Os cem primeiro dias do governo Dilma – 11ª parte

 

De 25/02 a 01/03/2011

Sex – 25/02 – O certo é que a blogosfera torceu o nariz para a ida da presidenta à festa comemorativa, no último dia 21/02, dos 90 anos da Folha de São Paulo. Uns mais, outros menos. O certo também é que, aquilo que poderia parecer “um tapa com luva de pelica”, se ela tivesse ido sozinha, apenas com a mãe Jane e o motorista, assumiu ares de capitulação, quando toda a corte planaltina – do vice-presidente ao presidente do Senado – se dispuseram a vestir os casacos e ir beijar os anéis do Otavinho Frias. Tudo porque “Dilma tem estilo diferente do ex-chefe e mentor”, como garante Daniel Pearl, editor geral da mesma Folha de São Paulo, “um jornal que tornou-se uma publicação mesquinha, apequenada por um diretor de redação aloprado, que não hesita em publicar fichas policiais falsas na capa, em atacar grosseiramente respeitados professores universitários, em valer-se de um militante desequilibrado para difamar com leviandade o mais popular presidente do país – cujos méritos se recusa a reconhecer -, em criar factóide atrás de factóide, no afã de fazer valer seus interesses político-econômicos, dando uma banana para o leitor, cujas opiniões menospreza”, como escreveu, dia 06 de janeiro passado,  Maurício Caleiro em seu blog Cinema & Outras Artes.

Entretanto a própria blogosfera saudável se incumbiu de exibir outros ares e a coroa de louros acabou por ocupar o lugar destinado aos que louvam a correta estratégia política da presidenta. “Ela colocou no bolso a oposição demo-tucana paulista e o PIG (Partido da Imprensa Golpista). A oposição, que já está na UTI, ficou menor ainda, foi desarmada, com ela sendo o centro da festa em pleno reduto oposicionista. De quebra, Dilma tomou a bandeira da liberdade de imprensa, daqueles que a criticavam justamente por isso”, assegura-nos o Zé Augusto no blog  Amigos do Presidente Lula. E insiste: “Se nós sentimos mal-estar, pior foi para os reacionários demo-tucanos verem FHC, Alckmin, José Serra fazerem fila para beijar a mão da presidenta. Pior para eles foi ver FHC pedir audiência àquela que ele chamava de “poste”. A oposição sentiu o golpe, tanto que enquanto nós aqui discutimos abertamente, eles simplesmente abafaram o caso, tratando com descrição (sic) para reduzir danos.”

Sab – 26/02 – A menor taxa de desemprego para janeiro foi apresentada pelo IG e UOL, no último dia 24/02, como algo ruim: mas a notícia é ótima! Foi dessa forma que o blog Palavras Diversas nos instruiu sobre como tornar uma ótima notícia em algo ruim ou péssimo, ou seja, tornar crível que a menor taxa de desemprego já registrada em um mês de janeiro, um recorde histórico, segundo o IBGE, se tratava de algo ruim. Mas por quê? Porque a taxa elevou-se em relação a dezembro… Não é preciso entender muito de economia para saber que este movimento é natural, ano após ano, ou seja: após dezembro e até meados do ano a taxa de desemprego eleva-se e no segundo semestre recua, geralmente, até atingir seu menor patamar em dezembro. Logo a elevação desse índice não significa algo negativo, mas sim algo normal e dentro das previsões de qualquer observador. O que os portais IG e UOL sonegaram, aquilo que realmente significa o excepcional na matéria: janeiro de 2011, comparado com todos os meses de janeiro anteriores, teve a menor taxa histórica desde 2003! Um recorde positivo! Mas UOL e IG preferem distorcer o fato e fazer o leitor crer que o desemprego está espreitando o trabalhador brasileiro… que o desemprego ronda a economia brasileira, baseado tão somente na chamada de capa, nua e crua, desprovida de qualquer contexto. 

Dom – 27/02 – Beto Almeida, membro da Junta Diretiva da Telesur, disse o que os mais bem informados já sabem: o jornal A Folha de São Paulo (FSP) que, além de ter o nome marcado por ter defendido e colaborado com operações da ditadura no Brasil, integra o leque de conglomerados midiáticos que, durante décadas, protegeu os “ditadores amigos” no Oriente Médio. Pois bem, esse jornal achou de “publicar artigo de Eliane Catanhede – a musa da febre amarela -, intitulado ‘TV Companheira”, tentando atingir a credibilidade jornalística da Telesur, “La nueva televisión del sur’, em seu esforço de cobrir a crise na Líbia.”

Alerta Beto Almeida: “Primeiramente, está escancarado que a grande mídia comercial brasileira, seguindo orientações dos conglomerados internacionais midiáticos, editorialmente controlados pelas indústrias bélicas, petroleiras e pela ditadura financeira, sempre protegeu os ditadores do Oriente Médio que servem a estes interesses. A FSP está dentro deste leque.” E assim como, por “mais de 30 anos, protegeu Mubarak, sem nunca cobrar dele eleições diretas ou democracia no Egito, engajou-se na campanha contra o governo da Venezuela que, em 12 anos, eleito pelo voto, realizou mais de 15 eleições, plebiscitos e referendos livres, vencendo 14 deles e respeitando democraticamente o único resultado eleitoral adverso registrado, revelando a imensa hipocrisia da sua linha editorial de dois pesos e duas medidas.” A mesma linha editorial que protegeu Mubarak, mas que sempre condenou Kadafi. Que continua a “proteger a oligarquia que reina sobre a Arábia Saudita, a mais maquiavélica das ditaduras da região.” E nesse artigo da Catanhede também “não há uma linha sequer que esboce qualquer reinvindicação democrática para este país, cujo petróleo é rigorosamente controlado por empresas dos EUA.” E quando a Telesur “procura revelar, com critérios jornalísticos, a falsidade e hipocrisia dos discursos ‘democráticos’ que servem para esconder o objetivo fundamental que esta mídia cumpre: dar suporte e favorecer o controle total das riquezas energéticas do Oriente Médio pelos trustes imperialistas”, contrariando a “linha editorial complacente com os crimes que se cometem contra os povos árabes, em particular contra o povo palestino”, a articulista Catanhede “tenta atacar a Telesur, porque esta questiona e se diferencia do jornalismo obediente ao poder bélico-petroleiro que tantas vidas ceifa na região”.

Como se não bastasse, a autora esforça-se por “afrontar as políticas externas soberanas que os países do eixo sul-sul estão desenhando, com o objetivo de libertarem-se das algemas da OTAN, inclusive postulando a criação de uma Organização do Tratado do Atlântico Sul, proposta defendida por vários países sistematicamente enfrentados pela linha editorial da FSP, inclusive por Kadafi, certamente, uma das tantas razões que o levam a ter sido sempre condenado pelos imperialistas, pela ONU, pela OTAN” e, por tabela, pela FSP.

A Líbia não é igual ao Egito, mas certamente, ” as concessões de Kadafi aos patrocinadores da morte e da opressão contra os povos iraquiano, afegão, palestino, entre eles Bush e Blair, aprofundou os conflitos internos, agravando as disputas tribais, facilitando a infiltração dos que nunca aceitaram a nacionalização do petróleo líbio. Agora, a FSP, que se crê tão moderna, apresenta-se aliada aos que levantam novamente a bandeira da Líbia do Rei Idris, demonstrando preferir operar para o retrocesso histórico da república à monarquia, o que faria da Líbia uma colônia petroleira controlada pelos conglomerados anglo-saxões.” Num artigo de Gideom Rachman, o principal analista internacional do diário londrino (e pró-capitalista) Financial Times, reconhece: “nos últimos anos, o líder líbio foi recaracterizado como sendo um pecador reformado, aliado na ‘guerra ao terror’ e valioso parceiro de negócios (…). As mudanças de atitude em relação a Kadafi evidenciam a forma como as preocupações ocidentais em relação aos direitos humanos são quase sempre tingidas pela conveniência”. É essa conveniência que fez com que o próprio Kadafi há muito tenha deixado de ser um contrapeso árabe ao regime de Israel. Tornou-se ele um algoz de seu povo, que massacra civis para se perpetuar no poder e ainda poder contar com as simpatias norte-americanas e europeias para a manutenção do status de dócil supridor de petróleo.   

Seg – 28/02 – Como anotei em um post anterior, não estamos na plateia de um teatro de sombras, mas de uma confrontação real entre um punhado de jornalistas, intelectuais, políticos, formadores de opinião e blogueiros que nutrem uma paixão honesta por um futuro melhor para a população brasileira e de outro um punhado de familias (4 ou 5. Edemar) abrigadas no oligopólio em que se constituiu nossa grande imprensa, para defender valores e interesses intrinsicamente associados ao que de mais atrasado e conservador está presente entre as elites econômicas dominantes, quase todas associadas aos grandes conglomerados capitalistas internacionais. E isso se torna mais dramático quando constatamos, como o sociólogo e cientista político Emir Sader, que “não se pode dizer que contamos hoje com interpretações que dêem conta do que o Brasil se tornou, depois de duas décadas de grandes transformações. A visão amplamente difundida pela mídia se revelou não menos amplamente equivocada, a ponto que a vítima privilegiada dos seus ataques – Lula – saiu do governo como o presidente mais popular da história do país, quem mais logrou unificar o Brasil, tendo apenas 4% de rejeição” e indo direto ao alvo, conclui: “se supõe que seja [4%] a cifra lograda pela mídia.”  Finaliza com um vaticínio que, se levado ao pé da letra, qual seja, de que a imprensa brasileira há muito  “deixou de ser um espaço que abrigou uma parte razoável dos protagonistas da vida brasileira”, sinaliza para o fim de uma era: “O alinhamento em bloco contra o governo Lula foi fatal para a imprensa, que perdeu interesse, objetividade na informação e espaços de reflexão antagônica.”

Ter – 01/03 – A presidenta Dilma Roussef anunciou nesta terça-feira o reajuste médio de 19,4% aos beneficiários do programa Bolsa Familia, com elevação real de 8,7% sobre a inflação do período de setembro de 2009 a março de 2011. O maior aumento, de 45,5%, será dado a crianças e adolescentes de até 15 anos. O valor concedido aos jovens  entre 16 e 17 anos também é significativo: 15,2%. O reajuste terá um impacto de R$ 2,1 bilhões no Orçamento da União, o que representa cerca de 0,4% do PIB (Produto Interno Bruto). Com a correção, o menor valor pago pelo programa passa de R$ 22 para R$ 32 e o maior, de R$ 200 para R$ 242. O benefício médio atual, de R$ 96, subirá para R$ 115. Segundo o governo, 12,9 milhões de famílias em todo Brasil recebem o benefício, cerca de 50 milhões de pessoas com renda mensal per capita de até R$ 140. O sertão baiano foi escolhido pela presidente como palco do anúncio do primeiro reajuste de seu governo no valor dos benefícios do Bolsa Família, principal programa de transferência de renda federal. O anúncio foi feito durante a visita de Dilma a Irecê, município localizado no Polígino das Sêcas, a 478 km de Salvador. A Bahia é o Estado com o maior número de famílias beneficiadas (1,7 milhão) pelo programa de distribuição de renda  lançado no primeiro mandato do ex-presidente Lula. O reajuste havia sido prometido pela própria presidente, em novembro, logo após sua eleição. “Eu não sei hoje dizer qual é esse reajuste, mas que terá reajuste eu asseguro que terá”, disse na ocasião.

Antonio Fernando.

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