Os cem primeiros dias do governo Dilma – 15ª parte

De 12 a 16/03/2011

sab – 12/03 – Ontem, antes da reunião da presidenta Dilma Rousseff com as centrais sindicais, o senador Paulo Paim (PT-RS) conversou com os sindicalistas e com o secretário-geral da Presdência, Gilberto Carvalho. Na tribuna do Senado, ele relatou um ponto que passou despercebido pelo noticiário: o Palácio do Planalto, aparentemente quer colocar na mesma mesa de negociação dois temas decisivos para a criação de empregos: a desoneração da folha de pagamentos das empresas, que é muito bem recebida pelos empregadores, mas não é vista com bons olhos pelos sindicatos dos trabalhadores e a diminuição da jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40 horas, que é uma reivindicação das centrais sindicais, mas não é bem aceita pelo empresariado. A união dessas duas propostas pode diminuir resistências de parte a parte.

dom – 13/03 – Segundo Valdemar Menezes, do diário O Povo – on line, de Fortaleza, “houve muxoxos em certos segmentos conservadores pelo fato de a presidente Dilma Rousseff ter regulamentado a lei que prevê a participação de representantes dos funcionários nos conselhos de administração das empresas públicas, sociedades de economia mista e suas subsidiárias que tenham mais de 200 empregados e, nas quais, a União ( direta ou indiretamente) detenha a maioria do capital social com direito a voto. Nada mais justo, já que é a força do trabalho que consegue viabilizar os objetivos da empresa. Isso causa arrepios nos que veem perigo nas entidades dos trabalhadores. E assim volta a velha cantilena preconceituosa sobre a ‘república sindicalista’. Para construir uma sociedade em bases social-democráticas (parâmetro de sistema minimamente aceitável por alguém dotado de alguma sensibilidade humana e social), é preciso que o poder seja exercido com ampla participação dos trabalhadores. O Brasil, no entanto, é um daqueles países em que o partido que se reivindica social-democrata não tem trabalhadores. Só patrões.”

seg – 14/03 – Eduardo Guimarães, em seu blog, comentando matéria de 09/03, publicada em O Globo, “um dos três jornais que jogaram o país na ditadura” militar de 1964, matéria essa que “dava conta de que ‘as Forças armadas’ teriam feito ‘pesadas críticas’ à proposta do Poder Executivo de criar a Comissão Nacional da Verdade, que se pretende que investigue o sumiço de cidadãos brasileiros e outras barbaridades cometidas pela ditadura militar”, ressalta a nota publicada pelo “Ministério da Defesa que desmente a matéria”. Segundo a nota, “o texto a que se refere a reportagem de O Globo não foi encaminhado ao Ministério da Defesa no mês passado, como menciona a reportagem. Os trechos constantes da matéria são, na verdade, retirados de informação enviada pelo Exército à Assessoria Parlamentar do Ministério da Defesa no mês de setembro de 2010”. Além de mais essa “barrigada” do jornal, Eduardo Guimarães destaca: “Tenho reclamado, não da postura do ministro Nelson Jobim, mas da produção dessas absurdas notas de chefes militares. Em primeiro lugar, se fosse verdade que os criminosos e vítimas da ditadura estivessem todos “mortos” e que as “provas” tivessem se “perdido no tempo”, qual seria o problema de instalar a Comissão da Verdade? É claro como água que se trata de uma balela. Não são as Forças Armadas que serão investigadas. Serão investigados os membros delas que, no passado, cometeram crimes de assassinato e de tortura, no mínimo. E que sumiram com os corpos de suas vítimas, cometendo crime de ocultação de cadáver.” E conclui de forma definitiva: “Militar não tem o que querer. Já expliquei que os chefes das três Forças (Exército, Marinha e Aeronáutica) são SUBORDINADOS à Presidência da República. As Forças Armadas não têm direito a liberdade de expressão. Estão subordinadas a um governo e o chefe de uma delas que divergir publicamente desse governo deve ser demitido. É assim que funciona DENTRO das Forças Armadas. Nenhum subordinado pode questionar publicamente o superior.”

ter – 15/03 – Antonio Lassance, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professor de Ciência Política escreveu na Carta Maior no dia 19/02 a Crônica de uma visita anunciada, referindo-se à visita de Obama ao Brasil daqui a dois dias. “O que vem ele fazer por aqui? Encontrar-se com nossa presidenta, Dilma Rousseff, proferir discursos (um dos esportes favoritos de Obama), acenar boas intenções, distribuir sorrisos, visitar comunidades. Quem sabe, vestir a camisa de algum de nossos times de futebol ou da Seleção Brasileira, e declarar seu amor pelo Brasil.” E prossegue: “Obama vem fazer, sobretudo, diplomacia presidencial. Diplomacia presidencial é quando um presidente, ou presidenta, em consonância com sua política externa, entra em campo e joga o jogo em meio a seus diplomatas, claro que com destaque especial. Algo parecido com o que Zico fazia no Sumimoto, time japonês que depois ganharia o nome de Kashima Antlers.” (…) “O Brasil começou a trilhar os passos de uma diplomacia presidencial mais proeminente com o Presidente Lula, e tem tudo para avançar durante o governo Dilma. Mais uma vez, cabe o ‘nunca antes na história desse país’. O Brasil vive um novo momento. Abriu espaços consideráveis no cenário internacional. Tal protagonismo é benéfico para os esforços de paz, a diminuição da assimetria econômica entre os países, a prevalência do diálogo, em relação às sanções e retaliações.” (…)

“Muitos ainda não percebem que os EUA estão lutando para não ficar para trás, com o avanço da China. Ficar para trás é algo que já aconteceu para os EUA no Brasil, desde que a China se tornou nossa principal parceira comercial. Além disso, como lembrou Lula recentemente, os EUA ‘terceirizaram’ sua política externa neste continente, deixando-a a cargo de uma diplomacia subalterna e despreparada, cujo nível foi exposto pelos vazamentos de informações do Wikileaks. Obama vem ao Brasil ciente desse contexto. É disso que se trata. Ele vem para acertar maneiras de diminuir o prejuízo que os EUA têm acumulado por conta de uma política desastrosa, pavimentada por governos anteriores, mas que ele mesmo ainda não mostrou sinais de que irá reverter.A cordialidade brasileira, embora seja a mesma que Lula dispensou a Bush, já tem sido levada à praça da apoteose como um desfile para marcar que a fase de atrito entre Brasil e EUA é página virada. Pode ser que sim. O que não se diz é que o atrito faz parte do jogo de uma política internacional soberana. Os que são acometidos pelo complexo de vira-latas (para lembrar Nélson Rodrigues mais uma vez) vão se comportar, claro, como cachorro em frente ao açougue.”

“Os adeptos da política de ‘o que é bom para os EUA é bom para o Brasil’ já devem ter pré-fabricados seus comentários sobre o sucesso da visita e sobre as diferenças em relação ao governo Lula. Já percebemos seu empenho na tentativa de desconstruir a imagem de Lula e diferenciá-lo do governo Dilma. Mesmo a emblemática visita da presidenta à Argentina, reafirmando os fundamentos de oito anos de política externa brasileira, parece não ter importado aos olhos e ouvidos dos que têm por estratégia descolar a presidenta de tudo o que ela representa, de modo a esvaziar o capital político que foi decisivo em sua campanha eleitoral (o discurso da continuidade das mudanças). Sejamos sempre cordiais, mas tenhamos clareza do jogo que está sendo jogado.”

qua – 16/03 – A presidenta Dilma Rousseff e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, mantiveram entendimentos sobre investimentos em obras de infraestrutura naquele estado durante audiência, nesta quarta-feira, no Palácio do Planalto. Alckmin contou que na conversa solicitou recursos da União para a conclusão do rodoanel metropolitano, com 170 quilômetros de extensão ligando o Aeroporto Internacional de Cumbica ao Porto de Santos. Segundo o governador, falta apenas licitar as obras da parte norte do rodoanel, fato este que deve acontecer em junho deste ano, segundo o blog do Planlato. “As obras devem estar concluídas em quatro anos com orçamento de R$ 4,5 bilhões”, disse Alckmin ao explicar que um terço do valor estará a cargo do governo federal. Ainda segundo o mesmo blog, “o governador iniciou a conversa com os jornalistas informando que o encontro ‘foi propositivo’ e serviu para estabelecer parcerias entre os governos. Alckmin explicou que, embora seja de um partido político da oposição ao governo federal, quando se trata do interesse do estado de São Paulo não haveria motivos para tratamento desigual aos governadores aliados ao Palácio do Planalto. Além disso, conforme explicou, a presidenta Dilma Rousseff ‘tem preocupação com questões de logísticas’ e ‘por este motivo conversamos sobre hidrovias, ferrovias e rodovia’.”

Hoje completam-se 75 dias do governo Dilma, ou seja, faltam apenas 25, para que se feche o ciclo dos “100 Primeiros Dias”. Dá pra imaginar como anda o “frisson” nas redações da imprensa-oposição, cada uma empenhada em descobrir o fato ou ângulo mais adequado para expor sua versão do desastre que se aproxima baseada apenas num período que, no máximo, “pode mostrar seu caráter, mas não significa êxito ou malogro do mandato,” como nos assegura Mauro Santayana. No último dia 04/03, num artigo postado na seção Tendências / Debates, da Folha, o professor e historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos, já anunciou o tom do desfecho intitulando o tal artigo como: “Governo Dilma não tem vida própria”. Foi quando, pegando carona num texto do Luis Nassif, comentei que, o que o Villa precisa compreender, é que sem a envergadura de um Mário Covas, a gestão Serra foi uma das mais pífias da história moderna de São Paulo, dizem até que mais medíocre e desmobilizadora do que a de Fleury. Daí porque não é conveniente para o Alckmin – embora do mesmo partido – falar em continuidade da administração Serra. Ora, isso tudo, esse comportamento de “não te conheço” direcionado ao antecessor, está longe de se parecer com o governo Dilma. Portanto quando ele afirma – e ainda dá título ao artigo – que o governo dela não tem vida própria por se tratar de uma mera continuição do anterior, revela-nos que ainda não conseguiu entender o novo país que surgiu dos oito anos de Lula, e que, por conta disso, Dilma veio sim, para dar continuidade a esse projeto, tão real e brilhante que seu autor o deixou com quase 90% de aprovação popular. Essa é a luz a ser levada adiante, a de um projeto de nação, não a própria da governante de plantão, como se ela fosse um destaque luminoso de escola de samba, como, meio confuso, aparentemente almeja o historiador e professor Villa em seu artigo.

Antonio Fernando

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