De favela & de latifúndio

Trago-lhes, com muito ligeira edição, um texto que me chegou por imeil. Faço-o porque, como a autora, também não acredito em ‘crime organizado’ nas favelas do RJ; como a autora, atribuo à falta de melhores opções o envolvimento da juventude dali com o tráfico. Edemar.

Vamos refletir o passado? Terra para todos nós.

Diz a história que as pessoas trazidas do Continente Africano ao serem negociadas por aqui recebiam o nome de quem as comprou, ou seja, o negro africano recebia o nome do seu fazendeiro. Esse sistema tem lógica, pois se o africano era uma “coisa”, um bem pertencendo ao fazendeiro, correto era receber o sobrenome do seu dono.

Verdades ou mentiras, eu não conheço nenhum negro brasileiro que tenha sobrenome africano. Dos negros que conheço o sobrenome é Silva, Nascimento Carneiro, Souza e por aí vai… Como também sou uma negra brasileira, certamente me encontro nas mesmas condições que os demais negros, recebi o nome dos fazendeiros dos meus ancestrais.

Morei durante anos em frente a favela do Cruzeiro. Minha família ainda mora lá. Quando estou por lá, não são poucas as vezes que tenho que me abaixar dentro de casa para me proteger de alguma bala ou até mesmo convencer minha mãe a se abaixar ou sair da janela… O nervoso por lá é grande!!!

Não vou reproduzir o discurso hipócrita de que os marginais são perigosos… Me recuso a participar desta celeuma.

No entanto, meu coração se parte ao ver o desespero do choro daquela família que viu sua pequenina partir tão cedo. Se tenho que chorar, faço a opção do choro pelos vivos. Choro pelos vivos que não possuem moradia, que não possuem lar, que não possuem família. Choro por aqueles que no passado foram para as favelas e por lá ficaram. Choro por aqueles a quem foi negado o DIREITO a um LAR, o direito à MORADIA, o direito a ter uma FAMÍLIA.

Não se deve perder de vista que, quando parte um daqueles famosos “marginais”, certamente uma família há ter sido destruída e, de uma forma ou de outra foi-lhe negado o direito a ter uma FAMÍLIA. Sem falar na possibilidade do ciclo vicioso. Quando há um membro da família envolvido nessas relações é sempre possível que um outro parente tome o seu lugar. Vejam que os efeitos de uma política urbana desastrosa também se refletem em nossas vidas. Quando qualquer um de nós perde um ente querido, uma família se desmorona por conta da violência urbana. É o Estado negando o direito a ter uma família para estes também.

Se é violência urbana vamos investigar a causa, vamos “varrer” o passado para sabermos porque essas pessoas vivem de forma sub-humana, engalfinhadas em simplórias moradias.

Estejam certos que não HÁ IDEOLOGIA no crime que permeia nas favelas. O crime de lá é para as idas aos bailes, é a garota bonita, é o tênis de marca e como também não poderia deixar de ser a farta mesa que os “marginais” proporcionam para seus entes familiares. Dá para todos se dá bem!

Não dá para debater política urbana sem deixar de falar da questão do acesso à terra. Seja por causa do passado, seja por causa do presente. Não é à toa que o que mais temos são homens com IMENSAS FAIXAS DE TERRAS nos representando no Congresso. Se o movimento social não é capaz de mover as terras, então não seremos capazes de mover os homens. São as terras que prendem os homens em nossas relações de poder. Vamos parar de ser inocentes. Vamos quebrar o ciclo das terras.

Falamos em terra porque queremos moradia, queremos um lar, queremos uma família. Eles têm as terras porque querem propriedades. Eles querem riquezas. Eles querem concentração de riquezas, por isto a concentração de terras, com imensas faixas de terras. EU NÃO VOU FALAR EM LIMITAÇÃO DE FAIXA DE TERRAS. Eu quero revolver as terras, eu quero FALAR DO PASSADO. A hora é agora.

UM FELIZ 2011 para todos nós!

Ione Carneiro
Rio de Janeiro-RJ

Sou afrodescendente
sou de fé sou de axé
sou dos Direitos Humanos.

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