Os cem primeiros dias do governo Dilma – 14ª parte

 

De 07 a 11/03/2011

seg – 07/03 – Nesta segunda-feira de Carnaval, nada mais adequado do que deixar registrado aqui o comentário do blog Diversas Palavras, de que a propagada imparcialidade da grande imprensa é uma “ilusão de óticas”, pois para jornalistas de O Globo, a blogosfera é parcial, mas a imprensa não o é. E pergunta: e se os porta-vozes da opinião da grande imprensa tivessem seus contratos rompidos pelas “bolas-fora” que constantemente emitem? Aí, se os donos da grande imprensa considerassem a realidade como ponto de partida da construção da informação, não somente partindo do alinhamento ideológico que alicerçam uma disseminação comprometida? Estas duas questões se anulariam…

E prossegue: “Análises de expoentes da mídia como Alexandre Garcia, ex-porta voz do presidente Figueiredo, Jabor, Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Lúcia Hipólito entre outros, não fornecem o perigo contido na primeira pergunta, porque estes bebem sedentos da fonte da segunda questão. A imprensa brasileira sofre de uma grave crise de credibilidade, acentuada pelo surgimento da blogosfera independente, notadamente protagonizada por blogueiros (…) construtores de uma nova pauta: livre, diversa, analítica, real. A imprensa brasileira pratica a memória seletiva: esconde seus erros e golpismos nos cortes editoriais e nos intervalos comerciais. (…) A idéia de que a imprensa age como órgão oficial de oposição já está incrustada na cabeça de seus mais comuns colaboradores. E que órgãos livres, segundo o catequismo das redações da grande imprensa, fazem apenas o trabalho de ‘ajudar o governo’, pois não se interessam em informar a sociedade, tal qual fazem, ‘exemplar e imparcialmente’, O Globo, Folha, Estadão, Veja, Época etc…”

E finaliza com uma observação do neurocientista Miguel Nicolelis, “destruindo o castelo de areia das redações conservadoras”: “…Não existe imparcialidade nem jornalística nem científica” (…) “Ler o que a imprensa brasileira diz, em geral, é um exercício de leituras inóspitas para o bom senso, ou para a convergência com a realidade e o momento histórico captados. Tais textos publicados pela grande imprensa beiram, quase sempre, as armadilhas das chamadas que se contradizem no miolo dos próprios textos. Não servem como informação, apenas como artefatos, muitas vezes políticos, para incriminar ou recriminar seus adversários em benefício de seus aliados. (…) O que aconteceu no Brasil na eleição passada foi a demonstração da falácia de certos meios de imprensa e do partidarismo que invadiu essa opinião dita imparcial. Mas o desmentido só ocorreu nesse lugar capilarizado chamado blogosfera. A guerra da informação foi travada aí. A eleição foi ganha na trincheira da blogosfera, porque os desmentidos eram instantâneos”.

ter – 08/03 – Como informa o site do MST, as mulheres da Via Campesina fizeram uma Jornada Nacional de Luta das Mulheres em referência ao dia 8 de Março – Dia Internacional da Luta das
Mulheres – para denunciar a gravidade da situação do campo brasileiro. E prossegue: “O agronegócio é a combinação entre latifúndio, capital financeiro, indústria química e metalúrgica, financiamento público e mídia. Baseado na produção em forma de monocultura, o agronegócio é o novo rosto do latifúndio. Mantém a lógica de produção em grandes extensões de terras – para isso, concentrando, cada vez mais, péssimas condições de trabalho, devastação dos recursos naturais, trabalho escravo e produção para exportação. Essa lógica provoca a expulsão do campesinato e de populações tradicionais das suas terras, a contaminação dos trabalhadores e trabalhadoras e o aprofundamento da crise ambiental e das mudanças climáticas. Esse atual modelo de desenvolvimento para o campo visa manter um padrão de produção e de consumo ambientalmente insustentável e socialmente injusto. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2008.” Essa é uma das vozes de mulheres que Dilma, a governante mulher maior deste país, não deve deixar de ouvir.

Ainda que na companhia da ex-primeira ministra britânica Margareth Tatcher e da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, a presidenta da República, Dilma Rousseff foi colocada ao lado de outras personalidades internacionais como a presidenta da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf e a ativista birmanesa Aung San Suu Kyi – que em 1991 ganhou o Prêmio Nobel da Paz, na lista das cem mulheres mais inspiradoras da atualidade pelo jornal britânico The Guardian, foi o que nos informou o Jornal Correio do Brasil em sua edição 4085. E prossegue: “A presidenta brasileira foi considerada inspiradora por sua atuação durante o período da ditadura brasileira e por ter considerado a luta contra a miséria uma das prioridades de seu governo. Dilma também recebeu a menção por ter batido um recorde na história brasileira ao aumentar o número de mulheres no comando dos ministérios e pelo pragmatismo administrativo que demonstra. Apesar disso, a revista não esqueceu que a presidenta recuou da posição a favor do aborto para acalmar os grupos religiosos durante a campanha presidencial e considerou que a mandatária brasileira deu pouca atenção às questões de gênero em suas propostas eleitorais. O jornal britânico criticou também as plásticas feitas por Dilma e considerou que ela passou pelas intervenções cirúrgicas para ‘conseguir o seu lugar’.”

Segundo a jornalista Adriana Jacob Carneiro, “a origem do Dia Internacional da Mulher, data significativa na luta pelos direitos das mulheres, vem sendo distorcida no Brasil e em diversos países. Na cobertura midiática, o dia 8 de março é associado a um incêndio que teria acontecido em 1857, em Nova York e provocado a morte de 129 trabalhadoras têxteis. Elas teriam sido queimadas como punição por um protesto por melhores condições de trabalho. É importante destacar que houve, de fato, um incêndio, só que em 25 de março de 1911 e de forma diferente da narrada pela imprensa.” Entretanto, “um ano antes, em 1910, durante o 2º Congresso Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhague, a alemã Clara Zetkin propôs que fosse designado um dia para a luta dos direitos das mulheres, sobretudo o direito ao voto. Ou seja, o Dia Internacional da Mulher já existia antes do incêndio, mas era celebrado em datas variadas a cada ano.

Para compreender a escolha do 8 de março, remontamos ao dia 23 de fevereiro de 1917, 8 de março no calendário gregoriano. Naquela ocasião, as mulheres de Petrogrado, convertidas em chefes de família durante a guerra, saíram às ruas, cansadas da escassez e dos preços altos dos alimentos. No dia seguinte, eram mais de 190 mil. Apesar da violenta repressão policial do período, os soldados não reagiram: ao contrário, eles se uniram às mulheres. Aquele protesto espontâneo transformou-se no primeiro momento da Revolução de Outubro. A proposta de perpetuar o 8 de março como Dia Internacional da Mulher foi feita em 1921, em homenagem aos acontecimentos de Petrogrado. (…) Para além da distorção dos fatos históricos, um aspecto diferencia fundamentalmente a participação das mulheres nos dois episódios. No incêndio da Triangle Shirtwaist, em 1911, a mulher é vítima da opressão dos patrões e do fogo. Já nos protestos de 1917, ocupa uma posição de protagonismo.”

qua – 09/03 – Segundo o Correio do Brasil, depois de participar do Projeto Carnaval, da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex), que transformou um camarote no Sambódromo do Rio em um verdadeiro ambiente de negócios, trazendo 150 empresários de diversos países para conversarem, de maneira informal e descontraída, com empresários brasileiros do comércio exterior, o secretário executivo do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), Alessandro Teixeira informou que por determinação da presidenta Dilma o governo brasileiro decidiu criar o Grupo China, reunindo técnicos desse Ministério e do Ministério das Relações Exteriores (MRE). – É a primeira vez, segundo ele, que o governo cria um grupo interministerial com a função de estudar a relação comercial com um determinado país. Mais adiante enfatizou: “Estamos consolidando a formação do Grupo China para termos uma estratégia especial, definida e de longo prazo. O Brasil se prepara, nos próximos anos, para ser uma das cinco maiores economias do mundo.” E pontuou ainda: “A China hoje é um fator diferente, porque ela produz qualquer produto com a metade do custo da média mundial. Então isso é um problema para o Brasil e também para os outros países. Haverá setores que vão perder competitividade e podem ter problemas. É o caso de brinquedos, têxtil e vestuário. Só vamos conseguir ganhar mercado se nos especializarmos em nichos.”

Em pleno carnaval, Alexandre Porto, em seu blog do Alê, decidido a se contrapor aos argumentos de que há uma volta a um ‘economicismo’, ou em outras palavras ao “velho neoliberalismo [que seria o responsável pelo] corte de R$50 bi do Orçamento, suspensão de concursos e de contratações e anúncio de que a meta é zerar o déficit nominal”, indaga: – Eu gostaria de entender como podemos voltar para onde nunca estivemos. E prossegue questionando uma possível alusão ao governo FHC: “sinto (…) dizer que economistas adeptos da linha liberal (ou neoliberal …) ficariam ruborizados em terem suas teses confundidas com o governo Fernando Henrique Cardoso. A política econômica de FHC no pós real foi um desastre, mas com um nível de intervenção inimaginável para o receituário de um Roberto Campos ou mesmo do jovem Rodrigo Constantino. Imagine se tucanos ou neoliberais aprovariam os aportes que Mantega tem anunciado para o BNDES? Que política neoliberal é essa com tão agressiva política industrial? Leio todos os dias na imprensa comentários críticos ao suposto caráter “contraditório” do pacote anunciado.” E arremata esse tópico: “É preciso entender que não aconteceu nem de perto o corte de gastos exigido pela agenda neoliberal. Nem a fernandista Miriam Leitão ficou muito satisfeita. Uma analise mais detida dos números, me leva a crer que houve mais uma tirada do pé no acelerador, pois se Dilma em 2011 poderá gastar mais do que Lula em 2010, como podemos chamar isso de ‘corte’. Temos sim alguma tesoura em gastos supérfluos de custeio, expectativas realistas de receita, um tranco no aumento do funcionalismo e principalmente um freio em despesas que não poderiam mesmo ser realizadas nesse ano fiscal. Sim, em grande medida o governo está sinalizando que quer diminuir o estoque dos restos a pagar. O que os fiscalistas estão chamando de ‘maquiagem’, certos esquerdistas chamam de ‘política neoliberal’.”

qui – 10/03 – “A embaixadora do Brasil na ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, acredita que o aumento da visão positiva sobre o país no exterior – registrado em pesquisa da agência britânica de notícias BBC – se deva a fatores como o papel de interlocutor que o país assumiu no cenário internacional, à redução da pobreza e ao fato de uma mulher ter sido eleita presidenta. De acordo com a embaixadora, o Brasil se firmou como voz no cenário internacional, particularmente em momentos de crises como o que abala o Oriente Médio e o norte da África”, registrou o diário Correio do Brasil. Por sua vez, e segundo o mesmo diário, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, afirmou que a melhora na avaliação sobre a influência do Brasil no mundo, verificada nessa pesquisa, se deve ao modo com que o país se relaciona com as outras nações e à aprovação do modelo de desenvolvimento brasileiro, “um modelo que associa democracia com crescimento inclusivo, geração de emprego e também uma forma de interagir com o resto do mundo, que é baseada em soluções diplomáticas para problemas, cooperação para reduzir a fome e a pobreza e para criar mais mecanismos democráticos a fim de lidar com questões globais”, disse. Segundo o ministro, nos últimos anos, o Brasil estabeleceu como prioridade “comunicar-se com o mundo”. Essa postura implicou a abertura de embaixadas em vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia Central, regiões onde a diplomacia ampliou sua atuação. De acordo com o Itamaraty, 52 missões brasileiras foram abertas nos últimos oito anos. Como resultado, hoje o Brasil mantém relações diplomáticas com 191 dos 192 países-membros da ONU.

sex – 11/03 – Conforme anunciou o blog do Planalto, “o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) lançou editais para ampliar o número de Bancos de Alimentos, Cozinhas Comunitárias e Restaurantes Populares – unidades que fazem parte da rede de equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional – em todo o país. A ampliação contribui no sentido de fortalecer o enfrentamento à extrema pobreza e promover a segurança alimentar e nutricional e a inclusão produtiva das famílias do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, como explica o Diretor da Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Crispim Moreira: ‘O benefício é uma refeição saudável que vai promover a saúde daquele trabalhador, que vai ter condições de melhor produzir, auferir renda a partir do seu trabalho, possibilitar que os trabalhadores possam, por exemplo, além de fazer as suas refeições, diminuir os custos que eles têm com alimentação fora do domicílio. Serão investidos pelo governo federal R$ 11 milhões em Restaurantes Populares, R$ 4,5 milhões nos Bancos de Alimentos e R$ 14,6 milhões nas Cozinhas Comunitárias. Esses valores serão utilizados na construção dos prédios, aquisição de equipamentos, móveis e utensílios, com objetivo de incentivar, além do fornecimento de refeições, atividades de formação e qualificação profissional na área de alimentação, nutrição e gastronomia junto aos beneficiários do Cadastro Único. A manutenção e a gestão desses equipamentos serão de responsabilidade das prefeituras ou dos governos estaduais.”

Já há quem faça prognósticos de que o troféu “ministério problema” dos primeiros 100 dias do governo Dilma dificilmente escapará das mãos do MinC (Ministério da Cultura). Quem observa dessa maneira é Renato Rovai que em seu blog ainda comenta: “Na bancada de deputados petistas, há uma insatisfação quase generalizada com as ações do ministério; na blogosfera, o MinC se tornou pauta negativa todos os dias; nos movimentos sociais, que têm atuação relevante na área, há uma crise instalada por conta dos sinais que vêm sendo emitidos em relação às novas políticas para os Pontos de Cultura; entre os intelectuais que apoiaram Dilma, a decepção com a nova agenda tem levado alguns a dizer que vão desembarcar do apoio ao governo, inclusive a criação de um manifesto demonstrando publicamente a insatisfação começa a ser articulado.” Essa impressão ganhou reforço, ainda segundo Rovai, depois “da decisão da ministra de não mais indicar o sociólogo Emir Sader para a presidência da Casa Rui Barbosa.”

Antonio Fernando

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