Um olhar sobre a mídia nos 100 primeiros dias de Dilma

O mestre Mauro Santayana garante que os “100 Dias” é uma invenção de Napoleão e não de Wall Street. E que, na verdade, os “100 Dias de Napoleão” não seriam exatamente 100, pois contados de 1º de março, seu retorno à França depois de fugir de Elba, a 22 de junho de 1815, ao abdicar do trono pela segunda vez, seriam 114. Ainda assim, cá entre nós, houve jornalista que apreciou os “100 Dias da Dilma” quando mal o governo havia completado três meses. Certo é que dez ou quinze dias não fazem diferença alguma. Da mesma forma que, ainda que valendo-se de evocações e miragens, 100 dias pouco ou nada significam em um governo de 4 anos. Todavia e ao longo das décadas esses “100 Dias” acabaram por se tornar uma espécie de “tempo litúrgico”, algo protocolar que a tradição recomenda não se alterar a menos que sobrem razões. Pois não foi esse um dos pecados que, em várias ocasiões, Lula cometeu? Aos olhos de alguns colunistas, o ex-presidente era useiro e vezeiro em macular a “liturgia” (do cargo, claro), para horror dos puristas que precisavam recorrer à aparência de espantalhos quando escasseavam fatos e razões para rechear suas teses detratoras ou até mesmo no exercício de uma crítica menos perversa e com mais tutano.

Quero aqui e modestamente dar ênfase ao papel da mídia nesses cem dias, essa mesma mídia que parece não saber mais distinguir até onde vai a militância política na imprensa e onde começa o verdadeiro trabalho dos jornalistas. Nos 20 posts que, no suceder das semanas, enderecei aos blogs http://www.aposentadodesconfiado.wordpress.com, http://afamaran.zip.net e http://rioblogprog.blogspot.com estão registrados o dia-a-dia da presidenta Dilma, desde 01 de janeiro a 10 de abril deste ano, visto por olhos que não os da velha imprensa empresarial. Lá abordo outros aspectos desse período, como os relacionados com a economia, aqueles de natureza sócio-educacional e assim por diante. Quanto a Lula, sabemos que, nesse período, pretendeu “desencarnar” da presidência, mas acabou que sua sombra permaneceu flutuando sobre os “100 Dias do Governo Dilma”, como se nessa “passagem para o além” fosse possível evitar que um governo que tem a missão da continuidade, agora a partir de um novo patamar, pudesse assim, nesses primeiros cem dias, manter-se ao largo do homem que o concebeu.

E foi com essa cumplicidade de unha e carne que, num primeiro instante, a grande mídia corporativa se deparou. E logo passou a se ocupar, tanto que nos intervalos do primeiro recreio não cansou de apostar quantos e quais dos ministros de Lula, seguiriam com Dilma, impostos pelo poderoso padrinho, segundo aquela, como “cães de guarda”, garantidores do futuro e da lisura da tal continuidade. Nessa ocasião, nenhum colunista lembrou de um gesto de significados mil ocorrido cinco meses antes quando Dilma, já em campanha, aceitou participar do almoço que a sra. Lily Marinho, então viúva de Roberto Marinho, o ex-todo-poderoso da Rede Globo lhe ofereceu. “Nada deve parecer natural”, recomendou Bertold Brecht, ainda assim, nenhum dos grandes veículos foi capaz de perceber que, já desde o primeiro instante, aqueles “novos” ministros deixaram de ser os do Lula e passaram a ser dela, quando, quase que de imediato, absorveram a feição própria de quem entende o advento de uma nova era. Ao contrário, foi daquela maneira, evocando Lula a cada instante e apontando para o que seria uma espécie de ministério-albergue montado por Dilma para alojar fisiologicamente o vasto arco de alianças partidárias, aliás nos mesmos moldes de seu antecessor, que a imprensa hegemônica iniciou pautando os “100 Dias de Dilma”, sem sequer conceder a ela aquele silêncio obsequioso de princípio de mundo, quando a liturgia recomenda aguardar o desabrochar dos primeiros botões. Não havia esperanças de mudanças de rumo, o “poste” se materializara para levar adiante um projeto de país gestado por Lula, cujo traçado nunca foi aceito por ela, a mais fiel intérprete dos conservadores que a utilizam como biombo. Essa constatação levou o escritor e dramaturgo Isaías Almada a anotar, em 14/01: “Tudo indica que a temporada de caça ao governo Lula e agora ao governo Dilma vai continuar por parte da velha mídia”. Para essa mídia inaugurara-se a era do “lulismo sem Lula” e, como tal, cabia-lhe manter-se viva no papel que nos 8 anos anteriores desempenhara com afinco, o de oposição a Lula, alterando-se agora apenas o nome do alvo dos seus ataques.

Mas, surpreendentemente, isso pareceu durar apenas o momento inicial. Algo ocorreu em 16/01, nesse que foi um domingo calorento no Rio de Janeiro, quinze dias após a posse. “Enfrentar os monopólios de comunicação, avançar na integração e aprofundar o debate acerca das alternativas midiáticas brasileiras”, foram os eixos que orientaram mais um debate promovido pelo 13º Conselho Nacional das Entidades de Base (13º CONEB). “Democratização dos meios de comunicação e marco regulatório da mídia no Brasil” foi a mesa que atraiu estudantes de todo o Brasil presentes no auditório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para sustentar o debate, foi convidado um dos personagens centrais dessa luta, o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins. E o que ele disse naquela ocasião, referindo-se especificamente àquilo que, em dezembro/2009 ganhou espaço no debate público nacional com a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom)? “A idéia era deixar para o próximo governo propostas que permitam avançar numa área crucial e enfrentar os desafios e oportunidades abertos pela era digital na comunicação e pela convergência de mídias. Todos os debates sérios revelam que nos países em que houve iniciativas de regular o funcionamento dos meios de comunicação – especialmente os que são objeto de concessão, como as emissoras de rádio e TV –, longe de ameaça à liberdade de expressão, as medidas asseguraram uma mídia mais plural e com maior diversidade”.

Logo perceberam-se que essas falas não eram os únicos sinais, pois no início de novembro/2010, a mesma Secretaria de Comunicação Social, com o intuito de “recolher subsídios” e “qualificar o debate” sobre a regulamentação do uso da tecnologia e sobre o conteúdo no atual contexto de comunicação eletrônica e sociedade de informação, cuidara de realizar, em Brasília, um Seminário Internacional das Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias, com a presença de especialistas das agências reguladoras dos Estados Unidos, da União Europeia e da Argentina. Nessa ocasião, diante de uma plateia de cerca de 300 convidados, entre parlamentares, representantes da sociedade civil e das empresas de comunicação, Franklin Martins destacou a necessidade de se estabelecer novos marcos legais por causa do crescimento do setor de telecomunicações, muito acima da área de difusão. E apresentou números que apontavam que as teles (que já exploram serviço de televisão a cabo e portais na internet) movimentaram, em 2009, R$ 181 bilhões – valor quase 14 vezes maior que o movimentado pelas empresas de radiodifusão (R$ 13 bilhões). E só para lembrar, fez referências às normas contidas no Projeto de Lei da Câmara (PLC) 116 que trata da convergência das telecomunicações com a TV por assinatura, que tramita no Congresso Nacional desde 2007.

Ocorre que, para as grandes empresas de comunicação, “quanto menos legislação melhor”, como afirmou Roberto Civita, presidente do grupo Abril, durante o 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, organizado pelo Instituto Millenium, em março de 2010. Não por acaso, esse dito – que é o mesmo de todos os meios de comunicação nas mãos de grupos empresariais no Brasil -, vai na contramão do que acontece nos países mais avançados e democráticos do mundo. Nem a gestão da ex-ministra da Casa Civil do governo Lula e tampouco a agora presidenta Dilma estavam desatentas a isso tudo. E uma pulga lhe chegou às orelhas quando, em 27/01/2011 o Estadão plantou a notícia de que o governo teria desistido de proibir a propriedade cruzada de meios de comunicação, ou seja, que um único empresário pudesse ser dono de vários tipos de meios de comunicação de massa – rádio, TV, imprensa escrita ou internet, haja vista que ela já havia sinalizado que trataria como prioritárias as mudanças na comunicação e mais, sem se descuidar do fato de que, se for permitido às teles o acesso à teledifusão, terá que equacionar, no interesse do país, o dispositivo legal que veda esse acesso à participação de empresas com mais de 30% de capital estrangeiro. “Estou convencido, prosseguiu o então ministro Franklin Martins, de que a área de comunicação terá, no próximo governo, o mesmo tratamento que teve a energia no governo Lula. Algo estratégico para o crescimento. Ou se produz um novo marco regulatório, ou vamos perder o bonde. E, se não houver o debate, quem vai regular é o mercado. E, quando o mercado regula, quem ganha é o mais forte”. Estava eleito assim, o alvo preferencial, já servido como antepasto no almoço de d. Lily Marinho, para quem quisesse especular e mais tarde conferir.

Era chegada a hora de se repensar a estratégia. Entre outras, barrar o possível acesso das teles – controladas por poderososo grupos empresariais da Espanha e de Portugal -, aos serviços relacionados com os meios de comunicação e imprensa de um modo geral e internet, teledifusão, banda-larga, radiodifusão, etc., em particular, surgia, não apenas como uma necessidade inadiável, mas principalmente pelo que poderiam significar em termos das consequências, desde um estrago de proporções variadas podendo chegar até ao aniquilamento definitivo da velha mídia tupiniquim encastelada há décadas entre as quatro grande famílias midiáticas do Rio e São Paulo e em suas nove sub-famílias ramificadas pelo território nacional.

E aí se deu o início da mutação. Aos poucos Dilma deixava de ser o “poste” e começava a exibir uma luz própria capaz até, quem sabe, de ofuscar a do próprio Lula. Os “acordes de uma orquestrada sucessão de mesuras e rapapés, de elogios quase aclamatórios à candidata eleita, reproduzidos por setores midiáticos que fizeram o possível e o impossível – até com sérios arranhões na ética – para que ela fosse derrotada” foram observados pelo advogado Rodolpho Motta Lima que do blog Direto da Redação registrou ainda que, “quem tivesse saído do Brasil um pouco antes das eleições e apenas agora tivesse retornado ao país teria dificuldade de entender” como aquela mulher “despreparada para governar” é agora possuidora inconteste da “silenciosa sabedoria dos estadistas que muitas vezes faltou ao antecessor; que não é mais a perigosa e sanguinária guerrilheira, mas uma defensora intransigente das liberdades democráticas arranhadas por Lula em posicionamentos anteriores.” E, principalmente, “não é mais uma invenção de Lula, mas a sua negação.” E concluiu: “Em estratégia que acreditam poder dar certo, entoam todos um canto de sereia para atrair a Presidenta. E, é claro, para depois jogá-la às feras.”

E não faltaram aplausos vindos de outros segmentos. Quem testemunhou o início do governo Dilma capturar a simpatia (real ou imaginária, oportunista ou duradoura) de setores dessa mídia apoiados pelos neoliberais, que no campo da macroeconomia aplaudiram, ainda em janeiro, o aumento dos juros da taxa Selic, jornalistas que, diga-se de passagem, estiveram fechados com Serra durante a campanha, outros que se regozijaram na política internacional com os primeiros movimentos de Antonio Patriota, menos “terceiro-mundista” do que Lula e Amorim como comemorou a Folha de SP em editorial de 25/02 e até, quem sabe, diante da possibilidade de Dilma abandonar a proximidade estratégica que Lula mantinha com movimentos como o MST, não tardará em concluir que um curioso debate em torno da personalidade da presidenta, surgia disso tudo tão logo essa mídia admitisse (ao contrário do que ela até há pouco dizia) que Dilma era uma mulher decidida, capaz, uma gerentona de estilo próprio, que toca o governo com toda firmeza e simultaneamente, por seu próprio discurso, capaz de romper com o estilo Lula, e que isso seria muito positivo aos ouvidos das classes médias e das elites que apoiaram Serra. E muito mais do que isso, enaltecer esse “estilo” a tal ponto que ele pudesse assumir o papel de uma cunha entre Lula e sua sucessora contribuiria sobremaneira para mostrar ao país que os oito anos da era-Lula estavam sepultos, deles restavam apenas uma herança maldita, com inflação e desajuste nas contas públicas, mas que tais erros e outros tantos cometidos seriam logo corrigidos por ela e ficariam para o passado e que os poucos acertos aqui e acolá serviriam apenas para que a História registrasse as boas intenções de um despreparado que por teimosia ou ignorância própria e do eleitor, havia sido eleito, como eleito foram Cacareco e Tiririca. Que a nova presidenta em nada representaria a continuidade de um governo medíocre que soube apenas “distribuir esmolas” em troca de votos. “Dividir para conquistar”, nada de novo. Com ênfase e tons variados esse passou a ser – e continua sendo – o contorno mais radical do discurso desagragador.

Ainda que a mídia tradicional tenha interesses divergentes quando, internamente, se trata de ganhar mercado e se impor como líder de audiência ou tiragem, ou seja, por questões que, de alguma forma, tangenciam seus objetivos econômico-financeiros, seus discursos mudam de figura e se tornam convergentes quando no campo da ideologia, na busca pela manutenção de seus prestígios e privilégios seculares e nos debates de grandes questões ligadas à sobrevivência do “status” vigente, algo possa parecer-lhes ameaçador ou simplesmente inoportuno. Assim, todo o esforço para trazer para o mesmo campo – o das elites e da classe média alta – a presidenta Dilma e, o quanto for possível, mantê-la presa nos afazeres do escritório, longe dos compromissos políticos que sempre estiveram vinculados ao povo brasileiro, às classes trabalhadoras de modo especial, aos palanques e às multidões, enfim distante das bases populares que, por idolatrarem Lula, a elegeram, será, sem dúvida, um lance de mestre nesse tabuleiro feito de ardis políticos postos diante de alguém que até pouco tempo não passava de uma “esfinge” teleguiada, incapaz de pensar por conta própria. E aí se encaixou, entre outros, o convite feito em fins de fevereiro à presidenta para a festa comemorativa dos 90 anos da Folha de São Paulo. Consagrava-se um ingrediente a mais dentro de uma estratégia política inteligente de tentar afastar a “criatura” do “criador” para que assim, neutralizado, ele deixasse de representar o candidato imbatível à presidência em 2014, no caso de tudo dar errado no governo Dilma.

Pois bem, de ora em diante, o anti-lulismo e o pro-dilmismo caminharão juntos com vistas a um cheque-mate que consagre em 2014 aquele que será ungido pelos conservadores para reconduzir o país ao tão sonhado aprisco dos neoliberais e da ALCA norte-americana, afastados que estarão do poder, há doze anos. Dias atrás Aécio Neves, ainda que num discurso estéril, se apresentou no Senado como esse candidato das elites a ser de fato, desde já, incensado pela mídia posta a serviço dessa estratégia como sendo o mais viável para 2014. Por ora, nada importa nesse início da corrida, porque irá sempre prevalecer a máxima de Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”. Eu, a imprensa empresarial. Aécio, a circunstância. Resta-nos indagar, justo agora que a oposição aos poucos sai da UTI: – Para o moinho de quem estarão levando essa água?

Da parte do governo, que não tem direito algum de se iludir, é preciso ter em mente que o pro-dilmismo só se sustenta até o dia em que a chamada “Ley dos Medios” for aprovada e sancionada, esteja ela tanto no feitio das aspirações de Franklin Martins ou ao contrário, dentro de contornos que consagrem a mesma “liberdade de imprensa” que hoje esse oligopólio empresarial dos meios de comunicação de massa desfruta, avesso a legislação e desenhada no formato prescristo pelo conservadorismo inerente a essas grandes famílias midiáticas, ou seja, sem uma agência estatal de regulação do setor, nos moldes da FCC (Federal Communications Commission) dos Estados Unidos, sem regular a proibição de monopólio ou oligopólio dos meios de comunicação de massa (art. 220, § 5º), sem a preferência a ser dada, na produção e programação das emissoras de rádio e televisão, a “finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”, sem a “promoção da cultura nacional e regional e sem estímulo de qualquer natureza à produção independente que objetive sua divulgação” (art. 221, I e II), tudo como consta da nossa Constituição e, em boa hora, assinalou o jurista Fabio Konder Comparato.

Pouca importará se até lá Dilma tiver marcado presença em outros eventos comemorativos da imprensa, ensinado outros tantos omeletes para o público da Ana Maria Braga ou ter aberto os salões do Alvorada ou do Planalto para os delírios das Hebe Camargo, enfim suavizando para a classe média sua imagem de durona. A mídia já terá pago a conta e a partir daí ver-se-á inteiramente desobrigada a ainda render-lhe homenagens em troca de nada. Restará aos estrategistas do PT e do governo conceber outras formas de se aproximar da parcela da classe média que a rejeitou em 2010 e daquela camada de eleitores que, embora tenham votado nela, ascenderam socialmente por conta das políticas públicas de Lula, e agora tendem a um conservadorismo inerente à sua “nova classe”. E isso independe de novos marcos regulatórios, mas tão somente da comunicação governamental ser capaz de ampliar e diversificar os interlocutores com a sociedade.

Veremos então, da mesma forma como ocorreu no início do primeiro mandato de Lula, “quando a velha mídia ainda sonhava com o ‘Proer da imprensa’, ou seja, com uma política de generosa distribuição de verbas do BNDES para estancar a sangria financeira de diversos grupos de comunicação, como FHC fez com os bancos privados, tudo era lindo e maravilhoso. Mas, aí, a grana não veio e, para piorar, a Polícia Federal do dr. Paulo Lacerda, que chegou a ganhar uma capa da Veja com ares de esquadrão ‘Power Ranger’, começou a fuçar os crimes de colarinho branco, invadir a Daslu e prender o banqueiro Daniel Dantas. A partir de 2005, então, Lula passou a ser o governo do ‘mensalão’ e, daí em diante, foi fustigado diariamente, de forma vil e, não raramente, mentirosa, de tal maneira que a boa e necessária crítica ao governo se perdeu na ignomínia das redações”, lembra o jornalista Leandro Fortes, pois agora, já com os olhos totalmente voltados para 2014, se apressarão em por fim à lua-de-mel. E prossegue, “estão a preparar-lhe uma outra surra [aludindo a primeira, que teria sido durante a campanha eleitoral], desta feita, e sempre por ironia, com o chicote da liberdade de imprensa, de expressão, cada vez mais a tomar do patriotismo o ‘status’ de último refúgio dos canalhas.”

Da minha parte – e olhem, já não tenho mais a arrogante certeza da juventude -, ainda assim estou convencido, pois me parece óbivo, que será inútil o esforço para separar Lula e Dilma, mesmo sabendo que estou apreciando o comportamento de gente que há muito exercita com perícia a arte de não ter escrúpulos. Vejam, foi essa imprensa que repercutiu a ausência de Lula no almoço oferecido ao Barack Obama, como sendo causada por ciúmes da Dilma. Porém não soube enaltecer a presença dela em Coimbra, prestigiando o novo Doutor Honoris Causa, como um gesto de intimidade e companheirismo entre pessoas que tem interesses comuns. Claro, isso aparentemente não vale para essa grande mídia que finge que a crítica fundamental que fazia ao Lula se limitava apenas ao estilo. Sim, há diferenças de estilo entre Lula e Dilma, e elas são positivas. Todavia essa mesma imprensa destaca mais o ex-presidente que não compareceu àquele almoço do que os demais ex-presidentes que lá estiveram. É por conta dessa postura que Lula já foi capaz de perceber que “durante 8 anos a mídia garantiu que meu governo era uma mera continuação do de FHC, agora que Dilma foi eleita para dar continuidade ao meu governo, eles querem nos impingir que o governo dela é diferente”. Como escreveu o jornalista Mair Pena Neto, “um leitor desavisado poderia achar que Lula saiu derrotado das últimas eleições e não que fez a sua sucessora, escolhida pessoalmente. Que Dilma não foi eleita para prosseguir as políticas dos últimos oito anos, principalmente dos quatro últimos, de redução das desigualdades e erradicação da miséria. Estes são os principais compromissos de Dilma, reiterados constantemente e que guiarão o seu governo.”

Entendemos que uma nova conjuntura, inclusive no plano mundial, reclama medidas diferentes. Sem dúvida, muda o estilo e as ênfases enquanto a velha mídia confunde a postura política discreta de Dilma com um suposto desejo dela de diferenciar seu governo do do seu antecessor. Proclama a necessidade de se manter séria, decidida e recatada e enaltece um comportamento que, em última instância, visa apenas mantê-la distante dos eleitores, para que não cresça seu cacife eleitoral e não reforçe seu lastro político, de olho nas eleições de 2014. Para que isso se consuma, essa velha mídia busca, no elogio à Dilma, pretextos para falar mal de Lula, tentando além disso jogar um contra o outro. Da minha parte penso que, completados seus “100 dias” Dilma não parece estar diante de um nevoeiro para fazer a travessia. Ainda assim, ela se comporta como o “velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar”, sábia e independente, trilhando a via que, no mínimo, resgatará o que ainda resta daquela parte da população retida em um atraso de séculos.

Antonio Fernando

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