Previ, por favor.)

Em 1992 distribui meus proventos de aposentadoria (fgts etc) em alguns fundos lastreados em ações. Amarguei prejuízo por uns quinze anos ou mais. Adaptei-me e resisti a vender na baixa. Foi o que a Previ fez.
Há algum tempo, coincidentemente depois que o ‘mercado’ percebeu que Lula não morde, a bolsa começou a valorizar. Resgatei 2/3 de meus caraminguás com pequeno lucro. Ainda aguardo para realizar um trocadinho guardado em um banco que me repassa todas as perdas e nenhum ganho (não é o BB). Aguardo uma distração dele, pois sou otimista, embora com os pés no chão.

A Previ estava super-aplicada em bolsa no mesmo período e obteve um resultado monstruoso nessa valorização, mas tinha e tem necessidade de se desfazer de papéis por imposição legal. Consequência: maiores recursos em caixa – e dinheiro em caixa é péssimo negócio.

Assim, acredito no superávit mas também, como já disse em outro local, creio ele se deva basicamente à valorização da Bolsa que, a qualquer momento, poderá desvalorizar-se brutalmente outra vez. Lembremo-nos que o mercado bursátil não se movimenta satisfatoriamente em águas calmas, precisa, por sua própria natureza, de pouca luz e de turbilhões. Minha insegurança aumentou nos tempos atuais, de bolsas mundialmente interligadas. Há especuladores, investidores e trambiqueiros de grosso calibre, gregos e goianos, manipulando cotações e criando crises.

Por fim, já que estou no assunto, manifesto-me favorável a receber o que o governo, mandante do patrão, conluiado com a Previ, conluiada com representantes que parecem pouco representar a nós, aposentados, queira me alcançar.

Não é covardia, não é imediatismo, não é ganância, é pragmatismo. Aplaudirei e apoiarei qualquer iniciativa visando recebimento maior, mas só vejo alguma viabilidade disso pela via judicial.

Entretanto, com alguma experiência em advocacia, penso que os órgãos superiores protegerão o governo, inclusive com apoio da opinião pública, contra nós ‘marajás’, protelando um julgamento final ad infinitum.

Escaldado pelo caso da equiparação com o Banco Central, realísticamente não tenho esperanças de viver o suficiente para ver uma decisão final sobre o superávit, sensação agravada ainda pela incerteza do resultado da ação.

Peço tolerância para com a simploriedade de meus argumentos e a singeleza do texto, mas é como percebo os fatos e as expectativas relacionadas a eles.

Como já dizia minha avó, melhor um pássaro na mão que dois voando.
Valentim Antunes Garcia
Aposentado do BB

Prazer em ler

01/11/2010

De Isabel a Dilma

Uma trajetória de lutas garantiu mais espaço para que as mulheres conseguissem chegar à Presidência da República

Eliane Lobato

 

chamada.jpg
UMA VIAGEM
Da princesa Isabel (à esq.) a Dilma (à dir.),
as mulheres melhoram a sociedade brasileira

A primeira mulher a exercer o mais alto posto de poder no Brasil carregava várias mulheres no nome: Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon. Ou, simplesmente, princesa Isabel. Filha herdeira de dom Pedro II, ela substituía o imperador nos seus longos períodos de viagem pelo Exterior. Mais de um século depois, pôde surgir a segunda: Dilma Rousseff. Entre a princesa e a mulher eleita pelo voto, há uma vitória coletiva a ser contada. Para fazer esta viagem, as brasileiras escreveram uma história de luta que, aos poucos, tornou o Brasil um país melhor. Em 13 de maio de 1888, Isabel foi a soberana humanista que assinou a Lei Áurea, acabando com a vergonha da escravidão. Agora, Dilma chega à Presidência da República embalada num programa em que os avanços sociais estão entre as principais promessas.

A plebeia Dilma é, de certa forma, fruto da árvore plantada pela nobre Isabel. A Abolição que imortalizou a princesa escancarou as portas do País para os imigrantes europeus, que vieram em levas ocupar, como trabalhadores pagos, espaços deixados no campo pela emancipação dos escravos. Dilma é filha de um imigrante búlgaro, que, décadas depois do fim do Império, enxergou no Brasil uma terra de oportunidades. Tal qual a atual soberana, a princesa do século XIX tinha sangue europeu – uma miscigenação de etnias brancas do Velho Continente. Nas veias da presidente eleita corre também sangue brasileiro, herdado da mãe mineira. Quando moças, ambas tiveram o melhor que a educação de suas épocas e seus “reinos” poderia oferecer. Isabel, criada em palácios, não foi à escola – os mestres iam a ela e levavam-lhe uma formação humanista, sintonizada com a realidade europeia, onde o mundo fervilhava em discussões que não chegavam ao arcaico Brasil Império. Os Rousseff, por sua vez, encaminharam seus filhos aos melhores colégios de Belo Horizonte, os encheram de livros e os aproximaram das artes e das pessoas que respiravam os ventos revolucionários que a juventude europeia e americana fazia soprar nos anos 1960. Ambas são poliglotas e, curiosa semelhança, são filhas de um Pedro. A vocação abolicionista de Isabel ajudou a encurtar o reinado do pai, dom Pedro II, mas esse talvez seja o menor dos seus efeitos transformadores para o Brasil. A eleição de Dilma não vai gerar mudanças no sistema político vigente, mas espera-se dela a consolidação da abolição da pobreza no País como a base para um longo período de avanços.

Dilma, como presidente, passará a despontar como uma das mulheres mais poderosas do mundo. O seu Brasil é uma potência global, não o gigante periférico que Isabel governou nas ausências do imperador. Mais desenvolvido, menos desigual, mas ainda não totalmente justo com a condição feminina. A princesa foi uma reluzente exceção, de caráter hereditário, ao fazer sua voz ser ouvida num universo esmagadoramente masculino. Dilma foi consagrada nas urnas por homens e mulheres. Se não pode mais ser considerada exceção, também não é regra, principalmente na política. São do sexo feminino 51,8% dos eleitores brasileiros, mas elas não têm, como nunca tiveram, proporcional representação. Na atual legislatura, as mulheres ocupam menos de 10% das cadeiras no Congresso. Nem mesmo uma lei que cria cotas de 30% por partido para as candidatas é cumprida. Nesta eleição, apenas cerca de 20% dos concorrentes eram mulheres. Aí, sim, a importante exceção era a disputa presidencial: entre os três mais votados no primeiro turno, além de Dilma, estava Marina Silva, do PV. Já não é uma única andorinha a tentar fazer um verão que custa a chegar para elas.

As mulheres brigaram muito pelo direito de votar e serem votadas. Berta Lutz, bióloga paulista que havia estudado na Sorbonne, em Paris, fundou em 1922 a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, que deu origem ao movimento sufragista feminino no Brasil. As primeiras brasileiras a obterem títulos de eleitor, no entanto, foram duas professoras potiguares, em 1927: Celina Guimarães Viana e Júlia Alves Barbosa comandavam a luta pelo direito de voto das mulheres no Rio Grande do Norte. Um ano antes de o Brasil se convencer da justiça da mudança, Celina e Júlia conseguiram aprovar uma lei estadual nesse sentido e requereram seus títulos. No ano seguinte, houve outro marco histórico: Alzira Soriano se tornava a primeira prefeita eleita do Brasil, em Lajes, também no avançado Rio Grande do Norte de então – foi, porém, cassada por Getúlio Vargas logo após assumir. Depois das vitórias das precursoras, o avanço das mulheres na área política ocorreu de forma lenta. Foram necessários 58 anos para que o Brasil tivesse uma governadora: Iolanda Lima Fleming, que assumiu o governo do Acre em 15 de maio de 1986.

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Antes do direito de voto, a proximidade das mulheres com o poder no Brasil era fortuita. Na história, saltam os nomes de três poderosas de fama: a marquesa de Santos, Chica da Silva e Anita Garibaldi. Mas o poder de todas elas derivava do fato de terem se tornado mulheres ou amantes de homens ricos e influentes. Domitila de Castro (1797-1867), a marquesa de Santos, foi amante de dom Pedro I. Poucas pessoas sem mandato tiveram tanta influência política quanto ela em sua época. A segunda famosa, Chica da Silva, uma ex-escrava, cresceu à margem de leis protetoras. Seu nome era Francisca da Silva de Oliveira (1732-1796). Ela conseguiu ser alforriada e, muito rica, dedicou-se a furar o bloqueio em instituições exclusivas de brancos. Por fim, Anita Garibaldi (1821-1849), que entrou para a história acompanhando o libertário Giuseppe Garibaldi nas lutas republicanas do Sul do Brasil.

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POLÍTICA
Carlota Pereira foi a primeira deputada eleita para a Assembleia Constituinte, em 1933

Mulheres inteligentes, mulheres talentosas, mulheres bonitas. Seja a designação que for, há, cravadas na memória popular, representantes de todas as áreas responsáveis por conquistas que permitiram a ascensão do poder feminino. Exemplo disso pode ser comprovado pelo papel das mulheres no desenvolvimento cultural do País em qualquer tempo. A princesa Isabel, por exemplo, teve contemporâneas de alta estirpe, como a compositora e pianista Francisca Edwiges Neves Gonzaga, mais conhecida como Chiquinha Gonzaga (1847-1935). Filha de uma mulata com um militar, a artista também lutou em defesa da abolição. Chiquinha enfrentou muitos preconceitos tanto na vida pessoal quanto na artística. No primeiro caso, por ter ousado separar-se de dois maridos e, aos 52 anos, iniciar uma relação amorosa com um jovem de 16 anos. Na arte, escandalizou ao botar seu piano a serviço da polca e de outros ritmos menos nobres, revolucionando a identidade musical do País. Chiquinha era amiga de Nair de Teffé von Hoonholtz (1886-1981), a primeira caricaturista do mundo. Casada com o presidente da República Hermes da Fonseca, Nair abriu o Palácio do Catete, no Rio, para saraus ao som de maxixes, tangos, lundus, quadrilhas, mazurcas, choros. A primeira-dama provocou indignação da elite, mas agradou ao povo.
As mudanças de costumes são as que provocam mais resistência em qualquer sociedade, e por aqui não foi diferente. Para ser sacudido, o Brasil precisou de personagens polêmicos como a dançarina Luz del Fuego (1917-1967), nome artístico de Dora Vivacqua. Ela trouxe da Europa, onde estudou, a filosofia de vida natural e vegetariana, sem drogas e bebidas alcoólicas. Queria popularizar o naturismo, mas o que mais chamava a atenção eram os shows que fazia seminua e enrolada em cobras jiboias. A dançarina acabou tachada de louca e internada em hospícios para tratamentos com choques elétricos. A atriz Leila Diniz (1945-1972) foi outro ícone no avanço de costumes para a mulher brasileira. Era irreverente, inteligente e provocadora, sem nenhum apego a tradições. Ao morrer de acidente aéreo com apenas 27 anos, Leila já tinha conquistado o País, debochando do conservadorismo em pleno regime militar.

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A DAMA DO PIANO E DO CHORO
A compositora Chiquinha Gonzaga escandalizou a sociedade brasileira

Também não faltam na trajetória do feminismo no Brasil histórias de obstinação como a da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), que passou a vida trabalhando para acabar com os tratamentos agressivos e desumanos com que a medicina tratava doentes psiquiátricos. Chamada de comunista, chegou a ser presa em 1936. Viveu na clandestinidade, mas nunca parou de contribuir para aprimorar o País. Muitos dos direitos que as mulheres têm hoje, em especial no campo de trabalho, resultam das lutas dessas várias gerações de feministas. Cada uma por seu lado permitiu que a sociedade se aprimorasse. Ainda há muito que caminhar nessa estrada, mas a certeza de que é possível construir um país com direitos abrangentes para gêneros e classes diferentes é maior agora. O motivo é bastante simples: brasileiros e brasileiras elegeram uma mulher presidente. E isso não foi um episódio isolado.

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Original da Revista Isto É, edição especial Dilma Presidente, 01NOV10.

 

Edemar.