A arte da distorção

 

Nosso atento colaborador, Antonio Fernando Araujo,  contesta coluna de Clovis Rossi intitulada ‘A covarde omissão do Brasil’ publicada naquele jornal paulista em 19 do corrente. Pesquisa no Google, com esse título entre aspas, dará ao leitor oportunidade para verificar o grau de servilismo e a habilidade contorcionista do funcionário do jornal. Claro, se as prezadas leitoras e leitores temem ataque de azia, será bem melhor ler o texto de Antonio Fernando.
Edemar.

Comento o texto do Clóvis Rossi começando pela “independência” que, a rigor, não deve ser medida pelo tanto que os autores “batem” nos governantes, mas sim em que medida se tornaram “paus mandados” dos patrões. Que o digam Veríssimo e a Zero Hora quando ele, em 2002, declarou voto ao Lula, Maria Rita Kehl, do “Estadão”, pelo que ela mesma denominou de “delito de opinião”, por ter criticado em seu artigo semanal (out/2010) a desqualificação que se fazia do voto dos pobres na eleição passada, o jornalista Dalwton Moura, da editoria do Caderno 3 do Diário do Nordeste, por publicar uma entrevista com o sociólogo Michael Löwy, marxista contemporâneo, que estava, em out/2010, em Fortaleza proferindo palestra sobre as Revoluções dos séculos XIX e XX, num momento político em que vivíamos a possibilidade de eleição de uma ex-presa política, dentro da estrutura de repressão do pensamento contrário, o jornalista Heródoto Barbeiro, então âncora do Programa Roda Viva, da TV Cultura, quando, numa série de entrevistas que estavam sendo realizadas com os presidenciáveis de 2010, resolveu questionar José Serra sobre a fabulosa soma financeira arrecadada com os pedágios nas estradas paulistas, o Gabriel Priolli, outro renomado jornalista daquela rede de tv, quando resolveu entrar na mesma contenda junto à equipe de redação do Jornal da Cultura e recebeu o mesmo tratamento dispensado a seu colega de profissão e emissora: todos demitidos. Criticar o Governo Lula podia. Fazer o mesmo com Serra e o demotucanato não. Isso tudo vale também para Minas Gerais, berço esplêndido do bom moço Aécio Neves, onde jornalistas sérios, mas insatisfeitos com as relações entre seus chefes e os mandatários da política local, produziram um documentário distribuído no Reino Unido e nos Estado Unidos (“Censurados no Brasil”), onde desmascaram com contundência a produção de matérias e reportagens que beneficiam o neto de Tancredo e põem em xeque a imagem do garoto propaganda da social-democracia brasileira. Não se surpreenda entretanto se você perceber essa mesma mídia fornecendo benevolente uma “folha de parreira”, ou seja, um pequeno e controlado espaço à opinião divergente ou contrária à linha da empresa. Às vezes, não dá certo, como foi o caso de todos esses citados acima, quando fica muito evidente que uma vigorosa voz destoante no coral do “sim senhor” não pode ser suportada pelo barões.

Sobre a tese de que “a força não é o melhor instrumento nas relações internacionais”, como escreve o Rossi, saiba que o Brasil não está sozinho nisso. Compartilham dela China, Índia, Turquia, entre outros. Nessa ótica e num movimento típico da diplomacia internacional, o BRIC em conjunto decidiu optar pela abstenção. Carregado de simbolismo essa votação deixou entrever que os países que se abstiveram e demonstraram preocupação com a ação, foram os emergentes membros permanentes e nações pleiteantes, como a Alemanha. Talvez o Rossi devesse saber que são nestas manifestações que se desenha o novo mapa geoestratégico global e brotam as dinâmicas de poder do século XXI, tão
significativas que motivam até as viagens de Obama e suas declarações de igualdade com seus parceiros. Das duas, uma: ou o Rossi nada percebeu desse “arranjo” ou agiu de má-fé ao apontar como “covarde” e “vergonhosa” a posição do Brasil e, por tabela, a do BRIC. Talvez o mais adequado para a aplicação desses adjetivos foi sua confissão de que ele defende uma ética e uma moral específica e adequada à academia e outra bem diferente – oposta até – quando tiver que lidar com alguém que não reza exatamente com a sua ou com a cartilha dos patrões. E aí se explicam essas demissões sumárias citadas acima.

Quando Mubarack contratou mercenários e, com camelos e cavalos, avançou, feriu e matou rebeldes egípcios o Rossi escreveu uma linha sequer contra isso? Que eu saiba, não. Mubarack era (era?) um ditador, porém amigo dos americanos, portanto árabe moderado. Os revoltosos da Líbia exibem armamento pesado e ares de mercenários (quem os está municiando?). Os do Egito não dispuseram desses engenhos. A mesma pergunta faço, referindo-me agora aos do Bahrein, Yemen e ao saudita Abdulah, da Arábia, inimigo figadal de Kadafi. Quando o Rossi escreverá algumas linhas contra esses que também ferem e matam a população civil dos seus reinos sempre que estas esboçam qualquer movimento de oposição, como agora. Contra Israel e os massacres da população civil da Palestina, contra os EEUU, idem, idem no Iraque, na Somália e no Afganistão e por aí mundo afora. Custo a crer que o Rossi não saiba nada disso, porém ousar escrever e denunciar, precisaria que ele estivesse disposto a arriscar o pescoço, como os citados acima, e ainda não estar nem um tiquinho que seja, municiado da mesma “covardia” e vergonha” que ele tenta impingir à diplomacia brasileira.

Para finalizar, Kadafi errou feio quando confiou no Ocidente. Nessa ocasião não lhe faltaram afagos desses que ora bombardeiam sua miragem beduína do poder eterno. Dos árabes é o único que, em parte, direcionou a riqueza advinda do petróleo para beneficiar seu povo (o IDH da Líbia é o mais alto da África e um dos maiores do mundo árabe). Para isso teve que nacionalizá-lo. Entretanto, em termos políticos, virou as costas para os palestinos e logo se tornou um ambicioso facínora (é sócio de metade da Itália, de vinhedos à fábrica de automóveis), nem melhor, nem pior do que os dos demais reinos arquibilionários árabes. Se os EEUU querem derrubá-lo (e, a rigor, ele bem que merece) então que derrube todos eles, a começar pelo Abdulah…, onde o furo é mais em cima…, e aí vai encarar? Assim, o Rossi encontrará farto material sobre o tema “covardia e vergonha”, adornando-o ainda com vastas pitadas de “oportunismo”, “colonialismo”, “ambição desmedida” e “como se apoderar das riquezas de outros povos, fazendo de conta que os estão defendendo” dos “terroristas” do Bin Laden ou, como no caso da Líbia, de ditadores hostís.

Antonio Fernando

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