Procurando entender os árabes

29/03/2011

 

De 1947 até hoje o que mudou, piorou. No entanto, esta carta faz História. Edemar.

 

A carta abaixo, de 1947 e dirigida “Aos cidadãos norte-americanos”, foi-me mostrada, em inglês, pelo Embaixador Arnaldo Carrilho há alguns anos. Na ocasião, o embaixador precisava da carta traduzida, para uma conferência que faria em São Paulo, recém-chegado de volta ao Brasil, o embaixador Carrilho, do posto em que servira, em Ramallah, na Palestina. Eu a traduzi, claro, e a carta foi distribuída ao público que assistiu à conferência do Embaixador Arnaldo Carrilho, há dois, quase três anos, em São Paulo.

Agora, eu em computador novo e sem acesso àquela tradução, resolvi procurar na internet, na esperança de que a carta, traduzida, aparecesse em algum blog. Fiquei felicíssima ao ver que, sim, apareceu em vários blogs,
exatamente a minha tradução, nem sempre com créditos (que não reivindico nunca), mas, sem dúvidas, a minha tradução.

A carta foi escrita pelo Rei Abdullah da Jordânia, avô do atual Rei Hussein,o que não muda nada, e ajuda a localizar no tempo. Foi escrita em 1947, seis meses antes da guerra Israel-árabes, de 1948, quando, em todo o mundo, os sionistas europeus arregimentavam pessoas para mandar para a Palestina. É documento precioso, cuja leitura e divulgação entre nós devemos completamente ao Embaixador Arnaldo Carrilho, que hoje, outra vez, serve o Brasil, hoje na embaixada brasileira em Piongueangue, República Popular Democrática da Coreia, especialista que é, o embaixador Carrilho, em representar o Brasil em lugares complexíssimos.

Caia Fittipaldi

 

 

AOS CIDADÃOS NORTE-AMERICANOS

Como os árabes vêem os judeus

Carta de SM, Rei Abdullah ibn Hussein

Data: Novembro de 1947, à revista “American Prospect”, Nova York, EUA

 

 

É prazer especial dirigir-me ao público norte-americano, porque o trágico problema da Palestina não será jamais resolvido sem a simpatia dos norte-americanos, sem seu apoio, sem que compreendam. Já se escreveram contudo tantas palavras sobre a Palestina – é talvez o assunto sobre o qual mais se escreveu em toda a história -, que hesito.

Mas tenho de falar, porque acabei por concluir que o mundo em geral, e os EUA em especial, sabem praticamente nada sobre a causa pela qual os árabes realmente lutam.Nós, árabes, acompanhamos a imprensa dos EUA, talvez muito mais do que os senhores pensem. E nos perturba muito constatar que, para cada palavra impressa a favor dos árabes, imprimem-se mil a favor dos sionistas. Há muitas razões para que isto aconteça.Vivem nos EUA milhões de cidadãos judeus interessados nesta questão. Eles têm vozes fortes, falam
muito e conhecem bem os recursos da divulgação de notícias. E há poucos cidadãos árabes nos EUA, e ainda não conhecemos bem as técnicas da propaganda moderna. Os resultados disto têm sido alarmantes.

Vemos na imprensa dos senhores uma horrível caricatura de nós mesmos e lemos que aquele seria nosso verdadeiro retrato. Para que haja justiça, não podemos deixar que esta caricatura seja tomada por nosso retrato verdadeiro. Nosso argumento é bem simples: por quase 2.000 anos, a Palestina foi quase 100% árabe. Ainda é preponderantemente árabe, apesar do enorme número de judeus imigrantes.

Mas se continuar a imigração em massa, em pouco tempo seremos minoria em nossa própria casa. A Palestina é país pequeno e muito pobre, quase do tamanho do estado de Vermont. A população árabe é de apenas 1,2 milhão de pessoas. E fomos obrigados a receber, contra nossa vontade, cerca de 600 mil judeus sionistas. E nos ameaçam com muitos mais, centenas de milhares.

Nossa posição é tão simples e natural, que surpreende que tenha sido questionada. É exatamente a mesma posição que os EUA adotaram em relação aos infelizes judeus europeus. Os senhores lamentam que eles sofram o que sofrem hoje, mas não os querem em seu país. Tampouco nós os queremos em nosso país. Não porque sejam judeus, mas porque são estrangeiros. Não queremos centenas de milhares de estrangeiros em nosso país, sejam ingleses, noruegueses, brasileiros, o que sejam.

Pensem um pouco: nos últimos 25 anos, fomos obrigados a receber população equivalente a um terço do total de habitantes nativos. Nos EUA, seria o mesmo que o país ser obrigado a receber 45 milhões de estrangeiros, contra a vontade dos norte-americanos, desde 1921. Como os senhores reagiriam a isto?

Por nossa reação perfeitamente natural, contra sermos convertidos em minoria em nossa terra, somos chamados de nacionalistas cegos e anti-semitas impiedosos. A acusação seria cômica, se não fosse tão perigosa.

Nenhum povo da Terra jamais foi menos antissemita que os árabes. Os judeus sempre foram perseguidos quase exclusivamente por nações ocidentais e cristãs. Os próprios judeus têm de admitir que nunca, desde a Grande
Diáspora, os judeus desenvolveram-se com tanta liberdade e alcançaram tanta importância quanto na Espanha enquanto a Espanha foi possessão árabe. Com pequenas exceções, os judeus viveram durante séculos no Oriente Médio, em completa paz e amizade com seus vizinhos árabes.

Damasco, Bághdade, Beirute e outros centros árabes sempre incluíram grandes e prósperas comunidades de judeus. Até o início da invasão sionista na Palestina, estes judeus receberam tratamento mais generoso – muito, muito mais generoso – do que o que receberam na Europa cristã. Hoje, infelizmente, pela primeira vez na história, aqueles judeus começam a sentir os efeitos da resistência árabe ao assalto sionista. Muitos judeus estão tão ansiosos quanto os árabes e querem o fim do conflito. Muitos destes judeus que encontram lar acolhedor entre nós ressentem-se, como nós, com a chegada de tantos estrangeiros.

Por muito tempo intrigou-me muito a estranha crença, que aparentemente persiste nos EUA, segundo a qual a Palestina sempre teria sido, de algum modo, “terra dos judeus”.

Recentemente, conversando com um norte-americano, desfez-se o mistério. Disse-me ele que a maioria dos norte-americanos só sabem, sobre a Palestina, o que lêem na Bíblia. Dado que havia uma terra dos judeus no tempo de que a Bíblia fala, pensam eles, concluem que nada tenha mudado desde então.

Nada poderia ser mais distante da verdade. E, perdoem-me, é absurdo recorrer ao alvorecer da história, para concluir sobre quem ‘mereceria’ ser dono da Palestina de hoje. Contudo, os judeus fazem exatamente isto, e tenho de responder a este “clamor histórico”. Pergunto-me se algum dia houve no mundo fenômeno mais estranho do que um grupo de pessoas pretenderem, seriamente, reclamar direitos sobre uma terra, sob a alegação de que seus ancestrais ali teriam vivido há 2.000 anos!

Se lhes parecer que argumento em causa própria, convido-os a ler a história documentada do período e verificar os fatos.

Registros fragmentados, que são os que há, indicam que os judeus viviam como nômades e chegaram do sul do Iraque ao sul da Palestina, onde permaneceram por pouco tempo; e então moveram-se para o Egito, onde permaneceram por cerca de 400 anos. À altura do ano 1300 a.C. (pelo calendário ocidental), deixaram o Egito e gradualmente dominaram alguns – mas não todos – os habitantes da Palestina.

É significativo que os Filisteus – não os judeus – tenham dado nome ao país. “Palestina” é, simplesmente, a forma grega equivalente a “Philistia”.

Só uma vez, durante o império de David e Salomão, os judeus chegaram a controlar quase toda – mas não toda  – a terra que hoje corresponde à Palestina. Este império durou apenas 70 anos e terminou em 926 a.C. Apenas
250 anos depois, o Reino de Judá já estava reduzido a uma pequena província em torno de Jerusalém, com território equivalente a 1/4 da Palestina de hoje.

Em 63 a.C., os judeus foram conquistados pelo romano Pompeu, e nunca mais voltaram a ter nem vestígio de independência. O imperador Adriano, romano, finalmente os subjugou em circa 135 d.C. Adriano destruiu Jerusalém, reconstruiu-a sob outro nome e, por centenas de anos, nenhum judeu foi autorizado a entrar na cidade. Poucos judeus permaneceram na Palestina; a enorme maioria deles foram assassinados ou fugiram para outros países, na Diáspora, ou Grande Dispersão. Desde então, a Palestina deixou de ser terra dos judeus, por qualquer critério racional admissível.

Isto aconteceu há 1.815 anos. E os judeus ainda aspiram solenemente à propriedade da Palestina! Se se admitir este tipo de fantasia, far-se-á dançar o mapa do mundo!

Os italianos reclamarão a propriedade da Inglaterra, que os romanos dominaram por tanto tempo. A Inglaterra poderá reclamar a propriedade da França, “pátria” dos normandos conquistadores. Os normandos franceses
poderão reclamar a propriedade da Noruega, “pátria” de seus ancestrais. Os árabes, além disto, poderemos reclamar a propriedade da Espanha, que dominamos por 700 anos.

Muitos mexicanos reclamarão a propriedade da Espanha, “pátria” de seus pais ancestrais. Poderão exigir a propriedade também do Texas, que pertenceu aos mexicanos até há 100 anos. E imaginem se os índios norte-americanos reclamarem a propriedade da terra da qual foram os únicos, nativos, ancestrais donos, até há apenas 450 anos!

Nada há de caricato, aí. Todas estas aspirações e demandas são tão válidas e justas – ou tão fantasiosas – quanto a “ligação histórica” que os judeus alegam ter com a Palestina. Muitas outras ligações históricas são muito mais
válidas do que esta.

De qualquer modo, a grande expansão muçulmana, dos anos 650 d.C., definiu tudo e dominou completamente a Palestina. Daquele tempo em diante, a Palestina tornou-se completamente árabe, em termos de população, de língua e de religião. Quando os exércitos britânicos chegaram à Palestina, durante a última guerra, encontraram 500 mil árabes e apenas 65 mil judeus.

Se uma sólida e ininterrupta ocupação árabe, por 1.300 anos, não torna árabe um país, o que mais seria preciso?

Os judeus dizem, com razão, que a Palestina é a terra de sua religião. Parece ser o berço da cristandade. Mas, que outra nação cristã faz semelhante reivindicação? Quanto a isto, permitam-me lembrar que os cristãos
árabes – e há muitas centenas de milhares de cristãos árabes no mundo árabe – concordam absolutamente com todos os árabes, e opõem-se, também, à invasão sionista da Palestina.

Permitam-me acrescentar também que Jerusalém, depois de Meca e Medina, é a cidade mais sagrada no Islam. De fato, nos primórdios de nossa religião, os muçulmanos rezávamos voltados para Jerusalém, não para Meca.

As “exigências religiosas” que os judeus fazem, em relação à Palestina, são tão absurdas quanto as “exigências históricas”. Os Lugares Santos, sagrados, para três grandes religiões, devem ser abertos a todos, não monopólio de qualquer delas. E não confundamos religião e política.

Tomam-nos por desumanos e sem coração, porque não aceitamos de braços abertos talvez 200 mil judeus europeus, que sofreram tão terrivelmente a crueldade nazista e que ainda hoje – quase três anos depois do fim da guerra – ainda definham em campos gelados, deprimentes. Permitam-me destacar alguns fatos.

A inimaginável e imperdoável perseguição aos judeus não foi obra dos árabes: foi obra de uma nação cristã e ocidental.

A guerra que arruinou a Europa e tornou impossível que estes judeus se recuperassem foi guerreada exclusivamente entre nações cristãs e ocidentais. As mais ricas e mais vazias porções do planeta pertencem, não aos árabes, mas a nações cristãs e ocidentais.

Mesmo assim, para acalmar a consciência, estas nações cristãs e ocidentais pedem à Palestina – país muçulmano e oriental muito pequeno e muito pobre -que aceite toda a carga. “Ferimos terrivelmente esta gente”, grita o
Ocidente para o Oriente. “Será que vocês podem tomar conta deles, por nós?” Não vemos aí nem lógica nem justiça. Não somos, os árabes, “nacionalistas cruéis e sem coração”?

Os árabes somos povo generoso: nos orgulhamos de “a hospitalidade árabe” ser expressão conhecida em todo o mundo. Somos solidários: a ninguém chocou mais o terror hitlerista do que aos árabes. Ninguém lastima mais do que os árabes o suplício pelo qual passam hoje os judeus europeus.

Mas a Palestina já acolheu 600 mil refugiados. Entendemos que ninguém pode esperar mais de nós – nem poderia esperar tanto. Entendemos que é chegada a vez de o resto do mundo acolher refugiados, alguns deles, pelo menos.

Serei completamente franco. Há algo que o mundo árabe simplesmente não entende.

Dentre todos os países, os EUA são os que mais pedem que se faça algo pelos judeus europeus sofredores. Este pedido honra a humanidade pela qual os EUA são famosos e honra a gloriosa inscrição que se lê na Estátua da Liberdade.

Contudo, os mesmos EUA – a nação mais rica, maior, mais poderosa que o mundo jamais conheceu – recusa-se a receber mais do que um pequeníssimo grupo daqueles mesmos judeus!

Espero que os senhores não vejam amargura no que digo. Tentei arduamente entender este misterioso paradoxo. Mas confesso que não entendo. Nem eu nem nenhum árabe.

Talvez tenham ouvido dizer que “os judeus europeus querem ir para a Palestina e nenhum outro lugar lhes interessa.”

Este mito é um dos maiores triunfos de propaganda, da Agência Judaica para a Palestina, a organização que promove com zelo fanático a emigração para a Palestina.

É sutil meia-verdade; portanto, é duplamente perigosa.

A estarrecedora verdade é que ninguém no mundo realmente sabe para onde estes infelizes judeus realmente querem ir!

Imaginar-se-ia que, tratando-se de questão tão grave, os americanos, ingleses e demais autoridades responsáveis pelos judeus europeus teriam pesquisado acurada e cuidadosamente – talvez por votos -, para saber para onde cada judeu realmente deseja ir. Surpreendentemente, jamais se fez qualquer levantamento ou pesquisa!

A Agência Judaica para a Palestina impediu-o.

Há pouco tempo, numa conferência de imprensa, alguém perguntou ao Comandante Militar norte-americano na Alemanha o que lhe dava tanta certeza de que todos os judeus quisessem ir para a Palestina. Sua resposta foi simples: “Fui informado por meus assessores judeus.” Admitiu que não houvera qualquer votação ou levantamento. Houve preparativos para uma pesquisa, mas a Agência Judaica para a Palestina fez parar tudo.

A verdade é que os judeus, nos campos de concentração alemães, estão hoje sob intensa pressão de uma campanha sionista, por métodos aprendidos do terror nazista. É perigoso, para qualquer judeu, declarar que prefere outro destino que não seja a Palestina. Estas vozes dissonantes têm sofrido espancamentos severos e castigos ainda piores.

Também há pouco tempo, na Palestina, cerca de 1.000 judeus austríacos informaram à organização internacional de refugiados que gostariam de voltar à Áustria e já se planejava o seu repatriamento.

Mas a Agência Judaica para a Palestina soube destes planos e aplicou forte pressão política para que o repatriamento não acontecesse. Seria má propaganda, contrária aos interesses sionistas, que houvesse judeus
interessados em deixar a Palestina. Os cerca de 1.000 austríacos ainda estão lá, contra a vontade deles.

O fato é que a maioria dos judeus europeus são ocidentais, em termos de cultura e práticas de vida, com experiência e hábitos urbanos. Não são pessoas das quais se deva esperar que assumam o trabalho de pioneiros, na terra dura, seca, árida da Palestina.

Mas é verdade, sim, pelo menos um fato. Como estão postas hoje as opções, a maioria dos judeus europeus refugiados, sim, votarão por serem mandados para a Palestina, simplesmente porque sabem que nenhum outro país os acolherá.

Se os senhores ou eu tivermos de escolher o campo de prisioneiros mais próximo, para ali vivermos a vida que nos reste, ou a Palestina, sem dúvida também escolheríamos a Palestina.

Mas dêem alternativas aos judeus, qualquer outra possibilidade, e vejam o que acontece!

Contudo, nenhuma pesquisa ou escolha terá alguma utilidade, se as nações do mundo não se mostrarem dispostas a abrir suas portas – um pouco, que seja – aos judeus. Em outras palavras, se, consultado, algum judeu disser que deseja viver na Suécia, a Suécia deverá estar disposta a recebê-lo. Se
escolher os EUA, os senhores terão de permitir que venha para cá.

Qualquer outro tipo de consulta ou pesquisa será farsa. Para os judeus desesperados, não se trata de pesquisa de opinião: para eles, é questão de vida ou morte. A menos que tenham certeza de que sua escolha significará
alguma coisa, os judeus continuarão a escolher a Palestina, para não arriscarem o único pássaro que já têm em mãos, por tantos que voam tão longe.

Seja como for, a Palestina já não pode aceitar mais judeus. Os 65 mil que havia na Palestina em 1918, saltaram hoje para 600 mil. Nós árabes também crescemos, em número, e não por imigração. Os judeus eram apenas 11% da população, naquele território. Hoje, são um terço.

A taxa de crescimento tem sido assustadora. Em poucos anos – a menos que o crescimento seja detido agora – haverá mais judeus que árabes, e seremos significativa minoria em nossa própria terra.

Não há dúvida de que o planeta é rico e generoso o bastante para alocar 200 mil judeus – menos de um terço da população que a Palestina, minúscula e pobre – já abriga. Para o resto do mundo, serão mais alguns. Para nós, será suicídio nacional.

Dizem-nos, às vezes, que o padrão de vida árabe melhorou, depois de os judeus chegarem à Palestina. É questão complicada, dificílima de avaliar.

Mas, apenas para argumentar, assumamos que seja verdade. Neste caso, talvez fôssemos um pouco mais pobres, mas seríamos donos de nossa casa. Não é anormal preferirmos que assim seja.

A triste história da chamada Declaração de Balfour, que deu início à imigração dos sionistas para a Palestina, é complicada demais para repeti-la aqui, em detalhes. Baseia-se em promessas feitas aos árabes e não cumpridas
– promessas feitas por escrito e que não se podem cancelar.

Declaramos que aquela declaração não é válida. Declaradamente negamos o direito que teria a Grã-Bretanha de ceder terra árabe para ser “lar nacional” de um povo que nos é completamente estranho.

Nem a sanção da Liga das Nações altera nossa posição. Àquela altura, nenhum país árabe era membro da Liga. Não pudemos dizer sequer uma palavra em nossa defesa.

Devo dizer – e, repito, em termos de franqueza fraterna -, que os EUA são quase tão responsáveis quanto a Grã-Bretanha, por esta Declaração de Balfour. O presidente Wilson aprovou o texto antes de ser dado a público, e o Congresso dos EUA aprovou-o, palavra por palavra, numa resolução conjunta de 30 de junho de 1922.

Nos anos 1920, os árabes foram perturbados e insultados pela imigração dos sionistas, mas ela não nos alarmou. Era constante, mas limitada, como até os sionistas pensavam que continuaria a ser. De fato, durante alguns anos, mais judeus deixaram a Palestina, do que chegaram – em 1927, os que partiram foram o dobro dos que chegaram.

Mas dois novos fatores, que nem os britânicos nem a Liga nem os EUA e nem o mais fervoroso sionista considerou, começaram a pesar neste movimento, no início dos anos 30, e fizeram a imigração subir a patamares jamais imaginados. Um, foi a Grande Depressão mundial; o outro, a ascensão de Hitler.

Em 1932, um ano antes de Hitler tomar o poder, só 9.500 judeus chegaram à Palestina. Não os consideramos bem-vindos, mas não tememos que, àquele ritmo, ameaçassem nossa sólida maioria árabe. Mas no ano seguinte – o ano de Hitler -, o número saltou para 30 mil. Em 1934, foram 42 mil! Em 1935, 61 mil!

Já não era a chegada ordeira de idealistas sionistas. Em vez disto, a Europa jorrava sobre nós levas de judeus assustados. Então, sim, afinal, nos preocupamos. Sabíamos que, a menos que se detivesse aquele fluxo gigantesco, seria a catástrofe para nós, os árabes, em nossa pátria palestina. Ainda pensamos assim.

Parece-me que muitos norte-americanos crêem que os problemas da Palestina são remotos, que estão muito distantes deles, que os EUA nada têm a ver com o que lá acontece, que o único interesse dos EUA é oferecer apoio humanitário.

Creio que os norte-americanos ainda não viram o quanto, como nação, são responsáveis em geral por todo o movimento sionista e, especificamente, pelo terrorismo de hoje. Chamo-lhes a atenção para isto, porque tenho certeza de que, se se aperceberem da responsabilidade que lhes cabe, agirão com justiça e saberão admiti-la e assumi-la.

Sem o apoio oficial dos EUA ao Lar Nacional preconizado por Lorde Balfour, as colônias sionistas seriam impossíveis na Palestina, como seria impossível qualquer empreitada deste tipo e nesta escala, sem o dinheiro
norte-americano. Este dinheiro é resultado da contribuição dos judeus norte-americanos, num esforço pleno de ideais, para ajudar outros judeus.

O motivo foi digno: o resultado foi desastroso. As contribuições foram oferecidas por indivíduos, entidades privadas, mas foram praticamente, na totalidade, contribuições de norte-americanos, e, como nação, só os EUA
podem responder por elas.

A catástrofe que estamos vivendo pode ser deposta inteira, ou quase inteira, à porta de suas casas. Só o governo norte-americano, voz quase única em todo o mundo, insiste que a Palestina admita mais 100 mil judeus – depois dos quais incontáveis outros virão. Isto terá as mais gravíssimas conseqüências e gerará caos e sangue como jamais houve na Palestina.

Quem clama por esta catástrofe – voz quase única no mundo – são a imprensa dos EUA e os líderes políticos dos EUA. É o dinheiro dos EUA, quase exclusivamente, que aluga ou compra os “navios de refugiados” que zarpam
ilegalmente para a Palestina: as tripulações são pagas com dinheiro dos EUA. A imigração ilegal da Europa é montada pela Agência Judeus Americanos, que é mantida quase exclusivamente por fundos norte-americanos. São dólares norte-americanos que mantêm os terroristas, que compram as balas e as pistolas que matam soldados ingleses – aliados dos EUA – e cidadãos árabes – amigos dos EUA.

Surpreendeu-nos muito, no mundo árabe, saber que os norte-americanos admitem que se publiquem abertamente nos jornais anúncios à procura de dinheiro para financiar aqueles terroristas, para armá-los aberta e deliberadamente para assassinarem árabes. Não acreditamos que realmente estivesse acontecendo no
mundo moderno. Agora, somos obrigados a acreditar: já vimos estes anúncios com nossos próprios olhos.

Falo sobre tudo isto, porque só a franqueza mais completa pode ser-nos útil. A crise é grave demais para que nos deixemos deter por alguma polidez vaga, que nada significa.

Tenho a mais completa confiança na integridade de consciência e na generosidade do povo norte-americano. Nós, árabes, não lhes pedimos qualquer favor. Pedimos apenas que ouçam, para conhecer a verdade inteira, não apenas metade dela. Pedimos apenas que, ao julgarem a questão palestina, ponham-se, todos, no lugar em que estamos, nós, os palestinos.

Que resposta dariam os norte-americanos, se alguma agência estrangeira lhes dissesse que teriam de aceitar nos EUA muitos milhões de estrangeiros – em número bastante para dominar seu país – meramente porque eles insistem em vir para os EUA e porque seus ancestrais viveram aqui há 2.000 anos?

Nossa resposta é a mesma.

E o que farão os norte-americanos se, apesar de terem-se recusado a receber esta invasão, uma agência estrangeira começar a empurrá-los para dentro dos EUA?

Nossa resposta será a mesma.

 

REI ABDÁLLAH I.

 

 

“As the Arabs see the Jews”. The American Magazine, novembro, 1947. Na internet, em inglês, em http://www.kinghussein.gov.jo/kabd_eng.html , com a seguinte introdução: “Esse fascinante ensaio, escrito pelo avô do rei Hussein, Rei Abdállah I, foi publicado nos EUA, seis meses antes do início da Guerra de 1948, entre israelenses e palestinenses”.

Caia Fittipaldi, SP. Tradução de trabalho, para finalidades acadêmicas, sem valor comercial. (Leitura sugerida pelo Embaixador Arnaldo Carrilho, em palestra em São Paulo, em 2007).

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Assassinos impunes, ao menos conhecidos

28/03/2011

Do Carta Maior

Internacional| 27/03/2011 | Copyleft

Urânio empobrecido, uma estranha forma de proteger os civis líbios

Nas primeiras 24 horas de bombardeios a Libia, os aliados gastaram 100 milhões de libras esterlinas em munição dotada de ponta de urânio empobrecido. Trata-se de um resíduo do processo de enriquecimento de urânio que é utilizado nas armas e reatores nucleares, sendo uma substância muito valorizada no exército por sua capacidade para atravessar veículos blindados e edifícios. Esse urânio empobrecido pode causar danos renais, câncer de pulmão, câncer ósseo, problemas de pele, transtornos neurocognitivos, danos genéticos em bebês e síndromes de imunodeficiência, entre outras doenças. O artigo é de David Wilson.
David Wilson – Stop the War Coalition

Stop the War Coalition

“Os mísseis que levam pontas dotadas de urânio empobrecido se ajustam à perfeição à descrição de uma bomba suja…Eu diria que é a arma perfeita para assassinar um monte de gente”.
Marion Falk, especialista em física e química (aposentada), Laboratório Lawrence Livermore, Califórnia (EUA).

Nas primeiras vinte e quatro horas do ataque contra a Líbia, os B-2 dos EUA lançaram 45 bombas de 2 mil libras de peso cada uma (um pouco menos de uma tonelada). Estas enormes bombas, junto com os mísseis de cruzeiro lançados desde aviões e navios britânicos e franceses, continham ogivas de urânio empobrecido.

O DU (urânio empobrecido, na sigla em inglês) é um resíduo do processo de enriquecimento de urânio que é utilizado nas armas e reatores nucleares. Trata-se de uma substância muito pesada, 1,7 vezes mais densa que o chumbo, muito valorizada no exército por sua capacidade para atravessar veículos blindados e edifícios. Quando uma arma que leva uma ponta de urânio empobrecido golpeia um objeto sólido, como uma parte de um tanque, penetra através dele e depois explode formando uma nuvem quente de vapor. Esse vapor se transforma em um pó que desce ao solo e que é não só venenoso, mas também radioativo.

Um míssil com urânio empobrecido quando impacta algo sólido queima a 10.000°C. Quando alcança um objetivo, 30% dele fragmentam-se em pequenos projéteis. Os 70% restantes se evaporam em três óxidos altamente tóxicos, incluído o óxido de urânio. Este pó negro permanece suspenso no ar, e dependendo do vento e das condições atmosféricas pode viajar a grandes distâncias. Se vocês pensam que Iraque e Líbia estão muito distantes, lembrem-se que a radiação de Chernobyl chegou até Gales.

É muito fácil inalar partículas de menos de 5 micra de diâmetro, que podem permanecer nos pulmões ou em outros órgãos durante anos. Esse urânio empobrecido inalado pode causar danos renais, câncer de pulmão, câncer ósseo, problemas de pele, transtornos neurocognitivos, danos genéticos, síndromes de imunodeficiência e estranhas enfermidades renais e intestinais. As mulheres grávidas expostas ao urânio empobrecido podem dar à luz a bebês com deformações genéticas. Uma vez que o pó se vaporiza, não cabe esperar que o problema desapareça. Como emissor de partículas alfa, o DU tem uma vida média de 4,5 milhões de anos.

No ataque da operação “choque e pavor” contra o Iraque foram lançadas, somente sobre Bagdá, 1.500 bombas e mísseis. Seymour Hersh afirmou que só o terceiro comando de aviação dos Marines dos EUA lançou mais de “quinhentas mil toneladas de munição”. E tudo isso carregava pontas de urânio empobrecido.

A Al Jazeera informou que as forças invasoras estadunidenses dispararam 200 toneladas de material radioativo contra edifícios, casas, ruas e jardins de Bagdá. Um jornalista do Christian Science Monitor levou um contador Geiger até zonas da cidade que sofreram uma dura chuva de artilharia das tropas dos EUA. Encontrou níveis de radiação entre 1.000 e 1.900 vezes acima do normal em zonas residenciais. Com uma população de 26 milhões de habitantes, isso significa que os EUA lançaram uma bomba de uma tonelada para cada 52 cidadãos iraquianos, ou seja, uns 20 quilos de explosivos por pessoa.

William Hague, Secretário de Estado de Assuntos Exteriores britânico, disse que estávamos indo a Líbia “para proteger os civis e as zonas habitadas por civis”. Vocês não têm que olhar muito longe para ver a quem e o que está se “protegendo”.

Nas primeiras 24 horas, os aliados gastaram 100 milhões de libras esterlinas em munição dotada de ponta de urânio empobrecido. Um informe sobre controle de armamento realizado na União Europeia afirmava que seus estados membros concederam, em 2009, licenças para a venda de armas e sistemas de armamento a Líbia no valor de 333.357 milhões de euros. A Inglaterra concedeu licenças às indústrias bélicas para a venda de armas a Líbia no valor de 24,7 milhões de euros e o coronel Kadafi pagou também para que a SAS (sigla em inglês do Serviço Especial Aéreo) para treinar sua 32ª Brigada.

Eu aposto que nos próximos 4,5 milhões de anos, William Hague não irá de férias ao Norte da África.

Tradução: Katarina Peixoto

Edemar, envergonhado e assustado.


Os cem primeiros dias do governo Dilma – 17ª parte

28/03/2011

De 22 a 26/03/2011

ter – 22/03 – A Rede Brasil Atual, através da jornalista Jussara Seixas, informou hoje que uma “pesquisa Datafolha divulgada neste último domingo (20/03/2011) mostra que a popularidade da presidenta Dilma Rousseff supera todos os antecessores de Lula e iguala-se à marca recorde obtida pelo presidente petista em 2007. Na primeira pesquisa de avaliação no novo mandato, 47% dos brasileiros aprovam a presidenta, patamar tecnicamente igual ao obtido por Lula em março de 2007 e quatro pontos acima do registrado pelo ex-presidente em seu primeiro mandato, em 2003. Na mesma época, Fernando Henrique Cardoso contava com avaliação positiva de 39% no primeiro mandato e apenas 21% no segundo, contra 34% de Itamar Franco e 36% de Fernando Collor de Mello. Em relação a Dilma, outros 34% consideram seu governo regular, 7% têm visão ruim ou péssima da atual gestão e 12% não souberam opinar. Os dados divulgados permitem aferir que a presidenta venceu as resistências junto ao eleitorado tucano”, pois “apenas 15% dos que votaram em José Serra consideram que o desempenho de Dilma é ruim ou péssimo e 31% a classificam como boa ou ótima, com 41% de regular. Além disso, desapareceram as disparidades regionais. Dilma goza de 50% de aprovação no Nordeste, 47% no Sudeste e 44% no Sul, no Norte e no Centro-Oeste.” Segundo a pesquisa, Dilma Rousseff tem aprovação maior (51%) entre as mulheres do que entre os homens (43%).

A presidenta Dilma Rousseff anunciou nesta terça-feira (22) que o governo fará investimentos para fortalecer o programa espacial brasileiro. De acordo com ela, o Brasil não pode renunciar a sua meta de construir, lançar e operar satélites. Dilma afirmou que o investimento será por meio da contratação de profissionais para a Agência Espacial Brasileira (AEB) e para os órgãos executores desse programa. Haverá também injeção de recursos. Negou que o Brasil tenha suspendido seu programa espacial após a explosão ocorrida em 2003, que destruiu parte da base espacial de Alcântara, no Maranhão, e provocou a morte de 21 cientistas. Disse também que a meta é ter um programa espacial autônomo, capaz de atender às demandas da sociedade brasileira e de fortalecer a soberania do país. Para Dilma, o programa espacial é estratégico para o país, pois o Brasil necessita de satélites para vigiar o território, auxiliar na previsão do tempo e prevenir os danos causados pelos desastres naturais. Acrescentou que os satélites também são estratégicos para o país em áreas como defesa, comunicações e a segurança hídrica e alimentar.

qua – 23/03 – Como outros cinco do STF (Supremo Tribunal Federal), o Ministro Luiz Fux optou unicamente pelo vernáculo, pelo texto e assim frustrou a sociedade brasileira ao dar o voto do desempate liberando os corruptos barrados pela Lei da Ficha Limpa a assumirem seus postos no Congresso Nacional. Esperávamos um pouco mais dele, mas preferiu ser burocrático e conservador, pouco importando-lhe que tanto a Constituição quanto a validade dessa Lei para as eleições de 2010 tem uma origem comum, por sinal, a única que as legitimam: a vontade soberana do povo. Ao ser apontado para o STF, ele chegou a elogiar a Ficha Limpa, ela “conspira a favor da moralidade”, garantiu. Somente hoje ficamos sabendo do seu verdadeiro posicionamento. Cinco Ministros do STF, o Ministério Público Federal e o Tribunal Superior Eleitoral, todos analisaram a Ficha Limpa e concordaram que a sua validade para 2010 é plenamente constitucional. Até o Ministro Fux ser apontado havia um empate de 5 juízes contra e 5 a favor da validade da Ficha Limpa para 2010. Ele deveria ter quebrado o empate favorecendo o povo brasileiro, não os interesses dos corruptos que agora comemoram. É mais um tapa na cara da sociedade brasileira ao qual o nome e o gesto desse Ministro ficarão para sempre associados.

qui – 24/03 – De acorodo com o blog do Planalto, a presidenta Dilma Rousseff recebeu, nesta quinta-feira (24/3), no Palácio do Planalto, um grupo de estudantes universitários e secundaristas que participaram de manifestações na Esplanada dos Ministérios. Sob liderança dos presidentes da UNE (União Nacional dos Estudantes), Augusto Chagas, e da Ubes (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), Yann Evanovick, o grupo de estudantes foi recebido, num primeiro momento, pelo secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, e em seguida todos se reuniram com a presidenta Dilma, que se fez acompanhar pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. Após a reunião, Chagas e Evanovick informaram que as entidades que representam os estudantes apresentaram à presidenta a pauta de reivindicação para o setor de educação. Segundo Chagas, a pauta contempla destinar 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para o setor e 50% da receita do fundo proveniente do pré-sal também para o sistema educacional. Evanovick afirmou que Dilma mostrou-se sensível ao pedido. Durante a conversa, os estudantes solicitaram que as conquistas obtidas no Congresso Nacional não sejam vetadas pela presidenta em matérias que devem virar leis. De acordo com o presidente da Ubes, as entidades apresentaram 59 emendas em projeto de lei que tramita na Comissão de Educação da Câmara que trata do Plano Nacional de Educação.

sex – 25/03 – Conforme anunciou o Correio do Brasil, o “governo deseja alcançar com os demais acionistas controladores na Vale um acordo para a mudança no comando da mineradora antes da viagem da presidenta Dilma Rousseff para a China, no dia 9 de abril, disse à Reuters uma fonte do Palácio do Planalto que pediu para não ter o nome revelado. A saída de Agnelli, que está há dez anos no comando da empresa, é dada como certa. A presidenta Dilma Rousseff viaja à China no dia 9 de abril. Lá, ela participa da reunião dos BRICs (Brasil, Rússia, China e Índia) e fará uma visita oficial ao país. Possivelmente, a intenção de definir a troca antes da viagem estaria associada ao tempo em que Dilma permanecerá fora do país, apesar de que a questão comercial Brasil-China também é de grande importância, já que o país asiático é o maior importador mundial de minério de ferro e a Vale, sua maior fornecedora. Segundo avaliação do Planalto no momento é a de que os demais acionistas controladores já não apresentam resistência a uma mudança. A discussão, agora, estaria em torno do nome do eventual sucessor.”

sab – 26/03 – Foi no blog Gonzum, de Miguel do Rosário, que li um dos comentários mais lúcidos sobre o voto do Brasil na Comissão de Direitos Humanos (CDH), da ONU, quando, segundo a grande mídia, “votamos contra o Irã”, mas, aos meus olhos, o voto brasileiro foi dado a favor dos direitos humanos, no fórum adequado a esse posicionamento. E o Miguel quem nos explica: “Naturalmente é difícil para as pessoas entenderem que [na ONU] há três instâncias bem diferentes: o Conselho de Segurança, a Assembléia Geral e a Comissão de Direitos Humanos. Esta última foi criada em 2006 contra a vontade dos EUA, que fez tudo para impedir a iniciativa. Quando não pode impedir, sob pressão do mundo inteiro, aceitou de má-vontade. Por quê? Porque à diferença do Conselho de Segurança e da Assembléia Geral, a CDH é dominada pelos países em desenvolvimento.” (…) “A Comissão de Direitos Humanos é o fórum adequado para esses assuntos, até porque não tem o poder de gerar sanções econômicas.” E torna a coisa mais óbvia para o nosso entendimento quando escreve: “A campanha da mídia para mostrar que Dilma rompeu com a política externa de Lula visa inicialmente provar a seu público que ela, a mídia, sempre esteve certa quando criticava Lula. Se Dilma tomou outro rumo, era porque Lula estava errado e ela, a mídia, certa. No entanto, Dilma não mudou nada. Ou antes, mudou para melhor, mantendo os mesmos objetivos, de ter uma postura independente, altiva, e perseguir a paz e a justiça no mundo. Sem contar que são bastante ridículas essas suposições psicodélicas sobre “o que Lula faria se estivesse ali”. E, conclui: “O blog Amigos do Presidente Lula ressalta que Dilma, por ser mulher, precisa ter uma postura diferente em relação a um país que viola terrivelmente os direitos da mulher. Eu acrescentaria que Dilma foi barbaramente torturada na ditadura, à diferença de Amorim e Lula, que jamais o foram, então ela é mais sensível às denúncias de tortura em outros países, seja no Irã, seja em qualquer parte.”

Antonio Fernando


Os cem primeiros dias do governo Dilma – 16ª parte

28/03/2011

De 17 a 21/03/2011

qui – 17/03 – Segundo a jornalista Azelma Rodrigues, da revista Valor Online, o Brasil registrou em fevereiro passado 280.799 novo empregos formais, nível recorde para o mês conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado pelo Ministério do Trabalho. No mês passado, todos os 8 setores da atividade econômica registraram expansão no emprego, sendo que serviços (+134.342 vagas) e indústria extrativa mineral (+1.713) verificaram recordes para fevereiro. Destaque ainda para indústria de transformação (+60.098) e construção civil (+30.701). “A expansão de empregos é generalizada também entre os 25 subsetores da atividade econômica, com 10 deles registrando recordes e quatro deles com o segundo melhor desempenho para o mês. Todas as cinco regiões brasileiras tiveram saldo recorde em fevereiro, sendo a geração de empregos puxada pelo Sudeste, que abriu 165.523 postos. Em termos relativos, o maior crescimento foi registrado no Centro-Oeste, com elevação de 1,21% no estoque de trabalhadores com carteira assinada. Entre as 27 Unidades da Federação, quinze mostraram saldos recordes e quatro apontaram o segundo melhor resultado para o período.”

Segundo Altamiro Borges em seu blog, “em reunião realizada ontem (16/03) na sala da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, sob o comando do deputado Emiliano José (PT), foi aprovado o lançamento oficial, em 19 de abril próximo, da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular. Com a presença de várias entidades da sociedade civil, a reunião também fez um balanço das adesões à proposta de criação da frente. Até ontem, 94 parlamentares já tinham assinado a solicitação – incluindo integrantes do PT, PSB, PDT, PCdoB, PSOL e também do PMDB, PV, PSDB, DEM, entre outros partidos. Pelo regimento interno da Câmara Federal, são necessárias 171 assinaturas para formalizar uma frente parlamentar. O lançamento oficial tende a ser a mais importante iniciativa nesta frente estratégica de luta após a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em dezembro de 2009. Esta é a bola da vez para quem encara a luta pela democratização da comunicação como estratégica. A batalha pela regulação da mídia é dificílima. Os barões da mídia inclusive já se movimentam para sabotar a frente parlamentar. O desafio está lançado!”, finaliza Altamiro.

sex – 18/03 – A passagem do presidente Obama pelo Brasil, no cenário desses “100 Dias” tem e terá um significado especial no médio/longo prazo do governo Dilma. Entre as inúmeras postagens que pontificaram entre os blogueiros sobre esse evento destaco duas, pelo tom mais equilibrado que exibiram. Primeiro a do blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães e, em seguida, a do blog Gonzum, de Miguel do Rosário. Tais postagens, além da visita em sí, deram ensejo a que muitos outros blogueiros comentassem a visita de Obama em tons políticos ou raivosos e que variaram desde a mais contundente repulsa à expressões de apoio visivelmente ponderadas ou explicitamente bajuladoras.

“Yankees go home! Fora, Obama! Nos últimos dias, senti-me de volta aos anos 1960 ou 1970, quando o poder norte-americano nos mantinha de joelhos diante de uma ditadura sangrenta. De lá (segunda metade do século XX) para cá, porém, a relação dos Estados Unidos com o Brasil e a própria realidade entre os países mudou muito. (…) O tempo em que os norte-americanos vinham aqui nos passar rasteira e deixávamos, pertence a outra época. Uma época que, graças a Deus, não existe mais. Hoje, temos condições de tratar com eles de igual para igual. Obama veio ao Brasil justamente para nos convencer a fazer menos negócios com a China e mais com seu país. Não creio que conseguirá tudo, mas podemos negociar alguma coisa com ele.” (Cidadania)

“Não tenho a menor dúvida em afirmar que a esmagadora maioria dos brasileiros apóia que ao menos negociemos, porém sempre em pé de igualdade. (…) Não divirjo de ninguém que quer protestar, mas não é hora de discursos beligerantes contra os Estados Unidos. Quem detonou o cocktail molotov diante da embaixada norte-americana cometeu um ato de terrorismo. Talvez até tenha sido a direita, aproveitando-se do ato da esquerda para desmoralizá-la e caracterizá-la como violenta. Ou até algum esquerdista debilóide que acha que atos de violência servem a algum propósito. (…) O fato é que o brasileiro médio está achando é muito bom que este país tenha se tornado tão importante como potência econômica a ponto de o presidente dos Estados Unidos vir aqui tentar aumentar os negócios conosco. Duvido de que a maioria esmagadora dos brasileiros apóie que espantemos Obama daqui. (…) Não recrimino ninguém. Acho que não faltam razões para protestar contra os Estados Unidos e até para criticar Obama por sua tibieza.” (Cidadania)

“Ao contrário da grande maioria da blogosfera, eu estava achando ótimo que Obama fizesse um discurso na Cinelândia. (…) Eu estava afim de ir lá e ouvir o negão que, apesar das decepções, ainda admiro como símbolo da luta contra o ultra-conservadorismo americano. Também me decepcionei com Obama. Mas continuo o apoiando por entender a batalha ideológica sinistra em que ele está envolvido, e que, lamentavelmente, vem perdendo. (…) Acho que as pessoas não entendem o papel que o novo presidente estadunidense representa na geopolítica mundial. Em primeiro lugar, ele não foi responsável por nenhuma das cagadas nas quais os EUA atolaram-se nos últimos anos. Obama foi uma das raras vozes democratas que se levantaram duramente contra a invasão americana no Iraque. Sei que é meio difícil entender, mas nos EUA o Obama é de esquerda. Mesmo que a própria esquerda americana esteja um tanto confusa com os sinais dúbios emitidos pela Casa Branca, ela não deixará de o apoiar no ano que vem, ainda mais porque os republicanos devem vir com um discurso mais reacionário do que nunca.” (Gonzum)

“Tenho plena consciência do papel nefasto que os EUA desempenharam na história da América Latina, mas quero acreditar que os valores que permitiram a eleição de Obama significam o começo do fim dessa mentalidade imperialista, ou pelo menos o começo de uma tomada de consciência. (…) O antiamericanismo, que se mostrou bastante vivo durante os debates travados na blogosfera nos últimos dias, revelou, a meu ver, insegurança e baixo autoestima – e um tanto de ignorância sobre as oportunidades que se abrem para o Brasil, se souber aproveitar sua nova posição no mundo para estabelecer uma parceria soberana e estratégica com a potência do norte. Os EUA não são apenas o país que patrocinou golpes e invadiu países. É também a nação que assistiu grandes manifestações de protesto contra esses mesmos golpes e essas guerras. Os americanos escreveram livros contra guerra, fizeram filmes, e lutam até hoje …contra um conservadorismo louco e bilionário, que controla boa parte dos meios de comunicação e a totalidade da indústria bélica. Eles são imperialistas, mas abrigam também um grande movimento anti-imperialista, a começar por um dos maiores pensadores libertários do planeta, Noam Chomsky, que há 30 anos vem denunciando a ditadura ideológica da mídia norte-americana.” (Gonzum)

“Uma outra confusão que vem se formando é a de que a política externa de Dilma estaria se afastando dos rumos traçados pela administração anterior. Lula nunca foi anti-americano. Ao contrário, foi lá abraçar amistosamente o Bush e sempre cultivou relações cordiais com os EUA. (…) … o Brasil pode condenar o Irã, assim como pode condenar também a Arábia Saudita, países africanos e os EUA. O governo brasileiro tem obrigação de fazer aliança com os EUA para o bem do povo, sem preconceitos tolos de esquerdista aposentado de classe média, pois estamos diante da maior potência tecnológica do planeta. A cultura norte-americana, no campo da música, da literatura, das ciências, da tecnologia, é algo assombroso, e respeitar essa grandeza não é subserviência. É sabedoria. (…) Obama é convidado de honra da petista Dilma. Protestar contra ele no Rio, por parte do PT (não dos movimentos sociais, esses podem protestar à vontade) seria apenas demagogia e incoerência.” (Gonzum)

Por outro lado e com o foco direcionado para a incoveniência do lugar escolhido para um “comício” do presidente Obama, o jornalista Mauro Santayana escreveu no JB Online: “O Rio de Janeiro é uma cidade singular, que, desde a noite das garrafadas, em 13 de março de 1831, costuma desatar seu inconformismo em protestos fortes. A Cinelândia, como outros já apontaram, é o local em que as tropas revolucionárias de 1930, chefiadas por Getúlio Vargas, amarraram seus cavalos no obelisco então ali existente. Depois do fim do Estado Novo, foi o lugar preferido das forças políticas nacionalistas e de esquerda, para os grandes comícios. A Cinelândia assistiu, da mesma forma, aos protestos históricos do povo carioca, quando do assassinato do estudante Edson Luis, ocorrido também em março (1968). Da Cinelândia partiu a passeata dos cem mil, no grande ato contra a ditadura militar, em 26 de junho do mesmo ano. Não é, convenhamos, lugar politicamente adequado para o pronunciamento público do presidente dos Estados Unidos. É ingenuidade não esperar manifestações de descontentamento contra a visita de Obama. Além disso – e é o mais grave – será difícil impedir que agentes provocadores, destacados pela extrema-direita dos Estados Unidos, atuem, a fim de criar perigosos incidentes durante o ato. Outra questão importante: a segurança mais próxima do presidente Obama será exercida por agentes norte-americanos, como é natural nessas visitas. Se houver qualquer incidente entre um guarda-costas de Obama e um cidadão brasileiro, as conseqüências serão inimagináveis.”

sab – 19/03 – O que a sra. [presidenta Dilma] espera de fato dessa visita [de Obama]? Essa pergunta foi formulada pela jornalista Claudia Safatle, da revista Valor on line, por conta de uma longa entrevista anteontem dada a ela por Dilma: “Acho que tanto para nós quanto para os Estados Unidos o grande sumo disso tudo, o que fica, é a progressiva consciência de que o Brasil é um país que assumiu seu papel internacional e que pode, pelos seus vínculos históricos com os Estados Unidos e por estarmos na mesma região, ser um parceiro importantíssimo. Isso a gente constrói. Agora, essa consciência é importante. Nós não somos mais um país da época da “Aliança para o Progresso”, um país que precisa desse tipo de ajuda. Não que a Aliança para o Progresso não tenha tido seus méritos, agora não é isso mais que o Brasil é. O Brasil é um país que os EUA tem que olhar de forma muito circunstanciada.”

“O que nos aproxima da Índia, da Rússia e da China, os Bric, prosseguiu Dilma, não é tanto o fato de sermos emergentes.” O que é? perguntou Valor. “É o fato de que países que têm a oportunidade histórica de dar um salto para a frente, países continentais com toda a sorte de riquezas, quando sua população desperta e passa a incorporar o mercado, isso acelera o crescimento. É o que explica que o nosso crescimento pode ser maior do que o crescimento dos países desenvolvidos. Outro fator é se conseguirmos criar massivamente um processo de educação em todos os níveis para a população, e formação de pessoas ligadas à ciência e tecnologia que permita que o país comece a gerar inovação. Essas três coisas explicam muito os Estados Unidos e é nelas que temos que apostar para o Brasil dar um salto. Nós temos hoje uma janela de oportunidade única. Além disso temos petróleo, biocombustível, hidrelétrica, minério e somos uma potência alimentar. Não queremos ser só “commoditizados”. Queremos agregar valor. Por isso insistimos em parcerias estratégicas com outros países. Agora mesmo vamos propor uma para os Estados Unidos”, respondeu Dilma.

E mais: “Que outro país no mundo tem a reserva de petróleo que temos, que não tem guerra, não tem conflito étnico, respeita contratos, tem princípios democráticos extremamente claros e uma forma de visão do mundo tão generosa e pró-paz? Uma questão é fundamental: um país democrático ocidental como nós tem que ser um país que tenha perfeita consciência da questão dos direitos humanos. E isso vale para todos. Se não concordo com o apedrejamento de mulheres, eu também não posso concordar com gente presa a vida inteira sem julgamento (como na base de Guantânamo). Isso vale para o Irã, vale para os Estados Unidos e vale para o Brasil. Também não posso dar uma de bacana e achar que o Brasil pode ficar dando cartas e não olhar para suas próprias mazelas, para o seu sistema carcerário, por exemplo, sua política com relação aos presos. E isso chega ao direito de uma criança comer, das pessoas estudarem. Isso é direito humano. Mas é também, no sentido amplo da palavra, o respeito à liberdade, a capacidade de conviver com as diferenças, a tolerância. Um país com as raízes culturais que nós temos, que tem uma cultura tão múltipla, e que tem esse gosto pelo consenso, pela conversa, tudo isso caracteriza uma contribuição que o Brasil pode dar para a construção da paz no mundo. Acho que o mundo nos vê como um país amigável.”

dom – 20/03 – Ainda sobre a entrevista que Dilma concedeu à jornalista Claudia Safatle para revista Valor: “Se o mercado, com suas boas ou más intenções, considera a gestão de Alexandre Tombini, no Banco Central ‘dovish’ – frouxa como um pombo, em contraposição a ‘hawkish’, duro como um falcão – Dilma, ri e prontamente responde: ‘Eu sou uma arara’.” Foi assim que Paulo Henrique Amorim, em seu blog, procura dar destaque à adoção das chamadas “medidas macroprudenciais”, aquelas as quais o Banco Central recorre para controlar inflação, como por exemplo, aumento do compulsório dos bancos e da exigência de capital para empréstimo ao consumo de prazo maior, escapando assim de apelar apenas para o crescimento dos juros da taxa Selic. E conclui: “É o óbvio. Assim se faz desde que inventaram o dinheiro e os bancos, em Florença.” E anuncia: “O Tombini vai acabar também com o ‘Grupo dos Cem’, os felizardos que determinam a taxa de inflação – e, logo, dos juros – através da pesquisa Focus. Os ‘Cem’ poderão ser uns trezentos a dar palpite. Ou seja, dilui a força da tijolada, da pressão. Daí, a ofensiva do ‘mercado’ para fritar o Tombini.”

seg – 21/03 – Sábado, dia 19/03, “ao fazer uma declaração conjunta, ao lado do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a presidenta Dilma Rousseff afirmou que a tradição pacífica do Brasil credencia o país a participar de uma necessária reforma na Organização das Nações Unidas (ONU). A reforma mencionada pela presidenta refere-se a uma maior participação dos países emergentes, como o Brasil, no Conselho de Segurança da Organização”, conforme nota da Agência Brasil, reproduzida pelo Correio do Brasil. E prosseguiu: “Esse país tem compromisso com a paz, com a democracia e com o consenso. Esse compromisso não é algo conjuntural, mas é integrante dos nossos valores: tolerância, diálogo, flexibilidade. Temos orgulho de viver em paz com os nossos dez vizinhos há mais de um século” – disse a presidenta, que citou a atuação do Brasil para consolidar no continente a União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Dilma informou ao presidente sobre o tratado de constituição da Unasul que entrou em vigor nesta semana e disse que o país está “empenhado” na consolidação da instituição no continente, “em um enredo de paz, segurança e democracia, cooperação e crescimento com justiça social. Nesse ambiente é que devem frutificar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos”, disse a presidenta na declaração conjunta no Palácio do Planalto.

Ao falar das relações que pretende estabelecer com o governo dos Estados Unidos, Dilma ressaltou que espera que seja uma “relação entre iguais (…) por mais distintos que sejam esses países em território, população, capacidade produtiva e poderio militar. Somos um país de dimensões continentais, que trilham o caminho da democracia. Somos multiétnicos e em nosso território convivem distintas e ricas culturas, cada um à sua maneira” – afirmou.

Antonio Fernando


A arte da distorção

25/03/2011

 

Nosso atento colaborador, Antonio Fernando Araujo,  contesta coluna de Clovis Rossi intitulada ‘A covarde omissão do Brasil’ publicada naquele jornal paulista em 19 do corrente. Pesquisa no Google, com esse título entre aspas, dará ao leitor oportunidade para verificar o grau de servilismo e a habilidade contorcionista do funcionário do jornal. Claro, se as prezadas leitoras e leitores temem ataque de azia, será bem melhor ler o texto de Antonio Fernando.
Edemar.

Comento o texto do Clóvis Rossi começando pela “independência” que, a rigor, não deve ser medida pelo tanto que os autores “batem” nos governantes, mas sim em que medida se tornaram “paus mandados” dos patrões. Que o digam Veríssimo e a Zero Hora quando ele, em 2002, declarou voto ao Lula, Maria Rita Kehl, do “Estadão”, pelo que ela mesma denominou de “delito de opinião”, por ter criticado em seu artigo semanal (out/2010) a desqualificação que se fazia do voto dos pobres na eleição passada, o jornalista Dalwton Moura, da editoria do Caderno 3 do Diário do Nordeste, por publicar uma entrevista com o sociólogo Michael Löwy, marxista contemporâneo, que estava, em out/2010, em Fortaleza proferindo palestra sobre as Revoluções dos séculos XIX e XX, num momento político em que vivíamos a possibilidade de eleição de uma ex-presa política, dentro da estrutura de repressão do pensamento contrário, o jornalista Heródoto Barbeiro, então âncora do Programa Roda Viva, da TV Cultura, quando, numa série de entrevistas que estavam sendo realizadas com os presidenciáveis de 2010, resolveu questionar José Serra sobre a fabulosa soma financeira arrecadada com os pedágios nas estradas paulistas, o Gabriel Priolli, outro renomado jornalista daquela rede de tv, quando resolveu entrar na mesma contenda junto à equipe de redação do Jornal da Cultura e recebeu o mesmo tratamento dispensado a seu colega de profissão e emissora: todos demitidos. Criticar o Governo Lula podia. Fazer o mesmo com Serra e o demotucanato não. Isso tudo vale também para Minas Gerais, berço esplêndido do bom moço Aécio Neves, onde jornalistas sérios, mas insatisfeitos com as relações entre seus chefes e os mandatários da política local, produziram um documentário distribuído no Reino Unido e nos Estado Unidos (“Censurados no Brasil”), onde desmascaram com contundência a produção de matérias e reportagens que beneficiam o neto de Tancredo e põem em xeque a imagem do garoto propaganda da social-democracia brasileira. Não se surpreenda entretanto se você perceber essa mesma mídia fornecendo benevolente uma “folha de parreira”, ou seja, um pequeno e controlado espaço à opinião divergente ou contrária à linha da empresa. Às vezes, não dá certo, como foi o caso de todos esses citados acima, quando fica muito evidente que uma vigorosa voz destoante no coral do “sim senhor” não pode ser suportada pelo barões.

Sobre a tese de que “a força não é o melhor instrumento nas relações internacionais”, como escreve o Rossi, saiba que o Brasil não está sozinho nisso. Compartilham dela China, Índia, Turquia, entre outros. Nessa ótica e num movimento típico da diplomacia internacional, o BRIC em conjunto decidiu optar pela abstenção. Carregado de simbolismo essa votação deixou entrever que os países que se abstiveram e demonstraram preocupação com a ação, foram os emergentes membros permanentes e nações pleiteantes, como a Alemanha. Talvez o Rossi devesse saber que são nestas manifestações que se desenha o novo mapa geoestratégico global e brotam as dinâmicas de poder do século XXI, tão
significativas que motivam até as viagens de Obama e suas declarações de igualdade com seus parceiros. Das duas, uma: ou o Rossi nada percebeu desse “arranjo” ou agiu de má-fé ao apontar como “covarde” e “vergonhosa” a posição do Brasil e, por tabela, a do BRIC. Talvez o mais adequado para a aplicação desses adjetivos foi sua confissão de que ele defende uma ética e uma moral específica e adequada à academia e outra bem diferente – oposta até – quando tiver que lidar com alguém que não reza exatamente com a sua ou com a cartilha dos patrões. E aí se explicam essas demissões sumárias citadas acima.

Quando Mubarack contratou mercenários e, com camelos e cavalos, avançou, feriu e matou rebeldes egípcios o Rossi escreveu uma linha sequer contra isso? Que eu saiba, não. Mubarack era (era?) um ditador, porém amigo dos americanos, portanto árabe moderado. Os revoltosos da Líbia exibem armamento pesado e ares de mercenários (quem os está municiando?). Os do Egito não dispuseram desses engenhos. A mesma pergunta faço, referindo-me agora aos do Bahrein, Yemen e ao saudita Abdulah, da Arábia, inimigo figadal de Kadafi. Quando o Rossi escreverá algumas linhas contra esses que também ferem e matam a população civil dos seus reinos sempre que estas esboçam qualquer movimento de oposição, como agora. Contra Israel e os massacres da população civil da Palestina, contra os EEUU, idem, idem no Iraque, na Somália e no Afganistão e por aí mundo afora. Custo a crer que o Rossi não saiba nada disso, porém ousar escrever e denunciar, precisaria que ele estivesse disposto a arriscar o pescoço, como os citados acima, e ainda não estar nem um tiquinho que seja, municiado da mesma “covardia” e vergonha” que ele tenta impingir à diplomacia brasileira.

Para finalizar, Kadafi errou feio quando confiou no Ocidente. Nessa ocasião não lhe faltaram afagos desses que ora bombardeiam sua miragem beduína do poder eterno. Dos árabes é o único que, em parte, direcionou a riqueza advinda do petróleo para beneficiar seu povo (o IDH da Líbia é o mais alto da África e um dos maiores do mundo árabe). Para isso teve que nacionalizá-lo. Entretanto, em termos políticos, virou as costas para os palestinos e logo se tornou um ambicioso facínora (é sócio de metade da Itália, de vinhedos à fábrica de automóveis), nem melhor, nem pior do que os dos demais reinos arquibilionários árabes. Se os EEUU querem derrubá-lo (e, a rigor, ele bem que merece) então que derrube todos eles, a começar pelo Abdulah…, onde o furo é mais em cima…, e aí vai encarar? Assim, o Rossi encontrará farto material sobre o tema “covardia e vergonha”, adornando-o ainda com vastas pitadas de “oportunismo”, “colonialismo”, “ambição desmedida” e “como se apoderar das riquezas de outros povos, fazendo de conta que os estão defendendo” dos “terroristas” do Bin Laden ou, como no caso da Líbia, de ditadores hostís.

Antonio Fernando


Os cem primeiros dias do governo Dilma – 15ª parte

17/03/2011

De 12 a 16/03/2011

sab – 12/03 – Ontem, antes da reunião da presidenta Dilma Rousseff com as centrais sindicais, o senador Paulo Paim (PT-RS) conversou com os sindicalistas e com o secretário-geral da Presdência, Gilberto Carvalho. Na tribuna do Senado, ele relatou um ponto que passou despercebido pelo noticiário: o Palácio do Planalto, aparentemente quer colocar na mesma mesa de negociação dois temas decisivos para a criação de empregos: a desoneração da folha de pagamentos das empresas, que é muito bem recebida pelos empregadores, mas não é vista com bons olhos pelos sindicatos dos trabalhadores e a diminuição da jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40 horas, que é uma reivindicação das centrais sindicais, mas não é bem aceita pelo empresariado. A união dessas duas propostas pode diminuir resistências de parte a parte.

dom – 13/03 – Segundo Valdemar Menezes, do diário O Povo – on line, de Fortaleza, “houve muxoxos em certos segmentos conservadores pelo fato de a presidente Dilma Rousseff ter regulamentado a lei que prevê a participação de representantes dos funcionários nos conselhos de administração das empresas públicas, sociedades de economia mista e suas subsidiárias que tenham mais de 200 empregados e, nas quais, a União ( direta ou indiretamente) detenha a maioria do capital social com direito a voto. Nada mais justo, já que é a força do trabalho que consegue viabilizar os objetivos da empresa. Isso causa arrepios nos que veem perigo nas entidades dos trabalhadores. E assim volta a velha cantilena preconceituosa sobre a ‘república sindicalista’. Para construir uma sociedade em bases social-democráticas (parâmetro de sistema minimamente aceitável por alguém dotado de alguma sensibilidade humana e social), é preciso que o poder seja exercido com ampla participação dos trabalhadores. O Brasil, no entanto, é um daqueles países em que o partido que se reivindica social-democrata não tem trabalhadores. Só patrões.”

seg – 14/03 – Eduardo Guimarães, em seu blog, comentando matéria de 09/03, publicada em O Globo, “um dos três jornais que jogaram o país na ditadura” militar de 1964, matéria essa que “dava conta de que ‘as Forças armadas’ teriam feito ‘pesadas críticas’ à proposta do Poder Executivo de criar a Comissão Nacional da Verdade, que se pretende que investigue o sumiço de cidadãos brasileiros e outras barbaridades cometidas pela ditadura militar”, ressalta a nota publicada pelo “Ministério da Defesa que desmente a matéria”. Segundo a nota, “o texto a que se refere a reportagem de O Globo não foi encaminhado ao Ministério da Defesa no mês passado, como menciona a reportagem. Os trechos constantes da matéria são, na verdade, retirados de informação enviada pelo Exército à Assessoria Parlamentar do Ministério da Defesa no mês de setembro de 2010”. Além de mais essa “barrigada” do jornal, Eduardo Guimarães destaca: “Tenho reclamado, não da postura do ministro Nelson Jobim, mas da produção dessas absurdas notas de chefes militares. Em primeiro lugar, se fosse verdade que os criminosos e vítimas da ditadura estivessem todos “mortos” e que as “provas” tivessem se “perdido no tempo”, qual seria o problema de instalar a Comissão da Verdade? É claro como água que se trata de uma balela. Não são as Forças Armadas que serão investigadas. Serão investigados os membros delas que, no passado, cometeram crimes de assassinato e de tortura, no mínimo. E que sumiram com os corpos de suas vítimas, cometendo crime de ocultação de cadáver.” E conclui de forma definitiva: “Militar não tem o que querer. Já expliquei que os chefes das três Forças (Exército, Marinha e Aeronáutica) são SUBORDINADOS à Presidência da República. As Forças Armadas não têm direito a liberdade de expressão. Estão subordinadas a um governo e o chefe de uma delas que divergir publicamente desse governo deve ser demitido. É assim que funciona DENTRO das Forças Armadas. Nenhum subordinado pode questionar publicamente o superior.”

ter – 15/03 – Antonio Lassance, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professor de Ciência Política escreveu na Carta Maior no dia 19/02 a Crônica de uma visita anunciada, referindo-se à visita de Obama ao Brasil daqui a dois dias. “O que vem ele fazer por aqui? Encontrar-se com nossa presidenta, Dilma Rousseff, proferir discursos (um dos esportes favoritos de Obama), acenar boas intenções, distribuir sorrisos, visitar comunidades. Quem sabe, vestir a camisa de algum de nossos times de futebol ou da Seleção Brasileira, e declarar seu amor pelo Brasil.” E prossegue: “Obama vem fazer, sobretudo, diplomacia presidencial. Diplomacia presidencial é quando um presidente, ou presidenta, em consonância com sua política externa, entra em campo e joga o jogo em meio a seus diplomatas, claro que com destaque especial. Algo parecido com o que Zico fazia no Sumimoto, time japonês que depois ganharia o nome de Kashima Antlers.” (…) “O Brasil começou a trilhar os passos de uma diplomacia presidencial mais proeminente com o Presidente Lula, e tem tudo para avançar durante o governo Dilma. Mais uma vez, cabe o ‘nunca antes na história desse país’. O Brasil vive um novo momento. Abriu espaços consideráveis no cenário internacional. Tal protagonismo é benéfico para os esforços de paz, a diminuição da assimetria econômica entre os países, a prevalência do diálogo, em relação às sanções e retaliações.” (…)

“Muitos ainda não percebem que os EUA estão lutando para não ficar para trás, com o avanço da China. Ficar para trás é algo que já aconteceu para os EUA no Brasil, desde que a China se tornou nossa principal parceira comercial. Além disso, como lembrou Lula recentemente, os EUA ‘terceirizaram’ sua política externa neste continente, deixando-a a cargo de uma diplomacia subalterna e despreparada, cujo nível foi exposto pelos vazamentos de informações do Wikileaks. Obama vem ao Brasil ciente desse contexto. É disso que se trata. Ele vem para acertar maneiras de diminuir o prejuízo que os EUA têm acumulado por conta de uma política desastrosa, pavimentada por governos anteriores, mas que ele mesmo ainda não mostrou sinais de que irá reverter.A cordialidade brasileira, embora seja a mesma que Lula dispensou a Bush, já tem sido levada à praça da apoteose como um desfile para marcar que a fase de atrito entre Brasil e EUA é página virada. Pode ser que sim. O que não se diz é que o atrito faz parte do jogo de uma política internacional soberana. Os que são acometidos pelo complexo de vira-latas (para lembrar Nélson Rodrigues mais uma vez) vão se comportar, claro, como cachorro em frente ao açougue.”

“Os adeptos da política de ‘o que é bom para os EUA é bom para o Brasil’ já devem ter pré-fabricados seus comentários sobre o sucesso da visita e sobre as diferenças em relação ao governo Lula. Já percebemos seu empenho na tentativa de desconstruir a imagem de Lula e diferenciá-lo do governo Dilma. Mesmo a emblemática visita da presidenta à Argentina, reafirmando os fundamentos de oito anos de política externa brasileira, parece não ter importado aos olhos e ouvidos dos que têm por estratégia descolar a presidenta de tudo o que ela representa, de modo a esvaziar o capital político que foi decisivo em sua campanha eleitoral (o discurso da continuidade das mudanças). Sejamos sempre cordiais, mas tenhamos clareza do jogo que está sendo jogado.”

qua – 16/03 – A presidenta Dilma Rousseff e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, mantiveram entendimentos sobre investimentos em obras de infraestrutura naquele estado durante audiência, nesta quarta-feira, no Palácio do Planalto. Alckmin contou que na conversa solicitou recursos da União para a conclusão do rodoanel metropolitano, com 170 quilômetros de extensão ligando o Aeroporto Internacional de Cumbica ao Porto de Santos. Segundo o governador, falta apenas licitar as obras da parte norte do rodoanel, fato este que deve acontecer em junho deste ano, segundo o blog do Planlato. “As obras devem estar concluídas em quatro anos com orçamento de R$ 4,5 bilhões”, disse Alckmin ao explicar que um terço do valor estará a cargo do governo federal. Ainda segundo o mesmo blog, “o governador iniciou a conversa com os jornalistas informando que o encontro ‘foi propositivo’ e serviu para estabelecer parcerias entre os governos. Alckmin explicou que, embora seja de um partido político da oposição ao governo federal, quando se trata do interesse do estado de São Paulo não haveria motivos para tratamento desigual aos governadores aliados ao Palácio do Planalto. Além disso, conforme explicou, a presidenta Dilma Rousseff ‘tem preocupação com questões de logísticas’ e ‘por este motivo conversamos sobre hidrovias, ferrovias e rodovia’.”

Hoje completam-se 75 dias do governo Dilma, ou seja, faltam apenas 25, para que se feche o ciclo dos “100 Primeiros Dias”. Dá pra imaginar como anda o “frisson” nas redações da imprensa-oposição, cada uma empenhada em descobrir o fato ou ângulo mais adequado para expor sua versão do desastre que se aproxima baseada apenas num período que, no máximo, “pode mostrar seu caráter, mas não significa êxito ou malogro do mandato,” como nos assegura Mauro Santayana. No último dia 04/03, num artigo postado na seção Tendências / Debates, da Folha, o professor e historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos, já anunciou o tom do desfecho intitulando o tal artigo como: “Governo Dilma não tem vida própria”. Foi quando, pegando carona num texto do Luis Nassif, comentei que, o que o Villa precisa compreender, é que sem a envergadura de um Mário Covas, a gestão Serra foi uma das mais pífias da história moderna de São Paulo, dizem até que mais medíocre e desmobilizadora do que a de Fleury. Daí porque não é conveniente para o Alckmin – embora do mesmo partido – falar em continuidade da administração Serra. Ora, isso tudo, esse comportamento de “não te conheço” direcionado ao antecessor, está longe de se parecer com o governo Dilma. Portanto quando ele afirma – e ainda dá título ao artigo – que o governo dela não tem vida própria por se tratar de uma mera continuição do anterior, revela-nos que ainda não conseguiu entender o novo país que surgiu dos oito anos de Lula, e que, por conta disso, Dilma veio sim, para dar continuidade a esse projeto, tão real e brilhante que seu autor o deixou com quase 90% de aprovação popular. Essa é a luz a ser levada adiante, a de um projeto de nação, não a própria da governante de plantão, como se ela fosse um destaque luminoso de escola de samba, como, meio confuso, aparentemente almeja o historiador e professor Villa em seu artigo.

Antonio Fernando


Os cem primeiros dias do governo Dilma – 14ª parte

15/03/2011

 

De 07 a 11/03/2011

seg – 07/03 – Nesta segunda-feira de Carnaval, nada mais adequado do que deixar registrado aqui o comentário do blog Diversas Palavras, de que a propagada imparcialidade da grande imprensa é uma “ilusão de óticas”, pois para jornalistas de O Globo, a blogosfera é parcial, mas a imprensa não o é. E pergunta: e se os porta-vozes da opinião da grande imprensa tivessem seus contratos rompidos pelas “bolas-fora” que constantemente emitem? Aí, se os donos da grande imprensa considerassem a realidade como ponto de partida da construção da informação, não somente partindo do alinhamento ideológico que alicerçam uma disseminação comprometida? Estas duas questões se anulariam…

E prossegue: “Análises de expoentes da mídia como Alexandre Garcia, ex-porta voz do presidente Figueiredo, Jabor, Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Lúcia Hipólito entre outros, não fornecem o perigo contido na primeira pergunta, porque estes bebem sedentos da fonte da segunda questão. A imprensa brasileira sofre de uma grave crise de credibilidade, acentuada pelo surgimento da blogosfera independente, notadamente protagonizada por blogueiros (…) construtores de uma nova pauta: livre, diversa, analítica, real. A imprensa brasileira pratica a memória seletiva: esconde seus erros e golpismos nos cortes editoriais e nos intervalos comerciais. (…) A idéia de que a imprensa age como órgão oficial de oposição já está incrustada na cabeça de seus mais comuns colaboradores. E que órgãos livres, segundo o catequismo das redações da grande imprensa, fazem apenas o trabalho de ‘ajudar o governo’, pois não se interessam em informar a sociedade, tal qual fazem, ‘exemplar e imparcialmente’, O Globo, Folha, Estadão, Veja, Época etc…”

E finaliza com uma observação do neurocientista Miguel Nicolelis, “destruindo o castelo de areia das redações conservadoras”: “…Não existe imparcialidade nem jornalística nem científica” (…) “Ler o que a imprensa brasileira diz, em geral, é um exercício de leituras inóspitas para o bom senso, ou para a convergência com a realidade e o momento histórico captados. Tais textos publicados pela grande imprensa beiram, quase sempre, as armadilhas das chamadas que se contradizem no miolo dos próprios textos. Não servem como informação, apenas como artefatos, muitas vezes políticos, para incriminar ou recriminar seus adversários em benefício de seus aliados. (…) O que aconteceu no Brasil na eleição passada foi a demonstração da falácia de certos meios de imprensa e do partidarismo que invadiu essa opinião dita imparcial. Mas o desmentido só ocorreu nesse lugar capilarizado chamado blogosfera. A guerra da informação foi travada aí. A eleição foi ganha na trincheira da blogosfera, porque os desmentidos eram instantâneos”.

ter – 08/03 – Como informa o site do MST, as mulheres da Via Campesina fizeram uma Jornada Nacional de Luta das Mulheres em referência ao dia 8 de Março – Dia Internacional da Luta das
Mulheres – para denunciar a gravidade da situação do campo brasileiro. E prossegue: “O agronegócio é a combinação entre latifúndio, capital financeiro, indústria química e metalúrgica, financiamento público e mídia. Baseado na produção em forma de monocultura, o agronegócio é o novo rosto do latifúndio. Mantém a lógica de produção em grandes extensões de terras – para isso, concentrando, cada vez mais, péssimas condições de trabalho, devastação dos recursos naturais, trabalho escravo e produção para exportação. Essa lógica provoca a expulsão do campesinato e de populações tradicionais das suas terras, a contaminação dos trabalhadores e trabalhadoras e o aprofundamento da crise ambiental e das mudanças climáticas. Esse atual modelo de desenvolvimento para o campo visa manter um padrão de produção e de consumo ambientalmente insustentável e socialmente injusto. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2008.” Essa é uma das vozes de mulheres que Dilma, a governante mulher maior deste país, não deve deixar de ouvir.

Ainda que na companhia da ex-primeira ministra britânica Margareth Tatcher e da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, a presidenta da República, Dilma Rousseff foi colocada ao lado de outras personalidades internacionais como a presidenta da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf e a ativista birmanesa Aung San Suu Kyi – que em 1991 ganhou o Prêmio Nobel da Paz, na lista das cem mulheres mais inspiradoras da atualidade pelo jornal britânico The Guardian, foi o que nos informou o Jornal Correio do Brasil em sua edição 4085. E prossegue: “A presidenta brasileira foi considerada inspiradora por sua atuação durante o período da ditadura brasileira e por ter considerado a luta contra a miséria uma das prioridades de seu governo. Dilma também recebeu a menção por ter batido um recorde na história brasileira ao aumentar o número de mulheres no comando dos ministérios e pelo pragmatismo administrativo que demonstra. Apesar disso, a revista não esqueceu que a presidenta recuou da posição a favor do aborto para acalmar os grupos religiosos durante a campanha presidencial e considerou que a mandatária brasileira deu pouca atenção às questões de gênero em suas propostas eleitorais. O jornal britânico criticou também as plásticas feitas por Dilma e considerou que ela passou pelas intervenções cirúrgicas para ‘conseguir o seu lugar’.”

Segundo a jornalista Adriana Jacob Carneiro, “a origem do Dia Internacional da Mulher, data significativa na luta pelos direitos das mulheres, vem sendo distorcida no Brasil e em diversos países. Na cobertura midiática, o dia 8 de março é associado a um incêndio que teria acontecido em 1857, em Nova York e provocado a morte de 129 trabalhadoras têxteis. Elas teriam sido queimadas como punição por um protesto por melhores condições de trabalho. É importante destacar que houve, de fato, um incêndio, só que em 25 de março de 1911 e de forma diferente da narrada pela imprensa.” Entretanto, “um ano antes, em 1910, durante o 2º Congresso Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhague, a alemã Clara Zetkin propôs que fosse designado um dia para a luta dos direitos das mulheres, sobretudo o direito ao voto. Ou seja, o Dia Internacional da Mulher já existia antes do incêndio, mas era celebrado em datas variadas a cada ano.

Para compreender a escolha do 8 de março, remontamos ao dia 23 de fevereiro de 1917, 8 de março no calendário gregoriano. Naquela ocasião, as mulheres de Petrogrado, convertidas em chefes de família durante a guerra, saíram às ruas, cansadas da escassez e dos preços altos dos alimentos. No dia seguinte, eram mais de 190 mil. Apesar da violenta repressão policial do período, os soldados não reagiram: ao contrário, eles se uniram às mulheres. Aquele protesto espontâneo transformou-se no primeiro momento da Revolução de Outubro. A proposta de perpetuar o 8 de março como Dia Internacional da Mulher foi feita em 1921, em homenagem aos acontecimentos de Petrogrado. (…) Para além da distorção dos fatos históricos, um aspecto diferencia fundamentalmente a participação das mulheres nos dois episódios. No incêndio da Triangle Shirtwaist, em 1911, a mulher é vítima da opressão dos patrões e do fogo. Já nos protestos de 1917, ocupa uma posição de protagonismo.”

qua – 09/03 – Segundo o Correio do Brasil, depois de participar do Projeto Carnaval, da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex), que transformou um camarote no Sambódromo do Rio em um verdadeiro ambiente de negócios, trazendo 150 empresários de diversos países para conversarem, de maneira informal e descontraída, com empresários brasileiros do comércio exterior, o secretário executivo do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), Alessandro Teixeira informou que por determinação da presidenta Dilma o governo brasileiro decidiu criar o Grupo China, reunindo técnicos desse Ministério e do Ministério das Relações Exteriores (MRE). – É a primeira vez, segundo ele, que o governo cria um grupo interministerial com a função de estudar a relação comercial com um determinado país. Mais adiante enfatizou: “Estamos consolidando a formação do Grupo China para termos uma estratégia especial, definida e de longo prazo. O Brasil se prepara, nos próximos anos, para ser uma das cinco maiores economias do mundo.” E pontuou ainda: “A China hoje é um fator diferente, porque ela produz qualquer produto com a metade do custo da média mundial. Então isso é um problema para o Brasil e também para os outros países. Haverá setores que vão perder competitividade e podem ter problemas. É o caso de brinquedos, têxtil e vestuário. Só vamos conseguir ganhar mercado se nos especializarmos em nichos.”

Em pleno carnaval, Alexandre Porto, em seu blog do Alê, decidido a se contrapor aos argumentos de que há uma volta a um ‘economicismo’, ou em outras palavras ao “velho neoliberalismo [que seria o responsável pelo] corte de R$50 bi do Orçamento, suspensão de concursos e de contratações e anúncio de que a meta é zerar o déficit nominal”, indaga: – Eu gostaria de entender como podemos voltar para onde nunca estivemos. E prossegue questionando uma possível alusão ao governo FHC: “sinto (…) dizer que economistas adeptos da linha liberal (ou neoliberal …) ficariam ruborizados em terem suas teses confundidas com o governo Fernando Henrique Cardoso. A política econômica de FHC no pós real foi um desastre, mas com um nível de intervenção inimaginável para o receituário de um Roberto Campos ou mesmo do jovem Rodrigo Constantino. Imagine se tucanos ou neoliberais aprovariam os aportes que Mantega tem anunciado para o BNDES? Que política neoliberal é essa com tão agressiva política industrial? Leio todos os dias na imprensa comentários críticos ao suposto caráter “contraditório” do pacote anunciado.” E arremata esse tópico: “É preciso entender que não aconteceu nem de perto o corte de gastos exigido pela agenda neoliberal. Nem a fernandista Miriam Leitão ficou muito satisfeita. Uma analise mais detida dos números, me leva a crer que houve mais uma tirada do pé no acelerador, pois se Dilma em 2011 poderá gastar mais do que Lula em 2010, como podemos chamar isso de ‘corte’. Temos sim alguma tesoura em gastos supérfluos de custeio, expectativas realistas de receita, um tranco no aumento do funcionalismo e principalmente um freio em despesas que não poderiam mesmo ser realizadas nesse ano fiscal. Sim, em grande medida o governo está sinalizando que quer diminuir o estoque dos restos a pagar. O que os fiscalistas estão chamando de ‘maquiagem’, certos esquerdistas chamam de ‘política neoliberal’.”

qui – 10/03 – “A embaixadora do Brasil na ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, acredita que o aumento da visão positiva sobre o país no exterior – registrado em pesquisa da agência britânica de notícias BBC – se deva a fatores como o papel de interlocutor que o país assumiu no cenário internacional, à redução da pobreza e ao fato de uma mulher ter sido eleita presidenta. De acordo com a embaixadora, o Brasil se firmou como voz no cenário internacional, particularmente em momentos de crises como o que abala o Oriente Médio e o norte da África”, registrou o diário Correio do Brasil. Por sua vez, e segundo o mesmo diário, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, afirmou que a melhora na avaliação sobre a influência do Brasil no mundo, verificada nessa pesquisa, se deve ao modo com que o país se relaciona com as outras nações e à aprovação do modelo de desenvolvimento brasileiro, “um modelo que associa democracia com crescimento inclusivo, geração de emprego e também uma forma de interagir com o resto do mundo, que é baseada em soluções diplomáticas para problemas, cooperação para reduzir a fome e a pobreza e para criar mais mecanismos democráticos a fim de lidar com questões globais”, disse. Segundo o ministro, nos últimos anos, o Brasil estabeleceu como prioridade “comunicar-se com o mundo”. Essa postura implicou a abertura de embaixadas em vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia Central, regiões onde a diplomacia ampliou sua atuação. De acordo com o Itamaraty, 52 missões brasileiras foram abertas nos últimos oito anos. Como resultado, hoje o Brasil mantém relações diplomáticas com 191 dos 192 países-membros da ONU.

sex – 11/03 – Conforme anunciou o blog do Planalto, “o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) lançou editais para ampliar o número de Bancos de Alimentos, Cozinhas Comunitárias e Restaurantes Populares – unidades que fazem parte da rede de equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional – em todo o país. A ampliação contribui no sentido de fortalecer o enfrentamento à extrema pobreza e promover a segurança alimentar e nutricional e a inclusão produtiva das famílias do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, como explica o Diretor da Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Crispim Moreira: ‘O benefício é uma refeição saudável que vai promover a saúde daquele trabalhador, que vai ter condições de melhor produzir, auferir renda a partir do seu trabalho, possibilitar que os trabalhadores possam, por exemplo, além de fazer as suas refeições, diminuir os custos que eles têm com alimentação fora do domicílio. Serão investidos pelo governo federal R$ 11 milhões em Restaurantes Populares, R$ 4,5 milhões nos Bancos de Alimentos e R$ 14,6 milhões nas Cozinhas Comunitárias. Esses valores serão utilizados na construção dos prédios, aquisição de equipamentos, móveis e utensílios, com objetivo de incentivar, além do fornecimento de refeições, atividades de formação e qualificação profissional na área de alimentação, nutrição e gastronomia junto aos beneficiários do Cadastro Único. A manutenção e a gestão desses equipamentos serão de responsabilidade das prefeituras ou dos governos estaduais.”

Já há quem faça prognósticos de que o troféu “ministério problema” dos primeiros 100 dias do governo Dilma dificilmente escapará das mãos do MinC (Ministério da Cultura). Quem observa dessa maneira é Renato Rovai que em seu blog ainda comenta: “Na bancada de deputados petistas, há uma insatisfação quase generalizada com as ações do ministério; na blogosfera, o MinC se tornou pauta negativa todos os dias; nos movimentos sociais, que têm atuação relevante na área, há uma crise instalada por conta dos sinais que vêm sendo emitidos em relação às novas políticas para os Pontos de Cultura; entre os intelectuais que apoiaram Dilma, a decepção com a nova agenda tem levado alguns a dizer que vão desembarcar do apoio ao governo, inclusive a criação de um manifesto demonstrando publicamente a insatisfação começa a ser articulado.” Essa impressão ganhou reforço, ainda segundo Rovai, depois “da decisão da ministra de não mais indicar o sociólogo Emir Sader para a presidência da Casa Rui Barbosa.”

Antonio Fernando