Os cem primeiros dias do governo Dilma – 10ª parte

De 20 a 24/02/2011

dom – 20/02 – Completaram-se, ontem, 50 dias do governo Dilma, a metade portanto do período que alguns acreditam estabelecerão os contornos do desempenho do governante daí em diante. São os “100 dias de trégua” para que a turma nova que chega arrume as gavetas e comece a trabalhar. Se esse modismo vem de Wall Street ou da França de Napoleão pouco importa, pois de qualquer forma ainda é muito pouco para qualquer leitura definitiva sobre as escolhas de Dilma. Não me ocorre dar conselhos aos anjos, tampouco me deixar levar por truques da imaginação, apenas considerar a importância do assunto. Assim trago para cá, de um lado algumas das preocupações de analistas honestos e argutos quando se trata de comentar sobre o andar da carruagem e de outro, comentários considerados elogiosos, mas que podem conter armaldilhas mortais para o futuro político da presidenta. Como pano de fundo, o que disse Jane, a mãe da Dilma, que a maior qualidade da filha é a fidelidade, qualidade reiterada pelo seu ex-marido e pelas companheiras de prisão. Contrariando o modelo das postagens anteriores, vou inserir, a cada dia deste período, um ou mais desses “palpites”. Assim, começo com o jornalista Mauro Santayana que, à luz disso tudo, escreveu: “Seu perfil é de alguém que se dedica exaustivamente ao trabalho. É uma grande vantagem para quem chefia um governo, mas não basta para quem chefia um Estado democrático. Ela atendeu os grupos empresariais, ao convocar o industrial Jorge Gerdau para assessorar o governo. Espera-se que essa presença não venha a significar retorno do pensamento neoliberal na condução ideológica do Estado, como nos tempos de Fernando Henrique.”

seg – 21/02 – Já o, também jornalista, Rodrigo Viana, driblando aquilo que alguns querem fazer parecer o óbvio e evitando apontar para um arsenal de falsas maravilhas destaca: “Os primeiros sinais do governo Dilma indicam reversão da política ‘expansionista’ adotada no segundo governo Lula para enfrentar a crise. O ministro Mantega, da Fazenda, teve papel fundamental em 2009 e 2010, ao adotar um programa que – em tudo – contrariava a velha fórmula utilizada pelos tucanos em crise anteriores: quando o mundo entrou em recessão, com os EUA lançados à beira do precipício, o Estado brasileiro baixou impostos, gastou mais e botou os bancos estatais para emprestar (forçando, assim, o setor privado a também emprestar). O Brasil saiu bem da crise – maior, gerando emprego, e ainda distribuindo renda. Lula, quando falou em ‘marolinha’ naquela época, foi tratado como um néscio. E Mantega, ao abrir as torneiras do Estado, como um estúpido economista que se atrevia a rasgar a bíblia (neo) liberal. Lula pediu que o povo seguisse comprando. Os tucanos (e os colunistas e economistas a serviço do tucanato) diziam que era hora de ‘apertar os cintos’. Lula e Mantega não apertaram os cintos. Ao contrário: soltaram as amarras da economia, e evitaram o desastre.”

ter – 22/02 – Entretanto, o economista e ex-ministro da Fazenda Delfim Netto (embora tenha servido à ditadura, nunca desistiu de pensar o Brasil futuro), em um texto na revista “Carta Capital”, foi fundo: “Não é preciso ser economista para entender uma coisa simples: cinco anos atrás, quando não se falava de desindustrialização, as condições importantes para o trabalho das indústrias eram as mesmas que são hoje. Qual é a única grande diferença entre o que tínhamos naqueles anos e o que temos hoje? É um câmbio extremamente valorizado por uma política monetária que mantém a taxa de juros brasileira no maior nível do mundo. O Brasil continua sendo aquele pernil com farofa à disposição do sistema financeiro internacional, mesmo fora da época das festas. Todas aquelas discussões não levaram a nada: só agora os mais sabichões começam a entender que a questão-chave que o Brasil tem de resolver não é um problema de câmbio; o que resolve é construir uma política monetária que, num prazo suportável, leve a taxa de juros interna ao nível da taxa de juros externa.”

Tal preocupação é também externada pelo economista Marcio Pochmann, presidente do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), quando, no final de 2010, entrevistado na “Record News” alertou que o Brasil corre o risco de se perder na fórmula fácil da “FA-MA”. A “FA-MA”, segundo Pochmann, é a mistura de fazenda com indústrias maquiladoras (como as existentes no México). Ou seja: com câmbio desfavorável (por causa dos juros altíssimos que inundam o país com dólares), o “Brasil só conseguiria manter competitividade na agricultura, contentando-se com o papel de grande fazenda do mundo, a fornecer grãos e carne para chineses e europeus. Do lado da indústria, aconteceria algo parecido ao que ocorreu no México, depois de assinar o Nafta, tratado de livre comércio com EUA e Canadá. A indústria mexicana foi dizimada. Quase tudo vem pronto de fora, e o México mantem apenas ‘maquiladoras’ para fazer a ‘montagem’ final dos produtos (aproveita-se, pra isso, a mão-de-obra barata do país).”

qua – 23/02 -Mas entre os comentaristas de blogues, embora ainda pareçam essa almas que sussuram na escuridão, há quem deixe entrever, como a articulada Sônia Montenegro, que o tal andar da carruagem está adequado: “Como aconteceu com o Lula, o 1º ano foi de sacrifício. No caso dele, em circunstâncias muito mais graves por conta da herança maldita do FHC, mas no caso dela, também para dar uma nova organização na economia, por conta das providências corretamente tomadas pelo governo Lula para transformar a monumental crise mundial em marolinha. Bom lembrar que a Dilma estava no governo e concordou com todas as ações e ainda manteve o Mantega no controle da economia.”

Contudo, quem mais parece estar desorientada com o governo Dilma não é ninguém mais do que a nossa “grande imprensa”. Seus colunistas e comentaristas vivem momentos difíceis, como se encurralados numa neblina de pesadelo da qual tentam se livrar com saídas cômicas (a retirada do Cristo e da Bíblia do gabinete, o emprego do termo presidente ou presidenta, a presença correta da foto colorida na galeria do Planalto, etc.), bem ao sabor das parcelas das classes média e alta que ainda a lê. A raiz de seus problemas é que não sabem como lidar com Dilma. Quem nos assegura isso é o sociólogo Marcos Coimbra, presidente do Instituto Vox Populi que, seguindo adiante, escreveu: “Achavam que Dilma seria uma cópia carbono de Lula. Piorada, naturalmente, pois sem sua facilidade de comunicação e carisma. Estava pronta a interpretação do novo governo: na melhor das hipóteses, uma repetição sem brilho das coisas que conhecíamos. Para quem, como nossos bravos homens e mulheres da ‘grande imprensa’, achou que o governo Lula havia sido uma tragédia, o de Dilma seria uma farsa.” E, num golpe final, põe por terra os que imaginaram que ela nada mais seria do que uma reencarnação do anterior: “Dá-se o caso que, neste início de governo, Dilma os surpreendeu. Exatamente naquilo que menos esperavam: está fazendo, desde o primeiro momento, o governo dela.” Os ministros que escolheu “são ministros dela e não ex-ministros de Lula.”

qui – 24/02 – Nesse cenário, onde não estamos na plateia de um teatro de sombras, mas de uma confrontação real, nossa grande imprensa ainda recorre a um punhado de analistas quase idênticos, tidos como “especialistas”, que não raro acenam para uma perspectiva celestial e faustosa, rendendo elogios apenas ao fato de d. Dilma ter feito poucos discursos, e mesmo assim, bem menos carregados de retórica e de componentes ideológicos quando comparados com os do seu antecessor. E ainda, por exibir um perfil bem mais discreto do que Lula, voltando-se com mais frequência a questões administrativas, de natureza interna, “institucional” e “organizacional” do que aos palanques ou à exposição pública, que ficaria por conta dos ministros. Outros vaticinam que os conflitos entre o PT e o PMDB na busca por cargos e espaço político, vão se constituir num sofisticado desafio para a capacidade de articulação política da presidenta. Outros mais, e da mesma maneira, enaltecem as marcas distintas que Dilma vem exibindo, ora mais voltada para os direitos humanos, notadamente na cena internacional, ora brandindo a tesoura de um “gerente financeiro” que, sempre que for preciso, não pensará duas vezes em determinar um corte de R$ 50 bilhões no Orçamento, nos moldes deste de 2011, como se tivesse carregando os pecados do seu antecessor. Alardeiam até que a popularidade dela já teria alcançado algo em torno de 50%, mimando-a como se ela fosse o primogênito de um sultão.

Diante daquilo que imagino conter doses superlativas de farisaismo fico com o que escreveu o mesmo Mauro Santayana do início. É ele quem adverte – e com um certo ar de preocupação e juízo de sobra: “A melhor advertência à conduta governamental é o contato direto com a população, e não somente mediante as informações dos ministros.” Digo então: se algo não saiu bem nesses 50 dias iniciais do governo Dilma destaco esse quesito. Tomara que ela ouça as vozes da terra, argila e matriz dos personagens dos nossos sonhos e que esse “tecnicismo gerencial conservador” que a prendeu nos gabinetes não prospere, como pareceu realçado nas primeiras decisões do governo dela. Como escreveu Rodrigo Viana: “Não é à toa que a velha imprensa derrama-se em elogios à nova presidenta, tentando abrir entre Dilma e Lula uma ‘cunha’, como a dizer: Lula era o populismo ‘atrasado’ e ‘irresponsável’, Dilma é a linha justa (discreta, moderada, a seguir a velha fórmula liberal de gestão).” Longe de querer sugerir uma peregrinação ao passado e sem uma gota de hesitação afirmo: d. Dilma não seja dura e quadrada como um esquimó, ao contrário exiba o frescor de gente que confia na vida e na população humilde e trabalhadora deste país, prudência lógica para não arruinar o lado saudável do legado de Lula e otimismo desafiante para encarar o futuro. E isso é tudo, afinal ainda estamos tratando de meros 50 dias.

Antonio Fernando

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