O primeiro mês do governo Dilma – Rumos novos, a mídia e a oposição

31/01/2011

 

Antonio Fernando

 


É evidente que desse primeiro mês nenhuma conclusão precisa pode-se tirar quanto aos alvos políticos que nortearão seu governo. Suas declarações indicando a continuidade das linhas gerais do governo Lula não dispensam aspectos próprios que ela já estabeleceu para sua administração e já do conhecimento de todos (entre os 13 pontos principais de seu governo, três dizem respeito à questão da miséria e da pobreza). Contudo certos gestos de seus auxiliares começam a provocar desconforto entre alguns setores da sociedade que ajudaram a elegê-la suscitando ansiedades e indagações fundamentais embora talvez prematuras. Uma delas diz respeito a aparente dubiedade com que o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, está conduzindo a questão da chamada “propriedade cruzada” (quando um mesmo grupo controla concessões de TV, de rádio, jornal, etc.) de veículos de comunicação no país tendo como pano de fundo aquilo que o sociólogo Laurindo Lalo Leal Filho considera uma falácia, qual seja “afirmar que a convergência de mídias tornou obsoleta a discussão sobre propriedade cruzada. Formas de produção e circulação de dados e noticiários em diferentes plataformas não têm nada a ver com a propriedade cruzada. Esta diz respeito a organização societária dos conglomerados e, o mais importante, a sua abrangência sobre a sociedade”, garante ele. Os porquês da ministra da Cultura, Ana de Hollanda ter determinado a retirada da logomarca-licença da Creative Commons do site do ministério parecendo indicar que a política nesta área de direitos autorais vai ser modificada, o que isso significa ou pode vir a significar para a difusão de bens culturais país afora. O próprio PT enfatizou que seria fundamental que o Ministério retomasse o quanto antes o debate público e democrático sobre a reforma da Lei dos Direitos Autorais garantindo que os bens culturais possam ser acessados por toda a população enquanto trabalha no sentido de construir pontes para debater novas formas de financiamento para o produtor cultural. A forma canhestra com que o ministro Nelson Jobim (Defesa) se mostrou favorável à instalação da Comissão Nacional da Verdade para investigar violações aos direitos humanos ocorridas entre 1964 e 1988, e ainda por cima assegurar não haver divergências entre ele e Maria do Rosário, ministra dos Direitos Humanos. O aumento de 0,5 ponto percentual na taxa Selic (10,75% para 11,25% ao ano), promovido pelo BC (Comitê de Política Monetária-COPOM) em sua primeira reunião sob o comando de Alexandre Tombini suscitando mais uma vez, críticas ao “tripé neoliberal da política macroeconômica, com juros elevados, arrocho fiscal e cambio flutuante” que o Brasil insiste em manter favorecendo a oligarquia financeira que, por sua vez, “ganha com os juros, com o superavit e com a libertinagem cambial”, como assinalou Altamiro Borges, em seu blogue, em detrimento da atividade industrial (competindo com o produto importado, principalmente o chinês) e com nossa pauta de exportação (produtos manufaturados, semimanufaturados e commodities). Fora isso, o que pudemos assimilar diz respeito a aspectos secundários, de comportamento, que no máximo sinalizam uma possível diretriz de postura perante os acontecimentos, de relacionamento com a imprensa e de características de estilo no trato da coisa pública. Para ilustrar lembro o ‘puxão de orelha’ que levou o general José Elito de Carvalho Siqueira, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), depois de afirmar não ser motivo de vergonha para o país o desaparecimento de presos políticos durante a ditadura militar.

Quanto a grande mídia, embora derrotada no pleito de 2010, ainda assim prossegue em campanha para pautar o novo governo segundo seus interesses privados (Estadão de 27/01 em manchete de 1a. página: “Governo desistiu de incluir a propriedade cruzada no projeto de regulação da mídia”) ou os dos partidos políticos que apoia (PSDB, Dem, etc. e sobre as enchentes de São Paulo, há cerca de 20 anos governado pelo PSDB, não faltou o silêncio cúmplice). Sempre que a oportunidade se apresentou não deixou de aplicar uma estocada nos flancos mais desguarnecidos do governo federal, aproveitando-se tanto da tragédia provocada pelas chuvas no Rio (onde até o ex-governador Garotinho entrou em cena para denunciar um trato entre o governador Cabral e a Rede Globo que implicou num desvio de R$ 24 milhões do FECAM – Fundo Estadual de Conservação do Meio Ambiente -, para a contenção de encostas e obras de drenagem, para os cofres da família Marinho) e em outros estados quanto da escolha dos ministros e secretários, das imaginárias brigas com o PMDB (esforçam-se para “transformar negociação política em ‘guerra sangrenta’ e vil.”), das propostas em torno do novo salário mínimo, das disputas com os demais partidos da base aliada por cargos no segundo escalão e assim por diante, sem abandonar um instante sequer o esforço de desqualificar o governo passado, desde o primeiro dia quando praticamente não noticiou a retumbante aclamação com que o ex-presidente foi recebido em São Bernardo. Prosseguiu com alusões às “heranças malditas” que supostamente ele estaria deixando (tipo Cesare Battisti, a lei das mídias, etc.), ao imaginário apagão aéreo do final de 2010, ainda que a Eliane Catanhêde, num texto na Folha de SP em 02/01, tenha se derramado em elogios ao ex-presidente e ao seu governo num texto inimaginável para quem passou 8 anos espinafrando-os.

Cabe ressaltar entretanto que tais “elogios” tardios não foram suficientes para projetar uma sombra apaziguadora sobre as frustrações do Reinaldo Azevedo que na Veja lascou : “Lula e Franklin Martins deram com os burros n’água e não conseguirão implementar o tal ‘controle social’ da mídia” e “Dilma, nesse particular, resolveu aprender com os descaminhos de Lula”, sobre o “escândalo” da renovação do passaporte diplomático dos filhos do ex-presidente Lula, como se fosse um ato ilegal, sobre o rancor de O Globo que em 16/01 estampou em manchete: “No governo Lula, mais 82 mil servidores” aproveitando-se do fato de que a maioria das pessoas não passa das manchetes, para fixar a impressão de que Lula inchou “indevidamente” a máquina pública não dando destaque ao fato de que a “maioria das contratações ocorreu na área da educação (professores e profissionais para as Escolas Técnica e Universidades, novas e antigas), com mais de 49 mil servidores“, como aparece no próprio corpo da matéria. Mas, convenientemente esqueceu-se de divulgar que mais de 2.500  funcionários foram demitidos, destituídos de cargos em comissão ou tiveram aposentadorias cassadas por corrupção durante os oito anos do governo dele nem que fosse ao menos para rabiscar um novo enredo sobre aquela história de que Lula fez “vista grossa” pra corrupção. Como se não bastasse resolveu implicar até com as férias de uma semana que ele foi passar em uma instalação militar no Guarujá. A coisa é de tal ordem que levou o experiente jornalista Mauro Santayana a escrever no JB
Online: “Também aqui [como nos EEUU] estamos percebendo uma orquestração da extrema-direita contra o governo que se inicia. Os sinais da rearticulação da direita, no Brasil, mediante a imprensa, o rádio e a televisão, e da extrema-direita, pela internet, são evidentes.”

Na seara específica da oposição e em que pese o fato de nos últimos dias um festival de denúncias esteja enlameando dois dos principais chefões do PSDB – o governador Geraldo Alckmin e o presidenciável derrotado José Serra – com denúncias contra Paulo César Ribeiro, o Paulão (irmão da primeira-dama do Estado, Lu Alckmin) que chefiaria uma quadrilha que garfou licitações em prefeituras de São Paulo e de mais quatro estados para fornecer merenda escolar, pode-se afirmar sem sustos que aquela oposição raivosa citada acima, encastelada nessa mesma mídia, que, como dissemos, já deu várias mostras que quer governar o Brasil no lugar de Dilma, fornecendo análises sempre contrárias a política do novo governo, sugerindo através dos seus “especialistas” as alternativas “viáveis” para resolver os problemas nacionais e que, caso não sejam aceitas “vislumbram” trágicas consequências no futuro, ainda que este futuro não venha se confirmando ao longo dos último 10 anos, pois bem, essa imprensa ainda não esgotou sua munição no intuito de também jogar a população contra a presidenta, basta ver a informação falsa de que Dilma retirara o crucifixo do gabinete e a Bíblia da mesa de trabalho do Palácio do Planalto, como noticiou a Folha de SP, como se pretendesse mandar um recado aos leitores: “nós avisamos, ela é a favor do aborto, não é religiosa, esses comunistas são perigosos!”

Entretanto o máximo da “escrotidão” (usando um termo do articulista Edmar Motta), foi quando o Jornal Nacional, do dia 14/01 lançou as imagens do início da reunião ministerial do governo Dilma ocorrida na véspera, dia 13, ela própria muito sorridente posando para a imprensa, com ministros mascando chicletes e ao celular, justo na sequência de imagens que tratavam da tragédia no Rio de Janeiro como se esses eventos tão distintos estivessem ocorrendo simultâneamente, num esforço manipulador de querer passar ao telespectador um contraste entre a dor dos que perderam tudo e os sorrisos ministeriais supostamente recheados de falsas promessas e de descasos com a população. Nesse aspecto nada melhor do que dar uma espiada no original trabalho Aprenda a Manipular, no link http://gonzum.com/?p=1990 extraído do Curso Básico de Jornalismo Manipulativo e que o blogue Gonzum divulgou. Por outro lado, sobre o importante lançamento do PAC de Erradicação da Miséria quase nem um pio e, no intuito de ridicularizá-lo, ainda apelidaram-no de “PACquinho”. Entretanto, sua importância pode ser melhor avaliada pela elevação do parâmetro da linha de pobreza que passará dos atuais R$ 70,00 para R$ 108,00 per capita, uma sugestão do economista Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, para aumentar a inclusão de famílias no Bolsa-Família, como se fosse uma espécie de meta de inflação, já adotada pela área econômica. E mais: Neri sugeriu a Dilma que a verificação da renda das famílias não se baseie apenas na informação de cada uma delas, mas também em dados sobre todos os “ativos” das pessoas do domicílio, como tipo de trabalho, condições de moradia, acesso a serviços públicos, pessoas com deficiência, crianças lactantes e idosos. A erradicação da miséria é uma proposição tão ousada que Paul Singer, secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, alerta
que isso exigirá “tamanho empenho da sociedade e do governo que só a mobilização total de suas forças a tornará realidade. Não sei de qualquer governo nacional que tenha se proposto a erradicar a miséria de seu país em quatro anos de mandato. Ainda assim, nossa presidente Dilma Rousseff apresenta essa meta como a fundamental do seu governo.”

De verdade e nos detendo agora sobre a cena econômica são pouquíssimos os economistas que ousam discordar de que o País entrou em um ciclo de desenvolvimento sustentado e mais raros ainda aqueles que duvidam da capacidade de o Brasil se tornar uma das maiores potências econômicas do planeta em um par de dezena de anos. Como um alentador e sintomático reflexo disso foi inaugurado em São Paulo, pelo ministro do Trabalho, Carlos Lupi, o Núcleo de Informação e Apoio aos Trabalhadores Brasileiros Retornados do Exterior, que terá como principal função orientar os brasileiros que, de volta ao país, busquem acesso aos serviços públicos e a reinserção ao nosso aquecido mercado de trabalho. Como disse o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas: “Estamos condenados a crescer e vamos ultrapassar rapidamente grandes potências. Hoje o Brasil ganha terreno, enquanto outros perdem”.

Foi exatamente sobre isso que escreveram os repórteres Yan Boechat e Adriana Nicacio, da Isto É. A “opinião de Freitas parece ufanista. Mas não é. Excetuando alguns poucos momentos da história brasileira, nunca o País esteve tão preparado para dar um salto de desenvolvimento como agora. Estável, vivendo um ambiente de tranquilidade institucional, com ascensão social e econômica das parcelas mais pobres de sua população e sem pressões inflacionárias ou de liquidez, o Brasil caminha para se transformar em uma das cinco maiores economias do mundo nos próximos dez anos.” E prosseguem: “O consenso em torno do Brasil não se restringe apenas à sua capacidade de se tornar uma potência econômica. Se estende também aos numerosos e complexos desafios que o País precisa enfrentar com urgência para conseguir fazer com que seu potencial de crescimento se torne realidade. E eles são muitos e diversos. Vão desde uma complicada estrutura tributária, passando por uma decadente e onerosa infraestrutura e um baixíssimo nível de investimento até chegar a um dos pontos mais complicados de ser resolvido: o ineficiente sistema educacional brasileiro.”

Finalmente, um destaque para a carta-resposta que o Ministro-Chefe da CGU (Controladoria Geral da União), Jorge Hage enviou à revista Veja contestando um por um os vários aspectos de uma matéria da edição “Retrospectiva 2010” dessa revista que, entre acusações e insinuações, procurou enlamear a atuação desse órgão no combate à corrupção. Em um outro cenário, semelhante no que diz respeito às intenções ocultas, foi a vez da Folha de S.Paulo mostrar como não fazer jornalismo. Conforme denúncia da Fundação Perseu Abramo ela fez de tudo para desqualificar o trabalho das fundações partidárias ao não tratar com seriedade a questão do financiamento público eleitoral, assunto da pauta política brasileira e ainda por cima com ilações, tentar atingir todas as fundações partidárias indiscriminadamente. Generalizações como as que foram apresentadas na matéria são perigosas e não traduzem a realidade daqueles que levam seu trabalho a sério.

Concluo encampando uma preocupação já externada por alguns jornalistas, comentadores e blogueiros: “a lei da mídia vai enfrentar resistência feroz e, tal como eles, também não vejo o governo buscando apoio na sociedade para alicerçar um projeto em bases progressistas. Sem a acumulação de forças e com a proposta gestada nos gabinetes, esta certamente deixará a desejar”, concluiu Eduardo Guimarães em seu blogue. Ao mesmo tempo destaco o que escreveu o jurista Fábio Konder Comparato, o mesmo que em muitos momentos foi um crítico do governo Lula: “Espero que o governo da presidente Dilma Rousseff não se acovarde, nem diante do oligopólio empresarial de comunicação de massa, nem perante os chefes militares, que continuam a defender abertamente os assassinos, torturadores e estupradores” da ditadura. Segundo ele, para que o Brasil ingresse em uma verdadeira democracia, os meios de comunicação precisam ser “utilizados pelo povo como seus canais de comunicação, e não apropriados por grandes empresários, que deles se utilizam exclusivamente em seu próprio interesse e benefício”.


Os cem primeiros dias do governo Dilma – 5ª parte

31/01/2011

 

De 26 a 30/01/2011


qua – 26/01 –  Segundo Hamilton Octávio de Souza, em seu Fatos em Foco, do blog Correio do Brasil, “de manifestação em manifestação, está crescendo – em São Paulo – a mobilização contra o aumento das passagens de ônibus, de R$2,70 para R$3,00, que, nos últimos anos, foi bem acima da inflação e dos reajustes salariais. Finalmente os estudantes e os trabalhadores estão saindo da passividade e ganhando as ruas em protestos.” Ainda, segundo ele, “é preciso fazer o mesmo em defesa do petróleo e contra a privatização da saúde e da educação.”

 

qui – 27/01 – Durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, nesta quinta-feira, a presidenta Dilma conheceu o Centro de Operações da Prefeitura do Rio, que atua na prevenção de catástrofes e situações de emergências, e definiu o projeto como “o futuro” e uma revolução na gestão urbana. Na opinião da presidenta, com a inauguração do Centro o Rio deu “um passo à frente do Brasil em matéria de integração de informações de gestão do espaço urbano”. O Centro de Operações é um projeto da Prefeitura carioca e busca integrar as diversas etapas de um gerenciamento de crise, desde a antecipação, mitigação e preparação, até a resposta imediata aos eventos e realimentação do sistema com novas informações, que podem ser usadas em futuros casos.

Também nesta quinta-feira o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o desemprego brasileiro caiu para 5,3% em dezembro, ante 5,7% em novembro/2010, sendo o menor patamar da série histórica iniciada em março de 2002. Economistas consultados pela agência inglesa de notícias Reuters projetavam uma taxa de 5,1%. Em 2010, o desemprego médio foi de 6,7%, o menor da série, contra 8,1% em 2009.

 

sex – 28/01 – No mesmo palco que Lula frequentou por várias vezes, empresários em Davos, Suiça, avaliam oportunidades de negócios no Brasil. É o que nos informa hoje o Correio do Brasil, na ocasião em que o Fórum Econômico Mundial de Davos promove uma sessão especial de debates sobre o Brasil. Na Brasil Outlook, que contou com a participação dos ministros de Comércio da África do Sul, China e Índia, além do vice-primeiro ministro do Reino Unido, Nick Clegg, as oportunidades de negócios no país e a segurança dos investimentos estiveram no centro das palestras. O Brasil foi representado pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, e executivos da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer). O fórum debate, entre outros temas, as mudanças nos sistemas financeiros e a exploração de estratégias e soluções para os desafios globais. Os participantes também devem discutir a falta de consenso sobre as questões climáticas e as inovações tecnológicas. Outra preocupação é a necessidade de aumentar a produção de alimentos no mundo.

 

sab – 29/01 – Se depender apenas do blogue “Amigos do Presidente Lula”, Alckmin e Aécio estão fazendo barba, cabelo e bigode no PSDB e não deixam sobrar nada para José Serra. A escolha dos líderes na Câmara dos Deputados foi uma divisão salomônica entre Aécio e Alckmin: o líder do partido na Câmara é um alckmista: Duarte Nogueira (PSDB/SP) e o líder da minoria na Câmara é um aecista: Paulo Abi-Ackel (PSDB/MG). Para a presidência do partido, um cargo que Serra estava interessado, querem reconduzir Sérgio Guerra (PSDB/PE). Para o Instituto Teotônio Vilela (órgão de estudos e formação política do PSDB), outro posto que Serra tinha interesse, estão articulando Tasso Jereissati (PSDB/CE). Parece que sem espaço entre os tucanos, só resta a Serra fazer as malas e mudar para o DEMos de uma vez. Essa opinião é corroborada por Luis Nassif que, ao incluir o prefeito Kassab no embróglio reserva-lhe o último capítulo como herdeiro único do serrismo-malufismo e ao Serra, propriamente dito, o twitter. Isso se o prefeito não se mandar antes, do DEM para a base aliada de Dilma via PMDB, já que a aliança entre padrinho e afilhado (Serra e Kassab), forjada na eleição municipal de 2004 e repetida com sucesso na disputa de 2008, começa a dar os primeiros sinais de esgarçamento.

 

dom – 30/01 –  Segundo o blogue do Eliomar, Lula é hóspede da conhecida Pousada Calango, na praia de Jericoacoara. Ele desembarcou na noite de 28/01em Fortaleza e seguiu direto para Jeri. Ele veio passar o fim de semana com dona Marisa, no Litoral Oeste do Ceará. Lula havia manifestado esse desejo para o governador Cid Gomes (PSB) durante sua última passagem pelo Estado, ocasião em que lançou a pedra fundamental para o processo de instalação da futura refinaria premium.

 

Antonio Fernando


Um retrato de Lula. Em alta definição.

28/01/2011
Sexta-Feira, 28 de Janeiro de 2011. Carta Maior de hoje brinda-nos com outro artigo de excelente qualidade. Neste, seu autor analisa o político Lula e sua atuação na Presidência. A densidade inicial do texto é uma moldura necessária à melhor compreensão do sucesso do retratado.  Seguramente, quem o ler,  terá proveito. Edemar.

 

26/01/2011

Lula, o filho da dialética

J. Carlos de Assis*

 

O que há de comum entre a dialética marxista e o princípio milenar de Lao Tsé segundo o qual não se deve remar contra a corrente, mas usar sua força a seu favor? Tudo. É essencialmente o mesmo princípio. O que me impediu durante décadas de ver isso foi uma leitura superficial de Marx. Ou melhor, uma leitura de Marx que não considerava os fundamentos mais profundos de sua própria dialética no plano filosófico, ainda hoje insuperável, pela razão de que ela está recoberta por uma dialética política impressionista que se revelou idealista e fracassada.

Nenhum político brasileiro, e poucos no mundo, se revelaram melhores discípulos de Lao Tsé do que Luís Inácio Lula da Silva. Mas Lula é também um produto genuíno da dialética marxista. Para Marx, a história avança como resultado de conflitos entre forças materiais polares (para seu inspirador, Hegel, eram as forças de idéias polares), sendo uma conservadora, outra progressista, e de cujo embate sempre resulta a superação de ambas num nível superior. Em seu aspecto formal, trata-se da interação real entre tese, antítese e síntese.

Superação não significa domínio da antítese sobre a tese. Significa a interação de ambas numa síntese que contém elementos próprios de cada uma delas, porém numa direção nova. A grande novidade da dialética marxista, em relação a Hegel, é que ela coloca o conflito histórico recorrente no nível das forças materiais, e não no campo exclusivo das idéias. Isso não chega a ser contraditório em relação à dialética política marxista, a qual, confiada no conhecimento humano dos determinantes de sua própria história, entendeu possível ser eliminado o conflito de classes pelo domínio absoluto de uma classe, os trabalhadores, sobre a outra, os burgueses.

A razão dessa extrapolação política é em si mesma simples: se a dialética formal exige que, no conflito entre tese e antítese, a síntese que o supere guarde elementos de ambos, o que se guarda do capitalismo na construção do comunismo pela liquidação da burguesia não são elementos das complexas relações sociais por esta criada, mas sua característica material fundamental: o espetacular desenvolvimento das forças produtivas realizado pelo capitalismo, exaltado inclusive pelo Manifesto Comunista de 48. Este seria herdado e apropriado pelos comunistas. Concilia-se assim dialética formal com dialética política, na medida em que esta rejeita a superação do conflito mediante interação das classes em favor da idéia de eliminação, no comunismo, não só da classe burguesa, mas de todas as classes.

Marx não chegou a ser muito preciso a respeito do que pensava ser a marcha da história depois do comunismo. Em geral, confiava num processo de emulação (não de competição) entre trabalhadores, estes em condições sociais iguais, para produzir o progresso tecnológico numa sociedade sem classes. Idealismo puro. Num certo sentido seria o fim da História tal como a conhecemos, ou seja, como um processo dialético, ou de conflitos. Mais de um século mais tarde, um pensador norte-americano, Francis Fukuyama, também achou que estávamos ao ponto de chegar ao fim da História, porém mediante um processo dialeticamente inverso: pelo predomínio absoluto do neoliberalismo e a eliminação do reformismo social tradicionalmente perseguido pelas esquerdas.

Vimos ao longo do século XX e neste início do XXI que os processos históricos são bem mais complexos, não obstante a validade formal da dialética marxista e hegeliana: a limitada burguesia capitalista e a ampla classe dominante feudal, numa área remota e pouco desenvolvida do mundo, a Rússia, foi liquidada por um golpe de um punhado de trabalhadores e uma multidão de camponeses liderados por intelectuais, mas disso não resultou o fim das classes. Resultou, sim, na lenta criação de uma nomenclatura privilegiada em face de massas subjugadas, trucidadas e amordaçadas, não obstante algum progresso material inicial.

Na China, outra área remota de camponeses, a revolução comunista triunfante só se estabilizou e colocou o país na trilha do desenvolvimento após a consolidação de uma elite dominante tecnocrática que tem características mais próximas do antigo mandarinato do que do mundo burguês ocidental. Nesses dois grandes países, a tese não era o capitalismo, mas algo próximo do feudalismo; a antítese, depois do interregno caótico comunista, está sendo o próprio capitalismo liberal importado, embora com elementos sociais. A síntese, não revolucionária, está em processo. É como se a história tivesse feito um desvio geográfico, o equivalente de um epiciclo planetário no sistema cosmológico de Ptolomeu. Na era nuclear, a guerra, anteriormente o fato supremo da Geopolítica, já não pode ser, como havia afirmado Clausewitz, a continuação da política por outros meios: o adversário não pode ser destruído sem uma simultânea autodestruição, mas, sim, absorvido num processo de negociação e de composição sem derrotados definitivos.

O que aconteceu ao longo desse período no Ocidente, berço da dialética, do capitalismo, do comunismo e da Geopolítica de Clausewitz? Aconteceu o curso da dialética real, traçando um rumo da história que se revelaria também o mais próximo do princípio de Lao Tsé: à sombra do conflito de idéias e de interesses entre capitalismo liberal e socialismo real, debaixo do medo do comunismo soviético e dos comunistas internos, um grupo de nações européias, liderado pelos nórdicos, promoveu a síntese social democrata, com elementos aproveitados dos dois sistemas em conflito, porém superando-os. De um lado, o respeito à propriedade privada e o prêmio pelo esforço, pela inovação e pela competência; de outro, os programas sociais promovidos pelo Estado a partir de uma pressão crescente por igualdade de oportunidades sobre a renda nacional, porém de caráter não revolucionário, através da expansão dos orçamentos públicos pela força da cidadania ampliada.

O conflito geopolítico entre as potências hegemônicas antagônicas, Estados Unidos e União Soviética, à sombra do terror nuclear, dominou a segunda metade do Século XX e de certa forma obscureceu as nuances do modelo social democrata europeu na sua fase de construção e de consolidação. É da natureza de qualquer conflito político a radicalização. Acontece que, na era nuclear, a radicalização política tinha e tem limites: os falcões norte-americanos não podiam colocar em prática seus propósitos de levar a União Soviética à rendição por meios militares, assim como permaneceu como letra morta o artigo do programa do PCUS de destruir o capitalismo e o imperialismo (norte-americano). Entretanto, uma retórica estridente num plano impraticável não deixa de produzir resultados mobilizadores na base.

No plano da ideologia, da propaganda e da imprensa engajada do pólo norte-americano, toda pessoa com preocupações sociais era taxada de comunista; com isso, nos Estados Unidos, tendo por epifenômeno a caça às bruxas do Senador McCarthy nos anos 50, o progresso social a partir do Estado seria lento. Mais do que isso, sob a vasta área de influência norte-americana do lado ocidental, se era possível a consolidação da social democracia no norte da Europa, tornou-se bem mais difícil importar esse modelo pelos países atrasados ou, como se diz hoje, em desenvolvimento. Uma das razões, talvez entre as principais, era de natureza contraditória, e inequivocamente ideológica: os comunistas não queriam reformas, queriam revoluções. Nisso, acabavam como aliados efetivos dos conservadores que também não queriam reformas.

A Europa teve mais sorte. Dois marxistas geniais, Eduard Bernstein e Karl Kautsky, se deram conta no começo do século XX de que entre a classe burguesa e a classe operária o movimento real da história, num curso bem diferente do previsto por Marx, estava produzindo relações sociais complexas na forma de classes médias cada vez mais amplas, com interesses próprios diferenciados das outras duas. Foram acusados de renegados e expurgados do marxismo oficial. Não obstante, foram eles que abriram as portas para o reconhecimento de uma síntese social democrata no plano teórico. Foi graças a ideólogos como eles que a pequena Suécia não caiu na armadilha da luta ideológica radical, fundando efetivamente a social democracia ainda nos anos 20.

Nós não tivemos a mesma sorte. O máximo de acomodação que nossos ideólogos de esquerda conseguiram produzir no espaço entre os dois pólos ideológicos foi o conceito de revolução nacional burguesa, num momento em que o capitalismo de fora para dentro já se estava tornando internacional e o capitalismo de dentro para fora conquistava boas oportunidades associando-se com o externo, ambos contribuindo para expandir os limites das incipientes classes médias. Fernando Henrique Cardoso elaborou o conceito com um trejeito de neutralidade acadêmica, expurgando-o do apelo revolucionário. Sua teoria da dependência é a teoria do desenvolvimento capitalista subordinado, por cima das relações sociais concretas internas, o que tentou levar à prática em sua Presidência. Certamente foi mais realista que os ideólogos revolucionários comunistas. Mas não correspondeu ao Brasil real, ou às forças sociais reais que prevalecem no Brasil desde os anos 90.

O quadro mais complexo do Brasil contemporâneo está retratado na Constituição original de 88. Foi essa Constituição, renegada inicialmente pelos parlamentares do PT e colocada sob suspeita pelos conservadores, que gerou Lula, sendo que Lula esteve no centro dos acontecimentos sociais e políticos que geraram a abertura política na ditadura, e a própria Constituinte de que seria uma consequência. Isso é dialética no mundo real, não no plano das idéias. O sentido mais profundo da Constituição é que ela refletia, ou aparentava refletir, uma força política que correspondia a uma efetiva democracia de cidadania ampliada. O fato político mais decisivo rumo à ampliação da cidadania foram as históricas greves de 1978, 79 e 80, em confronto direto com as restrições do governo autoritário. Lula foi o líder inconteste dos trabalhadores organizados nessa greve, e a aura do sucesso lhe abriu o caminho para que, transcendendo o sindicalismo, acabasse sendo o grande líder das massas indiferenciadas que acabou sendo: os pobres eternamente relegados a segundo plano pelo orçamento público no Brasil. Esses pobres, inclusive analfabetos, viram reconhecida sua cidadania na Constituição de 88, além de amplos direitos sociais. Os conservadores só tiveram tempo de espantar-se diante do novo quadro político, e preparar uma contra-ofensiva, através da recorrente pregação posterior de reformas liberais.

No início Lula foi celebrado como um herói contra a ditadura. Como boa parte das classes médias estava contra a ditadura, seja por razões ideológicas, seja por sentimentos democráticos genuínos, é possível que ele no início tenha tido relativamente mais apoio nas classes médias pelo que parecia ser, e menos apoio das classes subalternas pelo que ainda não era. Isso se reflete nas várias eleições presidenciais que disputou e perdeu, antes da vitória em 2002. O partido que construiu era um curioso ajuntamento de sindicalistas, intelectuais e católicos progressistas, com um poder de atração considerável sobre a juventude, dada a inclinação natural desta para uma espécie de veneração romântica da classe trabalhadora (o que, em outro tempo, era um grande fator de recrutamento de quadros pelos PCs).

Sabemos que a Constituição de 88 não foi plenamente aplicada. Aliás, em várias partes e em momentos posteriores ela foi de fato estuprada, desde o Governo Collor ao Governo Fernando Henrique. Qual a razão disso, à luz da dialética? A razão é que os avanços nela inscritos não correspondiam a uma expressão genuína do jogo de poder entre forças sociais reais, mas a uma concessão romântica de forças políticas progressistas, que detiveram por um momento o poder parlamentar, mas não o poder real. Este estava nas mãos dos conservadores que iniciaram o movimento anti-progressista ainda com o Centrão e iriam aprofundá-lo com o movimento de desestatização, privatização e corte de direitos sociais nos anos posteriores.

Estes foram anos em que o Brasil, tradicionalmente sujeito à influência de ideologias externas, sucumbiu à avalanche neoliberal em progresso no mundo. Já antes da desarticulação da União Soviética o socialismo real se desmoralizava mundialmente como conseqüência da falta de liberdade individual e de fracassos no plano material, desde o atraso tecnológico a ondas de desastres agrícolas. Depois da desarticulação, comunistas brasileiros e simpatizantes do socialismo viram-se sem referência política. Não era uma característica exclusiva nossa. Os tradicionais partidos de esquerda europeus, e o próprio Partido Democrata norte-americano, também sucumbiram. Não estranha que Fukuyama tenha, nesse contexto, vislumbrado o fim da História.

O Governo do intelectual Fernando Henrique foi o reflexo medíocre desse processo: passará à História como um apêndice irrelevante do neoliberalismo europeu e norte-americano. Foi a crise financeira de fins dos anos 90, coroando anos seguidos de virtual estagnação econômica, que apontou a fragilidade do modelo neoliberal adaptado a condições brasileiras. O relaxamento das certezas políticas em torno dele, que abalou parte das próprias classes dominantes, abriu espaço para que emergissem demandas de baixo para cima com potencial de influir no processo político. Lula ocupou esse espaço, porém com uma extraordinária habilidade instintiva para construir uma alternativa entre radicalismos de esquerda e de direita.

Poderia ter sido feito de outra forma? O início do primeiro Governo Lula foi decepcionante para a maioria dos progressistas, inclusive para mim. De saída, ele trouxe para o núcleo central da política econômica um presidente do Banco Central extraído do próprio sistema neoliberal. Acrescentou-se a isso, pela mão de um Ministro da Fazenda convertido à ortodoxia econômica, um compromisso explícito com uma política fiscal restritiva, igualmente a pleno gosto dos neoliberais. Em face de uma taxa de desemprego alarmante, esses movimentos na política econômica poderiam ser justificadamente considerados concessões excessivas à direita e uma traição à maioria do povo que o elegeu. Por cima de tudo, a política social oscilava num plano ainda indefinido.

Em contrapartida, o quadro herdado do Governo anterior era, por sua vez, de extrema complexidade. A despeito de uma taxa de juros básica elevada, a inflação tinha disparado. As reservas cambiais minguavam. Uma especulação desenfreada havia provocado uma explosão da taxa de câmbio. As expectativas empresariais eram sombrias em relação às iniciativas do primeiro partido de esquerda que chegava ao poder no Brasil. Diante disso, a presença de José Alencar, um grande empresário, no cargo de Vice Presidente, era um hábil expediente político, porém não necessariamente efetivo (acabou sendo).

Então aconteceu o imprevisível: os ventos internacionais começaram a soprar a favor. O boom da economia mundial e sobretudo da China puxou para níveis até então inimagináveis as quantidades exportadas e os preços das commodities vendidas pelo Brasil, possibilitando o início de um processo de rápida acumulação de reservas externas; a taxa de câmbio tinha atingido níveis tão altos (quase R$ 4,00) que, mesmo com sua progressiva redução por força do aumento da taxa de juros, subiram também as exportações de manufaturados, em face do ambiente externo igualmente favorável; por efeito da melhora do quadro externo, o mercado interno começou a reagir, inclusive com moderada recuperação do emprego, ao ponto de que, em 2004, o Banco Central se sentiu no direito de dar uma travada na economia para supostamente combater pressões inflacionárias. O resto é conhecido: recuo em 2005 e nova retomada, desta vez mais consistente, a partir de 2006. E uma firme virada política na direção do atendimento às aspirações dos mais pobres e das políticas sociais universais a partir de 2004.

Imagine-se um caminho diferente: Lula teria composto um Ministério econômico mais progressista e implementado políticas mais populares desde a saída. Seria um confronto direto com as classes dominantes conservadoras. No passado, estas tinham o Exército a seu favor, e reagiriam pelo recurso tradicional de um golpe. Agora, dispõem de forças igualmente poderosas: uma parte considerável da grande mídia que forma a opinião pública – muitas vezes em contradição com os interesses reais desta última.

Vimos, pela eleição de Dilma, que a grande mídia tem um poder construtivo limitado: a seu gosto, teria sido eleito Serra. Contudo, seu poder destrutivo não pode ser subestimado. Para o bem ou para o mal, ela destruiu o governo militar, desmoralizou o Plano Cruzado e a moratória do Governo Sarney, promoveu o impeachment de Collor, desestruturou o PT no mensalão. Não fora a força carismática imbatível de Lula, e sua empatia com o povo, além dos meios de informação mais democratizados da internet, e ele e sua sucessão seriam igualmente destruídos pela mídia. Imagine, pois, uma situação de crise geral do país, como anteriormente assinalada, em que um governo inexperiente de esquerda começasse a tomar medidas contra os interesses da classe dominante, muito especialmente os interesses do estamento financeiro entrelaçados com preconceitos ideológicos das classes médias, e que têm as maiores contas de publicidade: seria simplesmente massacrado e desestabilizado pela mídia, inclusive em face da contribuição eventual de petistas tão embriagados pelo poder que fossem capazes de produzir algo tão moralmente repugnante como um mensalão na órbita do palácio!

É claro que a especulação sobre o que poderia ter acontecido se Lula tivesse tentado fazer um governo puro de esquerda (o que é exatamente isso?) é perfunctória, depois do fato consumado. Entretanto, o caminho seguido é uma lição de história… e de dialética, ou da aplicação prática da doutrina de Lao Tsé. Estranho que, quem a tenha dado, seja um torneiro mecânico treinado apenas no sindicalismo, sucessor de quem era considerado um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros. Contudo, talvez seja essa a explicação. Lula nunca pregou a destruição do capitalismo. Nas greves históricas que promoveu, era sobretudo um negociador de aumentos salariais. E em geral sabia até onde poderia ir em termos de reivindicações para não inviabilizar a empresa e destruir a fonte de emprego do próprio trabalhador.

Testemunhei isso. Em 1978, eu era subeditor de Economia do “Jornal do Brasil” e fui indicado pelo editor, Paulo Henrique Amorim, para coordenar as edições das greves do ABC. Na época o “Jornal do Brasil” era o principal formador de opinião brasileiro e o fato de ter aberto duas páginas diárias para as greves foi decisivo para sua repercussão em nível nacional, já que a conservadora imprensa paulista praticamente se omitiu no início delas.

Terminadas 40 dias de greves, fui a São Bernardo para conhecer pessoalmente Lula. Estive com ele um dia inteiro. Entre os relatos que me fez, lembro-me de um sobre uma fábrica de uns 400 empregados que haviam parado e o chamado para negociar o aumento. Queriam 20%. Lula negociou, e obteve o acordo. Duas semanas depois, os operários entraram em greve de novo. Queriam mais 20%. O dono da fábrica desesperou-se. Não podia dar. Lula foi à fábrica e convenceu os empregados, em assembléia, a desistir do pedido.

Esse fato singelo antecipa o que Lula foi na Presidência da República: um hábil negociador e conciliador. Ele não é e nunca foi um revolucionário que quer fazer a História dar saltos, mas um visionário que quer empurrá-la aos pouco. É a personificação da síntese entre contrários na visão dialética: é a negação da negação, a continuação da política por meio da política. Não o confundam, porém, com o estereótipo do político mineiro tradicional: o político mineiro é um protótipo do príncipe de Lampeduza, que quer mudar para que as coisas continuem como estão. Lula quer efetivamente mudar, e, no seu jeito de fazer composição, arranca compromissos aos poucos, sem ruptura.

Por que, então, ele é tão odiado por uma fração das elites e das classes médias? É uma parte pequena da sociedade, mas com capacidade de vocalização. E é a clientela preferencial dos grandes jornais. Em geral, são privilegiados, e seus interesses básicos foram preservados no Governo Lula. Assim, seu ódio é de estrito fundo ideológico. É um reflexo tardio da doutrina neoliberal que, derrotada pelos fatos a partir da crise financeira iniciada em 2008, ainda não foi entendida como um fracasso retumbante no Brasil, em razão justamente da mediocridade ou da parcialidade de grande parte de nossa mídia. Diga-se, a bem da verdade, que o Ministério de Lula e de sua sucessora também guardaram e guardam resíduos neoliberais. Entretanto, a direção geral das políticas públicas tem um claro viés popular. Não é o ideal, mas o que talvez permitam as circunstâncias.

Isso se revelou sobretudo no enfrentamento da crise financeira mundial que eclodiu em 2008. Alguém deve ter dito a Lula que se tratava de uma marolinha, que o Brasil passaria ao largo dela. Entretanto, quando os fatos demonstraram o contrário, em especial em face de uma explosão no desemprego em dezembro de 2008, o Governo começou a mexer-se. E a medida a meu ver mais eficaz sequer podia ser interpretada como uma iniciativa conjuntural anticíclica. Foi o aumento real de 7% do salário mínimo, fruto de negociação anterior entre centrais sindicais e patronato sob condução de Lula.

O aumento do mínimo injetou uma soma considerável de recursos novos na economia pelo lado da demanda, o que, somado ao estabilizador automático do Bolsa Família e de outros programas sociais, parou a queda do produto e sustentou o início da retomada, estimulado também por reduções de tributos. Do lado da oferta, a principal iniciativa foi a transferência ao BNDES de R$ 100 bilhões (depois mais R$ 80 bilhões) diretamente do Tesouro, o que assegurou a sustentação e ampliação do investimento produtivo deficitário para fazer face à reativação de demanda que estava sendo estimulada. Se não foi possível evitar a queda do PIB em 2009, já no terceiro trimestre havia sinais claros da recuperação que se configuraria em 2010.

Evidentemente que haverá quem, de forma sincera, ache que Lula fez pouco. Isso suscita uma das recorrentes discussões teóricas em dialética: qual a margem de liberdade que o conflito entre interesses reais deixa para a decisão individual do líder? Sabemos que há margens de liberdade, mas sabemos também que, no processo político em andamento, o líder não sabe de antemão quais são. É justamente aí que entra sua inteligência, ou sua intuição. Depois do fato, e sobretudo depois que se sabe a reação do adversário, ou de suas conseqüências, é fácil dizer que haveria um caminho melhor. No fragor da luta, tudo depende de uma avaliação que nem sempre está no campo racional, mas sim no da intuição.

Entre o primeiro e o segundo mandato, Lula poderia ter mandado o presidente do Banco Central para casa. Era o principal empecilho a um crescimento brasileiro mais vigoroso. Talvez ele o fizesse, não fosse a eclosão do mensalão, que o deixou muito fragilizado politicamente. Poderia também ter recorrido a uma política fiscal efetivamente desenvolvimentista, forçando a redução dos juros e por aí liberando recursos fiscais para investimentos produtivos, como queria José Alencar. Não o fez, talvez temendo a reação da mídia. E isso, como dito, não é de subestimar: duas medidas importantíssimas do segundo Governo, a liberação do controle fiscal sobre os investimentos da Eletrobrás, e a capitalização da Petrobrás com reservas do pré-sal, foram recebidas com uma avalanche impressionante de críticas, não obstante sua importância vital para o desenvolvimento brasileiro.

No balanço geral, Lula fez um governo bom para todo mundo, o que se refletiu com justiça nas pesquisas de opinião. Poderia, aliás, inverter a frase: como mostram as pesquisas de opinião, Lula fez um governo bom para todo mundo. Só os obstinados radicais de oposição podem questionar isso. O que se pode tentar fazer é explicar esse fenômeno racionalmente. Talvez nem seja racional. Lembro-me que, no início da crise do mensalão, e amargando uma queda de popularidade que vinha desde antes, Lula deu a uma repórter de tevê amadora uma entrevista em Paris. Foi uma coisa patética, num ambiente patético, e com uma aparência patética. Entre outras coisas, disse que quem está no quarto andar do palácio (Planalto) não sabe o que acontece no terceiro, e que foi traído por alguns companheiros. Assisti à entrevista e fiquei perplexo. Lula parecia destruído.

A partir dali, nas semanas seguintes, a credibilidade de Lula começou a subir. Subiu até ganhar a reeleição. A única explicação é que o povo se apiedou dele, de seu isolamento, visível naquela entrevista improvisada, e se identificou ainda mais com o homem do povo que chegou ao poder e que estava sendo atacado impiedosamente pelas elites dominantes.

Critiquei muito a política econômica do Governo Lula no primeiro mandato. Não tenho muitos motivos hoje para mudar de opinião, mesmo em relação ao segundo mandato. Entretanto, como disse uma vez Alencar, “fizemos tudo errado mas deu tudo certo”. Examinando o passado e sondando o futuro, Delfim Netto disse a mesma coisa, com outras palavras: “Lula teve vento a favor, Dilma terá vento contra”. Em qualquer hipótese, a marca das políticas sociais de Lula ficará gravada para sempre na História do Brasil. Dificilmente se poderá recuar delas, sobretudo depois que ele fez sua sucessora. Isso não compensa exatamente a política econômica conservadora, mas é muito mais que simples populismo porque tem a força de criação de direitos ancorados na democracia de cidadania ampliada.

Em certo momento do primeiro mandato de Lula, estava tão indignado, como disse, com sua política econômica que encerrei um ensaio com uma paródia mais ou menos assim: “Lula, como Moisés, levou seu povo até a beira da Terra Prometida. Mas diferente de Moisés, que não entrou nela, Lula entrou sozinho”. Esse juízo se revelaria, com o tempo, um dos mais injustos que fiz em mais de 40 anos de jornalismo. Acho hoje que um pedaço do Brasil, justamente o dos mais desassistidos desde a escravatura, recebeu de Lula uma oportunidade para entrar na Terra Prometida. Afinal, o que prometeu em suas campanhas, de modo mais enfático, não foi mudar a política econômica. Foi ver dois pratos de comida, por dia, na mesa de cada brasileiro.

Por isso vejo Lula como o filho da dialética. Em escala, é um modelo reduzido, embora eloqüente, do futuro do mundo. Esse futuro não será uma volta pura e simples ao capitalismo liberal dos Estados Unidos, ainda a potência econômica dominante, nem o avanço em direção ao modelo de capitalismo sem liberdade da China, a potência emergente. Será uma superação de ambos. Algum forma política que combine liberdade empresarial e liberdade individual, e alguma forma econômica que combine estímulo ao empreendedorismo privado e maior regulação estatal.

(*) Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional na UEPB.


Revista Veja, ora veja

26/01/2011

 

Alertados pelo excelente http://www.conversaafiada.com.br, reproduzimos matéria do saite oficial da Controladoria Geral da União.

Julguem por si mesmos, por favor.

Edemar.

 

24/01/2011

Nota sobre matéria da revista Veja

 

1. A matéria publicada na última edição da revista Veja sobre a Controladoria-Geral da União é, obviamente, uma reação à carta-resposta (não divulgada pela revista) que o Ministro-Chefe da CGU, Jorge Hage, enviou-lhe nos últimos dias de 2010, diante da edição de “Retrospectiva” do final do ano passado

2. Isso não obstante e tendo em conta o respeito que a CGU deve aos profissionais que integram seus quadros e, ainda, à opinião publica que sempre acompanhou e reconheceu o seu trabalho sério e republicano, passamos a repor aqui (tendo em vista que a revista nos nega o espaço para resposta) a verdade sobre cada uma das afirmações contidas na matéria:

a) A revista afirma que a CGU produziu, recentemente e de última hora, um Relatório de Auditoria sobre a FUNASA com o intuito de ajudar o Partido dos Trabalhadores a afastar dali o PMDB.

A VERDADE: o repórter Bernardo Melo Franco, do jornal Folha de S. Paulo, pesquisou no site da CGU relatórios pré-existentes, que remontam a 2002, sobre diversos processos de Tomadas de Contas Especiais, envolvendo inúmeros órgãos do governo. O interesse do repórter pelos processos referentes à Funasa só pode ser explicado por ele próprio. Significativamente, no mesmo final de semana em que circulou o exemplar da revista com a matéria que aqui se contesta, também o jornal “O Estado de S. Paulo”, publicou, como manchete principal, a matéria intitulada “Alvos de disputa no segundo escalão somam R$ 1,3 bi em irregularidades”, utilizando a mesma fonte de dados: os relatórios disponíveis desde sempre no site da CGU. A reportagem do “Estadão”, porém, diferentemente da da “Folha”, direciona seu foco para vários órgãos controlados, segundo a matéria, por diferentes partidos, inclusive o PT, o que demonstra: 1) que tais publicações não se deveram a iniciativas da CGU, e sim dos jornais: 2) o caráter republicano das ações da CGU, que se realizam sem levar em conta o partido eventualmente interessado; e 3) a credibilidade que, por isso mesmo, têm os nossos trabalhos.

b) A revista sustenta que a CGU se omitiu de atuar em episódios como o chamado “mensalão”.

A VERDADE: não compete à CGU, um órgão do Executivo, fiscalizar a conduta de membros do Poder Legislativo. Todavia, todos os fatos denunciados à época envolvendo órgãos do Executivo como alvos de desvios (que serviriam para pagamento de propinas a parlamentares) foram objeto de amplas auditorias por parte da CGU. Só para dar um exemplo, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos passou por auditorias amplas e minuciosas, acompanhadas, pari passu, pelo Ministério Publico, que resultaram em dezenas de relatórios, amplamente divulgados à época e disponíveis também, desde então, no site da CGU. Os caminhos para consultar todos esses relatórios no site foram mostrados ao repórter da Veja, que recebeu toda a assistência e atenção, durante cerca de duas horas, inclusive sendo recebido pelo próprio ministro, sendo-lhe entregue, ainda, uma relação completa das demissões, inclusive de diretores da ECT, ocorridas em conseqüência das irregularidades constatadas pela auditoria da CGU.

c) A revista afirma que a CGU se apressou em inocentar a ex-ministra Erenice Guerra, de irregularidades denunciadas na mídia, durante a última campanha eleitoral.

A VERDADE: as denúncias apuradas e descartadas pela CGU nesse caso foram aquelas desprovidas de quaisquer fundamentos. No caso do DNPM, por exemplo, a mídia indicou possível favorecimento à empresa do esposo da ex-ministra, cujas multas aplicadas pelo órgão teriam sido canceladas indevidamente. Logo se verificou que a própria área jurídica do DNPM havia reconhecido erro na aplicação das multas e recomendado à direção seu cancelamento para o necessário recálculo, o que foi feito. As multas foram, então, novamente impostas e vinham sendo pagas regularmente pela empresa em questão. Não havia, portanto, fundamento para que o caso fosse levado adiante. O mesmo se deu (ausência de fundamento) com as denúncias sobre a EPE e o BNDES. Outros casos, mais sérios e mais complexos, denunciados pela mídia na mesma ocasião, continuam sendo investigados, como o que envolve a empresa MTA e a ECT, cujos resultados serão divulgados em breves dias.

d) A Veja diz, quanto aos cartões de pagamento, que a ação da CGU se limitou a elaborar uma cartilha com orientações e passou a investigar gastos de “integrantes da administração tucana”.

A VERDADE: além de elaborar a cartilha, dirigida a todos os gestores que lidam com suprimento de fundos, todas as denúncias (inclusive as que envolveram ministros) sobre irregularidades com esse tipo de gasto foram apuradas e tiveram seus resultados amplamente divulgados na mídia. Três ministros devolveram gastos considerados impróprios para serem feitos com o cartão e uma ministra teve que deixar o governo, como amplamente divulgado à época. E tudo isso está também disponível a qualquer cidadão, no site da CGU. O que a revista não registra é que foi do Governo Lula, por proposta da CGU, a iniciativa de dar transparência a esse tipo de gasto, divulgando tudo na internet para fiscalização da sociedade, exatamente para corrigir possíveis desvios e distorções. E quem delimitou o escopo dos trabalhos, inclusive retroagindo ao segundo mandato do Governo FHC, não foi a CGU, mas a própria “CPMI dos Cartões Corporativos”, que, por meio da aprovação do Requerimento nº 131, de 12 de março de 2008, estabeleceu que o seu objetivo seria analisar a regularidade dos processos de prestações de contas de suprimento de fundos dos últimos 10 anos.

e) A revista afirma que o caso “Sanguessugas” surgiu de denúncias na imprensa.

A VERDADE: a Polícia Federal, o Ministério Público e toda a imprensa, sabem que a “Operação Sanguessuga”, assim como tantos outros casos que desaguaram em operações especiais para desmantelar esquemas criminosos, foi iniciada a partir de fiscalizações da CGU nos municípios. Aliás, a mesma matéria do jornal “O Estado de S. Paulo” citada no item “a” desta nota enumera muitos desses casos, em retranca de apoio à matéria principal, intitulada “Ações da CGU norteiam as megaoperações da PF”.

f) A revista atribui ao Ministro-Chefe da CGU, afirmação de que este órgão dá “prioridade ao combate da corrupção no varejo”.
A VERDADE: O que foi dito ao repórter foi que nos pequenos municípios o cidadão comum sente mais diretamente os desvios de merenda escolar e medicamentos do que os efeitos dos grandes escândalos ocorridos nos grandes centros (o que é aliás fácil de entender). Não se disse que a CGU prioriza isso ou aquilo, pois ela combate a corrupção com a mesma prioridade, independentemente do tamanho de cada caso.

g) A reportagem da Veja tece considerações absurdas sobre relatório referente a auditoria em projeto de cooperação técnica internacional celebrado entre o Ministério da Integração Nacional e a FAO, no exercício de 2002.

A VERDADE: a eventual ocorrência de divergências entre as equipes de auditoria e as chefias de cada Coordenação, embora não sejam freqüentes, são naturais no processo de homologação dos relatórios. O processo usual é que por meio do debate se tente alcançar o consenso. Quando o consenso não é possível, o importante é que o processo se dê de forma transparente. Ora, a própria reportagem se encarrega de esclarecer que a direção da Secretaria Federal de Controle Interno (unidade da CGU) expressou seu entendimento divergente por escrito e fundamentadamente, tendo ficado também registrado nos autos a opinião dos demais servidores. Neste caso, como em tudo o mais, as coisas se fazem na CGU com plena observância do princípio da transparência.

h) A revista afirma ter havido atrito entre a CGU e a Polícia Federal durante a Operação Navalha, e que a CGU estaria “contribuindo para atrasar o desfecho do trabalho”.

A VERDADE: Isso nunca ocorreu. Prova disso, é que a Subprocuradora-Geral da República encarregada do caso afirmou, por mais de uma vez, que sem os relatórios de CGU não teria sido possível oferecer denúncia contra os acusados. E outra prova é que as punições foram rapidamente aplicadas no caso pela CGU, inclusive a declaração de inidoneidade da principal construtora envolvida.

Como se vê, a realidade é muito diferente do que se lê na revista.
Estes esclarecimentos que fazemos agora não serão encaminhados à Revista, pela simples razão de que ela se recusa a publicar nossas respostas. Contudo, a CGU se sentiu na obrigação de prestá-los, como já dito no início, em respeito aos seus servidores e à opinião pública em geral.

Assessoria de Comunicação Social

http://www.cgu.gov.br/Imprensa/Noticias/2011/noticia00411.asp


Os cem primeiros dias do governo Dilma – 4ª parte

26/01/2011

De 21 a 25/01/2011


sex – 21/01 – O aumento de 0,5 ponto percentual na taxa Selic (10,75% para 11,25% ao ano), promovido pelo BC (Comitê de Política Monetária-COPOM) em sua primeira reunião sob o comando de Alexandre Tombini realizada ontem, provocou uma grita geral entre as centrais sindicais e expressões de descontentamento entre economistas e jornalistas. Altamiro Borges em seu blog chama atenção para o que ficou conhecido como o “tripé neoliberal da política macroeconômica, com juros elevados, arrocho fiscal e cambio flutuante” que o Brasil insiste em manter favorecendo a oligarquia financeira que, por sua vez, “ganha com os juros, com o superávit e com a libertinagem cambial” em detrimento da atividade industrial (competindo com o produto importado, principalmente o chinês) e com nossa pauta de exportação (produtos manufaturados, semimanufaturados e commodities). O economista José Carlos Braga prega o imediato fim do tripé do câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. “É um triângulo de ferro mortal. A política cambial é homicida do nosso desenvolvimento… [O governo] tem que chamar a banca privada para negociar o seu engajamento num projeto nacional de desenvolvimento. Precisa dar um basta nessa moleza de ficar faturando com a dívida pública”.

Em seu blog, Eduardo Guimarães aponta como sendo o primeiro erro da Dilma e do governo federal como um todo deixar que a imprensa jogasse em si a culpa pelas desgraças que se abatem sobre vários municípios do Rio, por absoluta responsabilidade deles e dos governos estaduais, pois são as instâncias que podem atuar diretamente nas cerca de cinco mil cidades brasileiras. De que adianta o governo federal prometer um sistema de informações metereológicas para antecipar às populações anualmente atingidas pelas tragédias de que devem fugir se o que precisam não é uma estratégia para antecipar a ocorrência das calamidades e, sim, para impedir que ocorram?

O fato é que Estados e municípios não apresentaram ao governo federal projetos de maior envergadura contra os desastres anuais provocados pelas chuvas de verão. Aliás, é um mistério a razão pela qual essas administrações parecem ter se acostumado a esperar que as desgraças ocorram. Por razões políticas ou por prioridades diferentes das autoridades estaduais e municipais – sejam do partido que forem -, elas não consideram possível dar soluções imediatas às desgraças que as chuvas de verão causam todos os anos. Assim, continuam no mesmo passo de tartaruga de piscinões ou construção de casas populares fora de regiões de risco.

sab – 22/01 – Com informações da agência Reuters, de Zurique, o Correio do Brasil em seu número 4039, informou que os habitantes de economias emergentes estão muito mais confiantes sobre suas perspectivas financeiras do que os habitantes de economias avançadas, com 78% dos brasileiros otimistas em comparação a apenas 4% da população francesa. Dos 24 países pesquisados mensalmente pelo Ipsos Public Affairs, com cerca de 19 mil pessoas, os cidadãos do Brasil foram claramente os mais confiantes sobre a força da economia nos próximos seis meses. A Índia ficou em segundo lugar, com 61% de otimismo, seguida pela Arábia Saudita, com 47%, de acordo com a sondagem “Pulso Econômico do Mundo”, conduzida em dezembro. Depois de França, os países menos otimistas foram Japão, Hungria e Grã-Bretanha. Apesar da recuperação econômica, o gasto dos consumidores alemães continua baixo. O panorama da economia global será o principal tema na agenda do Fórum Econômico Mundial, em Davos, que acontece entre 26 e 30 de janeiro. No agrupamento por regiões, a mais otimista foi a América Latina, com 52%. As nações do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) registraram 50% de otimismo, enquanto Oriente Médio e África viram uma taxa de 32%. A Europa foi a região mais pessimista, com 16%.
O repórter Sérgio Pardellas, da Isto É online anotou: “A três dias da posse, sem fazer alarde, a presidente Dilma Rousseff sacou o telefone celular da bolsa e ligou para o presidente do PCdoB, Renato Rabelo. Na pauta da conversa, a candidatura do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) à presidência da Câmara. Começava ali a operação comandada com mãos de ferro por Dilma destinada a mudar os rumos da eleição da Câmara, que prenunciava uma disputa fratricida de consequências imprevisíveis entre integrantes de partidos da base aliada ao governo. Desde então, os candidatos avulsos saíram, um a um, do páreo. Nos últimos dias, os parlamentares tiveram um aperitivo do que poderá vir a ser o relacionamento com a presidenta. Já os ministros aos poucos vão tentando se acostumar com o novo modelo de gestão. Logo nas primeiras reuniões, eles receberam determinações que podem soar desagradáveis para quem não está acostumado com o trabalho duro. Uma delas: agora, as sextas-feiras são consideradas dia de expediente normal. Não por acaso, a primeira reunião ministerial ocorreu na sexta-feira 14. Outra mordomia usufruída a torto e a direito pelos antigos ministros está expressamente proibida por Dilma. A partir deste mês, nenhum deles poderá usar jatinhos da FAB para desfrutar do fim de semana em seu Estado de origem.”

dom – 23/01 – Apostar na África pautou nossa política externa durante o governo Lula contrariando os “especialistas” a serviço da imprensa conservadora. Não sabemos o que dirão a partir de agora quando a revista britânica The Economist anunciou hoje que seis das dez economias que mais crescerão nos próximos cinco anos ficam na África Subsaariana. Angola aparece em primeiro lugar, seguida da China. Os outros africanos da projeção são a Nigéria, Etiópia, o Chade, Moçambique e Ruanda. Para todos eles, a estimativa é de crescimento anual médio de cerca de 8%. De acordo com a revista, as altas demandas da China por matéria-prima, junto com o alto preço das commodities tornaram o país asiático o maior parceiro comercial da África, superando a União Europeia e os Estados Unidos. Com o aumento de países em rápido crescimento, a África deve superar a Ásia em cinco anos. O Standard Chartered prevê crescimento anual de 7% para o bloco africano nos próximos 20 anos, mesmo com a maior economia – a África do Sul – crescendo menos que a média. De acordo com a revista, a Nigéria, maior exportadora de petróleo da África, pode ultrapassar os sul-africanos nos próximos 10 ou 15 anos.

Neste domingo o Correio do Brasil anunciou que já passam de 800 os mortos na Região Serrana do Rio e que as equipes de resgate ainda procuram cerca de 400 desaparecidos nas cidades atingidas pela tragédia, que deixou ao menos 15 mil desalojados e desabrigados. Com a profunda mudança na geografia dos municípios provocada pela avalanche de terra, autoridades locais já admitem dificuldades no resgate de todos os soterrados, o que nos leva a deduzir que o número de mortos deve alcançar algo próximo a 1300. Hoje também esse mesmo noticiário informou que em Santa Catarina cerca de 700 mil pessoas foram atingidas por fortes enxurradas que já provocaram a morte de 5 pessoas.

seg – 24/01 –  Segundo o blog do Planalto “o futebol entrou na agenda da presidenta Dilma Rousseff, nesta segunda-feira, no Palácio do Planalto. A presidenta abriu espaço para um bate-papo com Marta, eleita pela quinta vez consecutiva a melhor jogadora de futebol do mundo. Após a audiência, a jogadora contou que a conversa serviu para que as duas pudessem trocar algumas informações sobre o futebol feminino no Brasil. Na conversa, Marta convidou a presidenta Dilma para ir a Alemanha, entre os dias 26 de junho e 17 de julho, assistir a participação da seleção feminina de futebol na Copa do Mundo de Futebol Feminino. A jogadora explicou que, mesmo não tendo confirmado “100%” a presença na competição, há expectativa de que a presidenta Dilma esteja presente num dos jogos. Segundo a atleta, tal fato seria importante para o grupo. Marta disse também que durante a audiência a presidenta perguntou sobre a trajetória da jogadora, de origem humilde do município de Dois Riachos, interior de Alagoas, até ser consagrada por cinco vezes a melhor jogadora de futebol de mundo.

ter – 25/01 –  Nesta terça o ex-vice-presidente da República, José Alencar recebeu uma homenagem no aniversário de 457 anos de São Paulo, na Câmara Municipal da cidade onde chegou em uma cadeira de rodas. A medalha concedida a Alencar foi entregue pela presidenta Dilma Roussef, que compareceu somente a este evento na capital paulista, antes de voltar a Brasília. O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, o vice-presidente da República, Michel Temer, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o prefeito Gilberto Kassab e o ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, também compareceram à solenidade. Em seu discurso a presidenta Dilma além de “homenagear uma pessoa de tão profunda dimensão humana que todo o nosso povo aprendeu a respeitar, admirar e amar sem limites”, referindo-se ao ex-vice-presidente, enfatizou a necessidade de trabalhar junto com os governantes paulistas ainda que ambos pertençam a partidos de oposição. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também recebeu a Medalha 25 de Janeiro, mas não pode ficar para a cerimônia devido a um compromisso internacional.

Segundo Altamiro Borges em seu blog, “há algo de muito podre no ninho tucano. Até a mídia, que sempre protegeu a espécie, resolveu abrir o bico. Nos últimos dias, um festival de denúncias enlameia dois dos principais chefões do PSDB – o governador Geraldo Alckmin e o presidenciável derrotado José Serra. Por enquanto, o mineiro Aécio Neves trabalha em silêncio na sua tentativa de assumir o comando do partido. Primeiro foram as denúncias contra Paulo César Ribeiro, o Paulão, irmão da primeira-dama do Estado, Lu Alckmin. Ele chefiaria uma quadrilha que garfou licitações em prefeituras de São Paulo e de mais quatro estados para fornecer merenda escolar. Sob investigação do Ministério Público do Estado, ele é acusado de pagar propina e de financiamento ilegal de campanhas eleitorais.” Confirmando essa fala José Dirceu em seu blog assegura que o senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG) está com tudo pronto, estratégia traçada, homens e mulheres-chave a postos (a maioria na máquina de governo de Minas), em marcha batida para tomar, por enquanto, o controle nacional do PSDB. Depois, com o comando do partido em mãos, ser o candidato tucano a presidente da República em 2014 desalojando o rival, candidatíssimo, José Serra. Com o que já montou, Aécio Neves conta com uma verdadeira tropa de choque a partir de Minas. Os pontas de lança são o governador que elegeu, Antônio Anastasia (PSDB), que lhe deu a máquina do Estado, e a irmã, Andréa Neves, que foi mantida no governo mineiro, no comando da área social e que ela já tocou nos últimos 8 anos.

Antonio Fernando


Os cem primeiros dias do governo Dilma, 3ª parte

25/01/2011

Nosso colaborador Antonio Fernando Araujo continua alerta e atuante. Seu material deve ser salvo para permanente memória dos fatos, sem as distorções costumeiras da velha mídia hegemônica.

Edemar.

De 16 a 20/01/2011

dom – 16/01 – Não dá pra cochilar com a Rede Globo. Entre imagens da tragédia que se abateu sobre a região serrana do Rio a TV Globo exibiu no Jornal Nacional de sexta-feira,14/01, o início da reunião ministerial do governo Dilma ocorrida na véspera, dia 13, ela própria muito sorridente posando para a imprensa enquanto alguns Ministros falavam ao telefone e outros mascavam chicletes, tudo como se fosse o momento em que tratavam da tragédia no Rio de Janeiro (http://www.youtube.com/watch?v=PmQMGDMTqtU). Intercalando falas e imagens de eventos tão distintos, qual a impressão que tais manipuladores querem passar para o telespectador? Não é difícil perceber que entre a dor dos que perderam tudo e os sorrisos ministeriais há um abismo supostamente recheado de falsas promessas e descaso com a população. Que a ida de Dilma à Nova Friburgo não passou de um jogo de cena revelado agora por esses sorrisos de alienação no instante de tanto sofrimento. Como escreveu o Edmar Motta, em uma de suas crônicas, esses caras que se travestem de jornalistas “para infectar os incautos” cometem “um ato de escrotidão” (http://cronicasdomotta.blogspot.com/2011/01/o-fundo-do-poco.html). Todos sabem, prossegue, que a Globo e vários outros órgãos de comunicação do país ainda não digeriram a derrota do seu candidato à Presidência. É uma guerra que está decretada. A coisa foi de tal forma escandalosa que repercutiu até no diário espanhol El País, provocando uma reação indignada de Eduardo Guimarães em seu Blog da Cidadania, endereçada, através de um telefonema e de mensagens, diretamente à redação do jornal. Bem, do fato tiremos ao menos uma lição: não podemos nem devemos subestimar Ali Kamel, o todo-poderoso do noticiário global, ele é do ramo, escroto mesmo e muito bom no que faz.

seg – 17/01 – A manipulação da informação não é privilégio do JN, corre à solta no jornal, na rádio CBN, na TV Globo e na Globo News. O Globo está no terceiro turno das eleições presidenciais ou, na melhor das hipóteses, já está na campanha presidencial de 2014. Não importam os fatos. Qualquer que seja, há sempre uma forma de manipular a informação. Manchetes negativas para fatos positivos é uma delas, como relata Augusto da Fonseca, em seu blog Festival de Besteiras da Imprensa. Ontem o jornal estampou na capa: “No governo Lula, mais 82 mil servidores”. Como a maioria das pessoas não passa das manchetes, ou seja, não lêem a matéria completa, fica a impressão de que Lula inchou “indevidamente” a máquina pública que era tão “enxutinha” ao final do governo FHC. Entretanto, as pessoas que se dispuserem a ler a matéria completa terão uma surpresa, uma notícia altamente positiva para o país! “Maioria das contratações ocorreu na área de educação, com mais 49 mil servidores“. Não há o que criticar, portanto. Aumentou muito o número de professores e de profissionais da educação para as Escolas Técnica e Universidades.

ter – 18/01 – Ontem, segundo o blog Luis Nassif Online, o jornal O Globo na sua versão online publicou matéria com chamada em letras garrafais fazendo suposta denúncia de que a Cruz Vermelha de Teresópolis estaria sendo  impedida de trabalhar no socorro às vítimas pela prefeitura local. O Prefeito de Teresópolis, Jorge Mário é do PT. Ontem mesmo, à tarde, Valmir Moreira Serra, presidente nacional da Cruz Vermelha, em entrevista à rádio CBN, disse desconhecer qualquer problema entre a Cruz Vermelha e a Prefeitura de Teresópolis. Segundo o jornal O Globo, o atrito teria ocorrido anteontem, em Teresópolis. “As doações está sendo recebidas, ou seja, muitas das vezes, um atrito aqui, entre uma pessoa da prefeitura e a vontade de ajudar e um voluntário, acaba gerando uma notícia desse tamanho. Mas, até o momento, não nos chegou absolutamente nada.”, declarou Moreira Serra.

qua – 19/01 – Uma das principais metas do governo Dilma é levar internet de alta velocidade por um preço mais acessível a todos os domicílios brasileiros, afirmou o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, em participação na Campus Party 2011, considerada o maior evento de inovação, ciência, criatividade e entretenimento digital de todo o mundo, segundo o blog do Planalto. “No Brasil tem uma demanda crescente por serviços de internet em alta velocidade. Nós estamos trabalhando para que antes mesmo de 2014 o Plano Nacional de Banda Larga [PNBL] já tenha resultados visíveis”, afirmou o ministro.
No palco principal, ele falou sobre os desafios e acrescentou que uma das medidas que pode ser adotada pelo governo para ajudar na massificação da banda larga é a redução de alguns impostos que incidem sobre o serviço. Segundo ele, o governo federal e alguns estaduais já estudam essa possibilidade. Afirmou ainda que nos próximos meses o governo fará um grande arranjo institucional com todos os agentes envolvidos no PNBL. “Até o final de abril fecharemos os acordos para baratear o preço da internet proposto no plano. Uma das intenções é reduzir impostos”, disse.
A Campus Party, que é realizada pela quarta vez no Brasil, reúne na capital paulista 6,5 mil participantes vindos de países como Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos, México, Portugal e Reino Unido, além do Brasil.
Por outro lado, “é importante falar que a internet não pode e nunca poderá ser uma ferramenta restrita, pois isso causaria um atraso enorme no desenvolvimento do país” assegurou Marcelo Saldanha em seu blog. “Quero citar o exemplo de uma rede onde a comunidade possa fazer uma vaquinha e montar seu provedor comunitário local e rachar a conta do link, que sem dúvida ficará mais barato que 35,00 por mês, e sem dizer que será uma rede do povo e não de uma empresa ou prefeitura.” E prossegue: “em nossos estudos vimos que a convergência das mídias para a rede é iminente e já sabemos o que uma mídia pode fazer e no caso da internet a coisa é simplesmente gigantesca, pois, é o único meio de comunicação de massas com interatividade.” E conclui: “Se deixarmos o PNBL fazer o papel dele como está hoje, qual a garantia que teremos depois que as redes de última milha nas cidades já estiverem formadas por empresas e prefeituras? Como fazer com que o povo, em cada comunidade, possa usar esta rede para fins maiores que o simples acesso a internet? Melhor, como garantir que as empresas e prefeituras abram estas redes, de forma gratuita, para que o povo possa usá-la para fins de controle social, debate sobre políticas públicas de relevância popular, reivindicações locais, criação de rádios e tvs comunitários on line, enfim usar a banda sem custos, para fins sociais e livre de restrições ou censuras?”

qui – 20/01 – Abro espaço para partes do artigo de Laerte Braga, hoje, no jornal O Rebate(www.jornalorebate.com.br): “Não existe estado em qualquer lugar do mundo que possa sobreviver, ao longo dos anos, a governadores como Chagas Freitas (dois mandatos), Moreira Franco, Marcelo Alencar, Anthony e Rosinha Garotinho e agora Sérgio Cabral.”

“A primeira lição que a tragédia nos traz é a da imperiosa necessidade de canais de participação popular, com caráter deliberativo, de fiscalização, para impedir que governos doem dinheiro público a fundações como a Roberto Marinho, disfarce, fachada de uma das maiores máfias do País. Ou legalizem a casa, em área proibida, de um apresentador de tevê – Luciano Huck – porque cliente do escritório de advocacia da mulher do governador.”

“Não se pode permitir que o projeto de “reconstrução” das cidades destruídas pelas chuvas fique restrito a prefeitos e vereadores (câmaras municipais são uma aberração, conselhos de cidadãos substituem-nas e dão representatividade real aos habitantes da cidade, de cada cidade). Do contrário vira uma festa de empreiteiras e todo o entorno dessas organizações criminosas, sob a batuta de prefeitos sem rumo e/ou corruptos.”

“Ou o povo das cidades atingidas, de todas as cidades brasileiras toma o destino de cada uma de suas cidades, nossas cidades, em nossas mãos, ou tudo vai continuar como farsa, se repetindo indefinidamente de tempos em tempos. E é assim que vamos construir uma política ambiental, que envolva saneamento, obras básicas de contenção de encostas, preservação de áreas que implicam riscos, nas cidades, nos estados e no Brasil. Do contrário, em breve, estaremos afogados nos “negócios” dos que ganham com tragédias como essa.”

Antonio Fernando


Taxista opinativo é levado à DP por jornalista

19/01/2011

Reproduzo página de http://taxiemmovimento.blogspot.com/2011/01/jornalista-do-jornal-o-globo-me.html. Exemplo descabido de ‘sabe com quem está falando?’

Edemar.

Acabo de sair da 9a. DP…

Uma jornalista do Jornal O Globo entrou em meu táxi e ficou enfurecida ao eu comentar que O Globo estava sendo tendencioso (exatamente esta palavra que utilizei) em relação ao Caso Joanna…

A moça ficou descontrolada…

Mandou eu parar o carro…

Ligou para a redação (falou com alguém chamado Paulo Roberto) dando minha placa e meu nome completo que ela retirou acintosamente do cartão que levo no parabrisa…

Retruquei que daria o troco a tornando famosona na Rede através do meu blog…

Ela disse que eu estava a ameaçando e me conduziria a 9a. DP…

O troço é tão surreal que fiquei com medo dela inventar algo por lá…

Quando entrei na 9a. DP ela desabou a chorar e disse que eu estava a ameaçando…

Ficou todo mundo me olhando achando que eu tinha espancado a mulher…

Eu olhei prá ela e pedi que ela falasse somente a verdade…

Daí ela não inventou mesmo (devo reconhecer que ela não mentiu completamente)…

A moça da recepção pediu seu nome e ela apontou prá mim alegando não falaria seu nome na minha frente para eu não reproduzí-la em meu blog…

A moça do balcão perguntou então como poderia abrir uma solicitação de alguém que não quer dar seu próprio nome…

Ela se identificou como jornalista do Jornal O Globo e que queria falar com o delegado titular…

Imagina, você?!

Alguém entra numa delegacia simplesmente porque alguém não concorda com linha editorial do Globo…

Como os créditos no meu celular estavam acabando fui até uma lotérica para recarregar e liguei para outros jornalistas porque fiquei com medo de ser plantada uma sacanagem já que ela comunicou a redação do Globo…

Ficou parecendo enredo do Scorcese…

Mas, o que mais deixou a senhora jornalista desestabilizada foi quando me alegou isenção completa dos profissionais do Globo que jamais aceitariam qualquer pressão e sugeri que ela na próxima reunião de pauta recomendasse uma matéria longa sobre a grande trajetória de Leonel de Moura Brizola…

Juro que foi somente isto que fez esta moça entrar na 9a. DP para se queixar…

Agora, esta senhora não é a senhorinha do cafezinho ou a moça da limpeza, ela é jornalista mesmo…

Descobri que era jornalista depois que ela desligou o celular onde recomendava retificação do texto sobre os dois irmãos que foram pegos roubando donativos já que ela acabara de se falar com o reitor da UERJ, que era o local que o motorista do caminhão trabalha…

Agora…

Como é que um jornalista intimida um taxista e leva o sujeito prá delegacia já que só de falar em polícia qualquer um treme sabendo que vem pepino por aí?

E se eu fosse um taxista desarticulado e sem noção dos meus direitos e deveres?

Já imaginaram esta moça na época da ditadura caso contrariada por alguém e com esta carteira bacana de quarto poder?

Já estou de saco cheio desta coisa de carteirada abrir portas e reverterem verdades absolutas…

Seria facílimo identificar esta moça e estampar o nome dela por aqui já que ela me colocou numa situação totalmente desnecessária somente para tentar me atemorizar…

Quando retornei da rua o delegado me recebeu no gabinete dele e foi hiper gentil pedindo que eu esquecesse o incidente já que moça estava arrependida depois da dimensão que a coisa tomou…

O delegado permitiu que eu reproduzisse seu nome e eu acabo de esquecer…

Acho que é Mário, mas o restante deu branco…

Até brinquei com o delegado:

– Me conta aqui baixinho o nome da dona prá publicar no meu blog, delegado, por favor…

Dr. Mário riu e disse que não sabia…

Comentei também que me recusei a receber o valor da corrida e joguei os R$ 20,00 de volta para cima do banco traseiro e quando sai do carro percebi que ela havia deixado no assoalho de trás…

Tentei deixar na delegacia as vinte merrecas, mas o pessoal se recusou a ficar com a grana…

Portanto, se a moça quiser o dinheiro de volta basta ligar que deixo na portaria da Irineu Marinho, 30…

Como vocês sabem que não minto nunca, esta é a história do que aconteceu…

Um ou outro detalhe passou batido, mas posso esclarecer se for o caso…

Eu poderia tranquilamente identificar esta senhora em meia hora, não vou fazê-lo…

Agora, é importante que todos saibam que a Internet deu uma dimensão a todos nós que iguala o poder de fogo tanto de quem é anônimo quanto de alguém que acredita que o fato de trabalhar num grande Jornal pode sair por aí levando quem quer que seja para se explicar na delegacia qualquer discussão banal…

Quando ao Caso Joanna, realmente tenho esta impressão que o Globo tem procurado incensar o André Marins e a Vanessa Maia Furtado…

Um episódio marcante do Caso Joanna foi quando o Mais Você da Ana Maria Braga deu ampla divulgação e a Ana Maria foi surpreendida com chamada de capa que dizia que Joanna Marcenal havia morrido simplesmente de meningite…

Aquilo foi uma rasteira que nem o Dr. Frank Perlini, diretor do IML, entendeu…

Apesar de todos indícios periciais apontarem que a causa da meningite foi maus tratos providenciados pelo casal Marins o Globo fala sempre em meningite e ponto…

Os Marins foram infinitamente mais cruéis que os Nardoni e não sofrem a mesma pressão midiática que levou os Nardoni a serem presos desde o primeiro instante…

Não sei, talvez este episódio desagradável nos legue a oportunidade de O Globo repensar e nos ajudar efetivamente a fazer Justiça por Joanna…

Quem sabe?

Jorge Schweitzer




PS: Acabo de receber recado que o Jornal O Globo está procurando informações minhas por aí… Olhem só: medi muito minhas palavras acima para não desdenhar da moça que pareceu ter sérios problemas de distúrbios que foi presenciado por todos na delegacia… Se deturparem a verdade dos acontecimentos existe inclusive o delegado que sabe o que ocorreu… Doideira tem hora… Vocês tentarem criar uma história inexistente somente para retaliação pode dar zebra… Como é que é? Não acredito que instituição O Globo irá potencializar uma história idiota destas que até mesmo a jornalista com visíveis problemas de equilíbrio tentou encerrar por ali… Mas, sem problemas… O jornalista que está tentando escarafunchar para ver se pode montar o quebra cabeça para me pegar deve estar avaliando que não está trabalhando num boteco da esquina em que ele é dono do balcão… Deve estar tendo o respaldo de alguém acima dele… Esta história parece que vai render… Aguardem cenas dos próximos capítulos…