Os cem primeiros dias do governo Dilma – 16ª parte

De 17 a 21/03/2011

qui – 17/03 – Segundo a jornalista Azelma Rodrigues, da revista Valor Online, o Brasil registrou em fevereiro passado 280.799 novo empregos formais, nível recorde para o mês conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado pelo Ministério do Trabalho. No mês passado, todos os 8 setores da atividade econômica registraram expansão no emprego, sendo que serviços (+134.342 vagas) e indústria extrativa mineral (+1.713) verificaram recordes para fevereiro. Destaque ainda para indústria de transformação (+60.098) e construção civil (+30.701). “A expansão de empregos é generalizada também entre os 25 subsetores da atividade econômica, com 10 deles registrando recordes e quatro deles com o segundo melhor desempenho para o mês. Todas as cinco regiões brasileiras tiveram saldo recorde em fevereiro, sendo a geração de empregos puxada pelo Sudeste, que abriu 165.523 postos. Em termos relativos, o maior crescimento foi registrado no Centro-Oeste, com elevação de 1,21% no estoque de trabalhadores com carteira assinada. Entre as 27 Unidades da Federação, quinze mostraram saldos recordes e quatro apontaram o segundo melhor resultado para o período.”

Segundo Altamiro Borges em seu blog, “em reunião realizada ontem (16/03) na sala da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, sob o comando do deputado Emiliano José (PT), foi aprovado o lançamento oficial, em 19 de abril próximo, da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular. Com a presença de várias entidades da sociedade civil, a reunião também fez um balanço das adesões à proposta de criação da frente. Até ontem, 94 parlamentares já tinham assinado a solicitação – incluindo integrantes do PT, PSB, PDT, PCdoB, PSOL e também do PMDB, PV, PSDB, DEM, entre outros partidos. Pelo regimento interno da Câmara Federal, são necessárias 171 assinaturas para formalizar uma frente parlamentar. O lançamento oficial tende a ser a mais importante iniciativa nesta frente estratégica de luta após a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em dezembro de 2009. Esta é a bola da vez para quem encara a luta pela democratização da comunicação como estratégica. A batalha pela regulação da mídia é dificílima. Os barões da mídia inclusive já se movimentam para sabotar a frente parlamentar. O desafio está lançado!”, finaliza Altamiro.

sex – 18/03 – A passagem do presidente Obama pelo Brasil, no cenário desses “100 Dias” tem e terá um significado especial no médio/longo prazo do governo Dilma. Entre as inúmeras postagens que pontificaram entre os blogueiros sobre esse evento destaco duas, pelo tom mais equilibrado que exibiram. Primeiro a do blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães e, em seguida, a do blog Gonzum, de Miguel do Rosário. Tais postagens, além da visita em sí, deram ensejo a que muitos outros blogueiros comentassem a visita de Obama em tons políticos ou raivosos e que variaram desde a mais contundente repulsa à expressões de apoio visivelmente ponderadas ou explicitamente bajuladoras.

“Yankees go home! Fora, Obama! Nos últimos dias, senti-me de volta aos anos 1960 ou 1970, quando o poder norte-americano nos mantinha de joelhos diante de uma ditadura sangrenta. De lá (segunda metade do século XX) para cá, porém, a relação dos Estados Unidos com o Brasil e a própria realidade entre os países mudou muito. (…) O tempo em que os norte-americanos vinham aqui nos passar rasteira e deixávamos, pertence a outra época. Uma época que, graças a Deus, não existe mais. Hoje, temos condições de tratar com eles de igual para igual. Obama veio ao Brasil justamente para nos convencer a fazer menos negócios com a China e mais com seu país. Não creio que conseguirá tudo, mas podemos negociar alguma coisa com ele.” (Cidadania)

“Não tenho a menor dúvida em afirmar que a esmagadora maioria dos brasileiros apóia que ao menos negociemos, porém sempre em pé de igualdade. (…) Não divirjo de ninguém que quer protestar, mas não é hora de discursos beligerantes contra os Estados Unidos. Quem detonou o cocktail molotov diante da embaixada norte-americana cometeu um ato de terrorismo. Talvez até tenha sido a direita, aproveitando-se do ato da esquerda para desmoralizá-la e caracterizá-la como violenta. Ou até algum esquerdista debilóide que acha que atos de violência servem a algum propósito. (…) O fato é que o brasileiro médio está achando é muito bom que este país tenha se tornado tão importante como potência econômica a ponto de o presidente dos Estados Unidos vir aqui tentar aumentar os negócios conosco. Duvido de que a maioria esmagadora dos brasileiros apóie que espantemos Obama daqui. (…) Não recrimino ninguém. Acho que não faltam razões para protestar contra os Estados Unidos e até para criticar Obama por sua tibieza.” (Cidadania)

“Ao contrário da grande maioria da blogosfera, eu estava achando ótimo que Obama fizesse um discurso na Cinelândia. (…) Eu estava afim de ir lá e ouvir o negão que, apesar das decepções, ainda admiro como símbolo da luta contra o ultra-conservadorismo americano. Também me decepcionei com Obama. Mas continuo o apoiando por entender a batalha ideológica sinistra em que ele está envolvido, e que, lamentavelmente, vem perdendo. (…) Acho que as pessoas não entendem o papel que o novo presidente estadunidense representa na geopolítica mundial. Em primeiro lugar, ele não foi responsável por nenhuma das cagadas nas quais os EUA atolaram-se nos últimos anos. Obama foi uma das raras vozes democratas que se levantaram duramente contra a invasão americana no Iraque. Sei que é meio difícil entender, mas nos EUA o Obama é de esquerda. Mesmo que a própria esquerda americana esteja um tanto confusa com os sinais dúbios emitidos pela Casa Branca, ela não deixará de o apoiar no ano que vem, ainda mais porque os republicanos devem vir com um discurso mais reacionário do que nunca.” (Gonzum)

“Tenho plena consciência do papel nefasto que os EUA desempenharam na história da América Latina, mas quero acreditar que os valores que permitiram a eleição de Obama significam o começo do fim dessa mentalidade imperialista, ou pelo menos o começo de uma tomada de consciência. (…) O antiamericanismo, que se mostrou bastante vivo durante os debates travados na blogosfera nos últimos dias, revelou, a meu ver, insegurança e baixo autoestima – e um tanto de ignorância sobre as oportunidades que se abrem para o Brasil, se souber aproveitar sua nova posição no mundo para estabelecer uma parceria soberana e estratégica com a potência do norte. Os EUA não são apenas o país que patrocinou golpes e invadiu países. É também a nação que assistiu grandes manifestações de protesto contra esses mesmos golpes e essas guerras. Os americanos escreveram livros contra guerra, fizeram filmes, e lutam até hoje …contra um conservadorismo louco e bilionário, que controla boa parte dos meios de comunicação e a totalidade da indústria bélica. Eles são imperialistas, mas abrigam também um grande movimento anti-imperialista, a começar por um dos maiores pensadores libertários do planeta, Noam Chomsky, que há 30 anos vem denunciando a ditadura ideológica da mídia norte-americana.” (Gonzum)

“Uma outra confusão que vem se formando é a de que a política externa de Dilma estaria se afastando dos rumos traçados pela administração anterior. Lula nunca foi anti-americano. Ao contrário, foi lá abraçar amistosamente o Bush e sempre cultivou relações cordiais com os EUA. (…) … o Brasil pode condenar o Irã, assim como pode condenar também a Arábia Saudita, países africanos e os EUA. O governo brasileiro tem obrigação de fazer aliança com os EUA para o bem do povo, sem preconceitos tolos de esquerdista aposentado de classe média, pois estamos diante da maior potência tecnológica do planeta. A cultura norte-americana, no campo da música, da literatura, das ciências, da tecnologia, é algo assombroso, e respeitar essa grandeza não é subserviência. É sabedoria. (…) Obama é convidado de honra da petista Dilma. Protestar contra ele no Rio, por parte do PT (não dos movimentos sociais, esses podem protestar à vontade) seria apenas demagogia e incoerência.” (Gonzum)

Por outro lado e com o foco direcionado para a incoveniência do lugar escolhido para um “comício” do presidente Obama, o jornalista Mauro Santayana escreveu no JB Online: “O Rio de Janeiro é uma cidade singular, que, desde a noite das garrafadas, em 13 de março de 1831, costuma desatar seu inconformismo em protestos fortes. A Cinelândia, como outros já apontaram, é o local em que as tropas revolucionárias de 1930, chefiadas por Getúlio Vargas, amarraram seus cavalos no obelisco então ali existente. Depois do fim do Estado Novo, foi o lugar preferido das forças políticas nacionalistas e de esquerda, para os grandes comícios. A Cinelândia assistiu, da mesma forma, aos protestos históricos do povo carioca, quando do assassinato do estudante Edson Luis, ocorrido também em março (1968). Da Cinelândia partiu a passeata dos cem mil, no grande ato contra a ditadura militar, em 26 de junho do mesmo ano. Não é, convenhamos, lugar politicamente adequado para o pronunciamento público do presidente dos Estados Unidos. É ingenuidade não esperar manifestações de descontentamento contra a visita de Obama. Além disso – e é o mais grave – será difícil impedir que agentes provocadores, destacados pela extrema-direita dos Estados Unidos, atuem, a fim de criar perigosos incidentes durante o ato. Outra questão importante: a segurança mais próxima do presidente Obama será exercida por agentes norte-americanos, como é natural nessas visitas. Se houver qualquer incidente entre um guarda-costas de Obama e um cidadão brasileiro, as conseqüências serão inimagináveis.”

sab – 19/03 – O que a sra. [presidenta Dilma] espera de fato dessa visita [de Obama]? Essa pergunta foi formulada pela jornalista Claudia Safatle, da revista Valor on line, por conta de uma longa entrevista anteontem dada a ela por Dilma: “Acho que tanto para nós quanto para os Estados Unidos o grande sumo disso tudo, o que fica, é a progressiva consciência de que o Brasil é um país que assumiu seu papel internacional e que pode, pelos seus vínculos históricos com os Estados Unidos e por estarmos na mesma região, ser um parceiro importantíssimo. Isso a gente constrói. Agora, essa consciência é importante. Nós não somos mais um país da época da “Aliança para o Progresso”, um país que precisa desse tipo de ajuda. Não que a Aliança para o Progresso não tenha tido seus méritos, agora não é isso mais que o Brasil é. O Brasil é um país que os EUA tem que olhar de forma muito circunstanciada.”

“O que nos aproxima da Índia, da Rússia e da China, os Bric, prosseguiu Dilma, não é tanto o fato de sermos emergentes.” O que é? perguntou Valor. “É o fato de que países que têm a oportunidade histórica de dar um salto para a frente, países continentais com toda a sorte de riquezas, quando sua população desperta e passa a incorporar o mercado, isso acelera o crescimento. É o que explica que o nosso crescimento pode ser maior do que o crescimento dos países desenvolvidos. Outro fator é se conseguirmos criar massivamente um processo de educação em todos os níveis para a população, e formação de pessoas ligadas à ciência e tecnologia que permita que o país comece a gerar inovação. Essas três coisas explicam muito os Estados Unidos e é nelas que temos que apostar para o Brasil dar um salto. Nós temos hoje uma janela de oportunidade única. Além disso temos petróleo, biocombustível, hidrelétrica, minério e somos uma potência alimentar. Não queremos ser só “commoditizados”. Queremos agregar valor. Por isso insistimos em parcerias estratégicas com outros países. Agora mesmo vamos propor uma para os Estados Unidos”, respondeu Dilma.

E mais: “Que outro país no mundo tem a reserva de petróleo que temos, que não tem guerra, não tem conflito étnico, respeita contratos, tem princípios democráticos extremamente claros e uma forma de visão do mundo tão generosa e pró-paz? Uma questão é fundamental: um país democrático ocidental como nós tem que ser um país que tenha perfeita consciência da questão dos direitos humanos. E isso vale para todos. Se não concordo com o apedrejamento de mulheres, eu também não posso concordar com gente presa a vida inteira sem julgamento (como na base de Guantânamo). Isso vale para o Irã, vale para os Estados Unidos e vale para o Brasil. Também não posso dar uma de bacana e achar que o Brasil pode ficar dando cartas e não olhar para suas próprias mazelas, para o seu sistema carcerário, por exemplo, sua política com relação aos presos. E isso chega ao direito de uma criança comer, das pessoas estudarem. Isso é direito humano. Mas é também, no sentido amplo da palavra, o respeito à liberdade, a capacidade de conviver com as diferenças, a tolerância. Um país com as raízes culturais que nós temos, que tem uma cultura tão múltipla, e que tem esse gosto pelo consenso, pela conversa, tudo isso caracteriza uma contribuição que o Brasil pode dar para a construção da paz no mundo. Acho que o mundo nos vê como um país amigável.”

dom – 20/03 – Ainda sobre a entrevista que Dilma concedeu à jornalista Claudia Safatle para revista Valor: “Se o mercado, com suas boas ou más intenções, considera a gestão de Alexandre Tombini, no Banco Central ‘dovish’ – frouxa como um pombo, em contraposição a ‘hawkish’, duro como um falcão – Dilma, ri e prontamente responde: ‘Eu sou uma arara’.” Foi assim que Paulo Henrique Amorim, em seu blog, procura dar destaque à adoção das chamadas “medidas macroprudenciais”, aquelas as quais o Banco Central recorre para controlar inflação, como por exemplo, aumento do compulsório dos bancos e da exigência de capital para empréstimo ao consumo de prazo maior, escapando assim de apelar apenas para o crescimento dos juros da taxa Selic. E conclui: “É o óbvio. Assim se faz desde que inventaram o dinheiro e os bancos, em Florença.” E anuncia: “O Tombini vai acabar também com o ‘Grupo dos Cem’, os felizardos que determinam a taxa de inflação – e, logo, dos juros – através da pesquisa Focus. Os ‘Cem’ poderão ser uns trezentos a dar palpite. Ou seja, dilui a força da tijolada, da pressão. Daí, a ofensiva do ‘mercado’ para fritar o Tombini.”

seg – 21/03 – Sábado, dia 19/03, “ao fazer uma declaração conjunta, ao lado do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a presidenta Dilma Rousseff afirmou que a tradição pacífica do Brasil credencia o país a participar de uma necessária reforma na Organização das Nações Unidas (ONU). A reforma mencionada pela presidenta refere-se a uma maior participação dos países emergentes, como o Brasil, no Conselho de Segurança da Organização”, conforme nota da Agência Brasil, reproduzida pelo Correio do Brasil. E prosseguiu: “Esse país tem compromisso com a paz, com a democracia e com o consenso. Esse compromisso não é algo conjuntural, mas é integrante dos nossos valores: tolerância, diálogo, flexibilidade. Temos orgulho de viver em paz com os nossos dez vizinhos há mais de um século” – disse a presidenta, que citou a atuação do Brasil para consolidar no continente a União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Dilma informou ao presidente sobre o tratado de constituição da Unasul que entrou em vigor nesta semana e disse que o país está “empenhado” na consolidação da instituição no continente, “em um enredo de paz, segurança e democracia, cooperação e crescimento com justiça social. Nesse ambiente é que devem frutificar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos”, disse a presidenta na declaração conjunta no Palácio do Planalto.

Ao falar das relações que pretende estabelecer com o governo dos Estados Unidos, Dilma ressaltou que espera que seja uma “relação entre iguais (…) por mais distintos que sejam esses países em território, população, capacidade produtiva e poderio militar. Somos um país de dimensões continentais, que trilham o caminho da democracia. Somos multiétnicos e em nosso território convivem distintas e ricas culturas, cada um à sua maneira” – afirmou.

Antonio Fernando

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