A última Geni

23/06/2011

 

 

Antonio Fernando Araujo

 

 

 

 
Primeiro foram os índios, mas como não sou índio…”, negros, mulheres, judeus, ciganos, deficientes, idosos, homossexuais, e quem mais se apresenta para engrossar essa lista discriminatória na qual o capitalismo já incluíra os pobres, descartáveis…, sorry, não tem poder de compra e, portanto, voz.
 
Apesar disso foi com silêncio que a Geni, alguém “que sofre e ama verdadeiramente seus semelhantes“, se fez ouvir na ópera e esfregou na cara das pessoas suas próprias hipocrisias. Um silêncio que, aparentemente as Marchas da Liberdade que pipocaram em todos o país no último fim de semana (18/06), não estão mais dispostas a levar adiante. Ao contrário, optaram por fazer barulho, agora um barulho que nasce silencioso nas redes sociais e se espalha ensurdecedor pelas praças. E curioso, a Geni é um travestí que parece ter se dedicado à missão de ajudar os seus iguais, os excluídos como ela, e como tal se apresenta como o símbolo apropriado de exclusão e solidariedade, esse binômio que costuma permear os humilhados, os castigados, vitimizados pelas calúnias dos que procuram rebaixá-los moralmente, já que não é tarefa fácil prá ninguém reconhecer e engolir a própria hipocrisia. E é com os anseios por justiça e reconhecimento, dessa Geni “tão coitada e tão singela” que as Marchas da Liberdade buscam uma identificação.
 
Pois bem, na do Rio, parecia que estavam todos lá, todas as “cidades misturadas…, toda a garotada, os que andam por terreiros & quilombos ou por terras digitais“, como disse Beto Moreira, até os gritos e os lutos da floresta, a marcha das vadias que denunciam a exclusão e o estupro, cuja culpabilidade Bispo algum pode atribuir à própria mulher, o aroma da maconha medicinal de 5.000 anos, a luta contra a homofobia repulsiva e a consequente discriminação aos homossexuais (“o Senhor é meu Pastor e ele sabe que sou gay“), a recusa da paz das UPP’s quando imposta sem voz às comunidades, o sistema financeiro que apodreceu e ameaça empobrecer ainda mais o mundo, a liberdade religiosa e o conselho tutelar que se quer livre e transparente, cuja ordenação e dignidade não sejam objeto de manipulação alguma, as camareiras e os bombeiros (tanto as de lá quanto os de cá, com os quais os maconheiros se solidarizavam enquanto propunham a legalização da erva), o direito ao aborto assistido – que meninas pobres e seus fetos rejeitados parem de morrer um ao lado do outro -, a valorização do trabalho das empregadas domésticas, a certeza enfim dessa Geni empunhando cartazes, faixas e estandartes, de estar contribuindo para a construção de um mundo que, ora todos apostam será melhor, pois para isso acalentam a esperança de que em breve a liberdade estará integralmente legalizada e com ela a honestidade e a sincera convicção de que até lá suas utopias é que irão prevalecer. E, com certeza, falarão mais alto do que o atual conservadorismo dos clérigos, do que a cobiça daqueles que detem o poder das armas, do capital e da mídia e muito mais do que a alienação imposta às grandes massas dos excluídos.
 
A Marcha da Liberdade …, decolou e virou o embrião de um novo movimento político e cultural: a marcha pela liberdade de expressão, a marcha dos diferenciados, dos insatisfeitos, dos indignados, dos que estão construindo futuros alternativos. Liberdade pra protestar! Liberdade pra morar! Liberdade pra circular! Liberdade para expressar os afetos! Liberdade de culto! Liberdade para o funk, o hip hop, o samba e o rap e todos os ritmos! Liberdade para agir e para pensar“, escreveu ainda Beto Moreira. “Quando um futuro intolerante se precipita e parece inevitável  é preciso reagir, deter, interceptar, barrar, desviar. A Marcha da Liberdade é a manifestação dos que não aceitam ser calados pela policia, pelos ruralistas, monoteístas, corporativistas, monetaristas, monopolistas… A Marcha da Liberdade Rio apoia qualquer causa que defenda a liberdade de todos se expressarem e se reunirem em nome daquilo que acreditam ser justo“, conclui.
 
Estamos portanto diante de uma multiplicidade de demandas heterogêneas, porém além disso, de uma das características principais do “espírito” desta época, propícia para a emergência de novos paradigmas e que basicamente consiste numa certa aversão aos sistemas políticos e filosóficos já arrumadinhos, estruturados que foram no seio de algum partido ou agremiação, como se eles proclamassem “todos unidos [também] contra slogans e símbolos de partidos, religiões ou etnias”. A grande sacada parece ser a descoberta do outro, essa alteralidade que insiste em apontar para uma ética comprometida até o pescoço com um processo de inclusão social de todas as minorias, onde qualquer Geni cuspida e maltratada possa ser capaz de gerar um sentimento de indignação tal que denunciada a violência, velada ou explícita, a qualquer segmento social, ele caia de imediato na rede
da urbi, sobrepujando assim em questão de minutos os arcos da Lapa e varrendo pra longe o que ainda sobrar da perfídia. E volto a lembrar: não se trata de criar uma nova seita, partido ou confraria, mas tão somente de propor empreitadas múltiplas que no plano tático não desgrude o olho das grandes metas que ora vicejam no solo promissor deste jovem século XXI, tal como esboçadas aqui.
 
Nesse sentido, as ruas e praças do mundo, e do Brasil em especial, passam a ser a vanguarda dos que querem direitos sociais amplamente reconhecidos e dos que almejam navegar em águas da plena democracia política e da democracia social que se deseja presente em todos os espaços. Tomara apenas que o capitalismo e sua feição neoliberal mais terrível não venha se somar aos sonhos desse punhado de Genis, apoderando-se deles e acabando por destroçá-los, como aparentemente é o destino que ora se vislumbra para a “primavera árabe“, com o Egito, manipulado pelo sionismo, voltando a protagonizar a miséria e a opulência do capitalismo nosso de cada dia. Apesar de tudo resta-nos uma certeza, e quem não entender isso será retirado da cadeira da história, de que esta geração sepultará de vez a Geni “feita pra apanhar…, que dá pra qualquer um” e ainda assim é “maldita“, essa estupenda Geni do Chico, a do “enorme zepelim” da Lapa, “dos cegos, dos retirantes e
de quem não tem mais nada“, essa mesma que, por enquanto ainda vimos na Marcha da Liberdade. Essa Geni, certamente, será a última.
 

 


Barbárie – continuação do post

20/06/2011

Por um desses lamentáveis e, no meu caso, frequentes, problemas entre a cadeira e o teclado, não consegui colocar os créditos devidos no corpo do post de título acima, publicado há poucos minutos, com pedido de desculpas. Edemar.

“Edemar, consternado e com a consciência de que um fato dessa absurdez precisa ser divulgado ao máximo, copiou de http://brasiliamaranhao.wordpress.com“.


Barbárie

20/06/2011

 

 
Publicado por: Rogério Tomaz Jr. | 19/06/2011

Blogueiro é assassinado no RN depois de enquete questionando prefeito

Durante o 2º Encontro Nacional de Blogueir@s Progressistas tomei conhecimento de um caso surreal de assassinato com possível motivação política.

Enquanto ouvia o relato do episódio, passou pela minha cabeça a possibilidade de eu estar dormindo e que a história não passava de uma crônica policialesca no meio do sonho.

A realidade é mais crua, entretanto.

Ednaldo Filgueira, 36 anos, presidente do PT municipal de Serra do Mel, colaborador do blog Serra do Mel (http://www.serradomel-rn.com) e jornalista comunitário, foi assassinado na noite da última quarta-feira (15), ao receber seis tiros de homens não identificados.

Segundo me disse o Thiago Aguiar – blogueiro potiguar que contou o caso (e gravou em vídeo para o Blog da Dilma) –, Ednaldo havia publicado no blog uma enquete perguntando à população se era possível acreditar na prestação de contas da prefeitura.

Na manhã do crime, o blogueiro recebeu ligações anônimas com ameaças por conta da enquete, que foi prontamente retirada do site.

Não foi suficiente. No final do dia aconteceu o crime que tornaria aquele o último dia da vida de Ednaldo.

Blogueiro assassinado em Serra do Mel (RN) na última semana era o presidente do PT local

A violência associada à política no interior do Brasil (não apenas do Norte/Nordeste, vale dizer) persiste por inúmeros e complexos motivos, mas a impunidade contribui muito para perpetuar tal situação.

Serra do Mel é um pequeno município criado em 1988 e situado próximo a Mossoró, cidade famosa por ser uma concorrida estância hidrotermal.

O prefeito se chama Josivan Bibiano de Azevedo e é do PSDB.

O caso – que não ganhou qualquer destaque na imprensa do RN – merece repercussão ampla na blogosfera e, quiçá, na grande mídia nacional que diz defender a liberdade de expressão. Para que os responsáveis pelo crime possam ser encontrados e punidos. E, também, para que o assassinato de blogueiros não vire moda.

Em Serra do Mel, divergências políticas ainda se resolvem na bala?

Rio Grande do Norte é plutocracia – Ao contrário do que acredita a maioria, que logo pensa em Maranhão e Sarney quando o assunto é atraso político, o Rio Grande do Norte, é o estado onde reina a oligarquia mais longeva do Brasil.

A oligarquia potiguar, entretanto, não está assentada em apenas um grupo familiar. São três famílias tradicionais que dominam não apenas o Executivo, mas também o Legislativo em âmbito municipal, regional/estadual e federal. Além disso, exercem grande influência no Judiciário, controlam a economia e a quase totalidade dos grandes meios de comunicação no estado.

Os clãs Alves, Maia e Rosado repartem o poder no Rio Grande do Norte desde a primeira metade do século XX. Destes grupos saíram ramificações, como a família Faria, que alternam alianças entre os três esquemas principais.

É um exemplo quase perfeito de uma plutocracia.

Dois fatos me dão esperança de mudança nesse cenário em médio prazo: a recente e vitoriosa ocupação da Câmara de Vereadores do Natal (o movimento “Fora Micarla”) e a visibilidade crescente da atuação de Fátima Bezerra, deputada federal do PT que preside a Comissão de Educação da Câmara em 2011.

Acompanharei o caso e publicarei mais notícias à medida que surjam novidades.

PS: Durante o Encontro de Blogueir@s Progressistas, fizemos uma homenagem a Ednaldo com uma salva de palmas, na mesa da manhã de sábado.

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Para saber mais sobre as três famílias que compõem a oligarquia do Rio Grande do Norte, leia a excelente matéria de Edson Sardinha e Renata Camargo, do Congresso em Foco (clique aqui) sobre o assunto.

Para saber mais sobre o Fora Micarla e a ocupação da Câmara de Natal, leia o blog do Daniel Dantas (nenhuma relação com o banqueiro criminoso), um dos protagonistas do movimento:

http://deolhonodiscurso.wordpress.com 


Generais não dão flores

13/06/2011
 
 
Antonio Fernando
 
 
 
Quando o simpático tenente da PM paulista, achegando-se a um grupo de moças que na Marcha da Liberdade (28/05) seguiam pela av. Paulista portando flores e cantando, indagou-lhes quem eram os líderes do movimento ouviu, quase que numa única voz, que ali não havia líderes, todos eram soldados rasos nenhum general. E enquanto estendiam-lhe flores uma completou, “até porque generais não dão flores”.
É possível que nesse instante o tenente tenha ouvido algo mais, aquilo que só daqui a alguns anos a próxima geração contará de verdade sobre suas mães que nessa Marcha, numa espécie de desobediência coletiva, inauguraram um tempo de passeatas que depois se alastrou pelo país porque naquele dia não apenas entregaram flores, mas foram capazes de perceber com acerto “por quem os sinos dobravam”, coisa que os magistrados que vêem a sociedade de longe e pela vidraça do andar de cima e por isso a proibiram, foram incapazes de o fazer.
Pois bem, era por eles mesmos que os sinos dobravam. A rigor, não exatamente, mas por tudo que representavam, uma sociedade autoritária, traumatizada pelas ditaduras do século XX que tanto fez para sufocar as utopias, equivocada por essa idéia de progresso que ao misturar alta tecnologia e postura consumista imagina estar dando respostas adequadas à uma sociedade que acabou parida por um arremedo de capitalismo ao qual se convencionou chamar de neoliberalismo e no qual todos estamos mergulhados até o pescoço.
Entretanto, enquanto na ilusão os de toga ou gravata viram apenas a apologia à maconha o que os jovens queriam era algo impregnado de um outro sentido, o direito de não apanhar por manifestar livremente as suas idéias. E porque lhes acalentava o sentimento de revolta que germina na alma e anseios por passar a borracha naquilo tudo que ali estava, não lhes foi difícil perceber que suas inquietudes tinham muito a ver com o que há pouco acontecera na Tunísia e na praça Tahrir, do Cairo e se propagara pela Síria, Bahrein, Yemen, Wisconsin, praça Catalunha, Puerta del Sol e, naquele instante, acabara por conceber aquele ensaio proibido no vão do MASP, quando, na marcha que se seguiu, distribuíram flores pelas avenidas Paulista e Consolação, nem que fosse apenas para comprovar que distribuir flores pode ser mais letal do que emitir proibições.
Quem nos garante que a juventude européia, latino ou norte-americana está a salvo de angústias semelhantes? Quem é capaz de jurar que um universo de frustrações existenciais, decepções políticas de variados tons, um não sei o quê de uma auto-estima que em algum momento se escafedeu, de uma não percepção de que o mundo se constrói aos poucos, mas que suas urgências não lhes permite ver nem sentir, tudo isso enfim não seja capaz de fornecer a munição suficiente para que uma passeata pela legalização da maconha se torne o combustível suficiente para que a insurgência assuma suas verdadeiras cores, a de um clamor popular que se recusa, por exemplo, a aceitar uma “governabilidade a qualquer preço”, desde a presença de um Sarney até o salário da professora Amanda Gurgel, passando por essa vergonhosa taxa Selic que, de antemão, já assinala para esta geração impaciente que em muito pouco deve apostar quando lhe falarem de um futuro promissor, digno e comparável a de outros países? (ainda que possa parecer melhor, quando nos comparamos com nós mesmos).
Não se trata de desestabilizar o governo Dilma, como me apontaram, longe disso, mas talvez de chacoalhá-lo. Fazê-lo ver que não basta comparecer à cerimônia de beatificação de irmã Dulce. É importante marcar presença na Marcha da Liberdade, dia 18 próximo, no Rio, no Encontro de Blogueiros Progressistas, na mesma ocasião, em Brasília, na feira de Garanhuns e no forró de Caruaru, em julho, no Círio de Nazaré, em Belém do Pará, em outubro. Fazê-lo entender que, neste momento em que o mundo parece querer entrar em ebulição e o nosso país não está a salvo, mais decisivo do que as intrigas do palácio é o gesto de chegar perto, bem perto. De dar as mãos aos indígenas e ribeirinhos para, contornados os impasses e junto com eles, às margens do Xingu, assistir a primeira carga de dinamite dar início a construção de Belo Monte e testemunhar o otimismo aflorando nos semblantes em volta. Fazê-lo perceber que nossos jovens têm pressas e sonhos e parecem querer passar o rodo na UNE e a na UBES, quietas até demais, como se estivessem cochilando ou por terem se tornado obsoletas antes do tempo, naqueles entraves jurássicos ou jurídicos que lhes obstrua o caminho das suas utopias, das suas realizações, sejam elas de natureza ética, política, profissional, moral ou existencial e em tudo o mais que lhes lembre o quanto é repugnante, por exemplo, um Pimenta Neves e os poucos meses que passará na cadeia ou os motivos que levaram à morte o casal sindicalista Zé Cláudio e Ma. do Espírito Santo, assassinado no Pará, cujos autores e mandantes, certamente ficarão impunes.
Em meio a sentimentos de tolerância, de solidariedade, de liberdade, de fraternidade, outros temas afins a tudo que entendemos como respeito aos inúmeros dos nossos valores emergem. E aí entra em cena a ânsia de expurgar a mentira e a hipocrisia presente, por exemplo, na grande mídia nativa, mais especificamente a oriunda da grande família GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão), de bradar pelos direitos das mulheres, pelo combate à pobreza, à desigualdade social, ao racismo, xenofobia e homofobia, pelo realce da nossa auto-estima, por um futuro próximo (não o daqui a 15 ou 20 anos) livre de um capitalismo predatório e egoísta, como se fôssemos – e os jovens em especial -, herdeiros delirantes daquela geração de hippies que valorizava a integridade, a honestidade e a verdade como princípios imutáveis de vida já que nesses aspectos, em muito se parecem, com o que sentiram os dos países árabes e agora sentem os da Espanha e, se estou certo, até mesmo o que distingue esses de São Paulo.
Assim, quando se assiste o ressurgimento dessas manifestações populares anticonservadoras, antiautoritarismos, solidárias, nascidas e articuladas nas redes sociais e ainda se constata que há flores de sobra para a PM’s e magistrados paulistas, podemos apostar então, os jovens saberão com destemor, reservá-las em maior escala para as centenas de camponeses sem terra, para os trabalhadores rurais, para a massa dos sem-advogado, rotos e pobres, sindicalistas, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, favelados e em especial para todos aqueles que defendem a volta do país que lhes pertence, seu pedaço de chão ou teto, ousam sonhar e ir contra alguma coisa, uma injustiça, por exemplo, e por isso são mártires anunciados, marcados para morrer. Estou certo que, daquela egoísta indiferença que Bertold Brecht, Maiakovski e Niemöller lamentaram em seus poemas esta geração já acena por querer se livrar, convidando Dilma a se juntar a ela, combinando tudo direitinho pela internet e depois não arredar mais o pé das ruas. 

Comunicação – Direito à

12/06/2011

 
Antonio Fernando Araujo
 
 
O Brasil precisa estar pronto para “pôr sua própria casa em ordem” no que diz respeito a direitos humanos, se quiser ter assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, recomendou o indiano Salil Shetty, secretário-geral da Anistia Internacional, em 27 de abril passado, numa entrevista concedida ao Portal iG. Mais adiante assegurou: “O Brasil é um dos poucos países globalmente que reduziram a desigualdade – em muitos, a pobreza caiu, mas não a desigualdade, como no Brasil”. Em que esse “dever de casa” poderia servir de exemplo aos demais aspectos da atuação brasileira, tanto no que diz respeito ao cenário interno quanto naquilo que aponta para o panorama internacional? O Oriente Médio e os países do norte da África mostraram isso de uma maneira clássica. As pessoas que estão protestando agora estão porque não têm emprego e porque não tem voz. Na semana seguinte ao ataque à escola de Realengo, o Rio de Janeiro sediou a maior feira latinoamericana de armas, a LAAD.
 
Se aos olhos do mundo podemos estar passando a impressão de que nos descuidamos de alguns outros aspectos do cotidiano nacional, no plano da democratização da comunicação no Brasil queremos agora “iniciar uma proposta de marco regulatório e organizar um grande movimento nacional com o objetivo de pressionar o Governo Federal para que apresente sua proposta para o setor”, dizia o texto de convocação do Fórum, de tal forma que fique evidente que estamos aptos a definir uma avançada plataforma política para uma luta que visa, primordialmente, estabelecer um marco regulatório das comunicações com as feições típicas de uma legislação democrática, moderna e quem sabe, futurista até. 
 
Ainda que em todos os quatro Grupos de Trabalhos (GT), em que se dividiram os participantes do Fórum, o nível técnico dos debates tenha alcançado o topo da sofisticação e isso tenha sido visto como uma virtude, houve quem, ao final, subisse à tribuna para fazer exortações. Uma delas, para rogar que ao término do evento, se incluísse entre as recomendações, a de não se levar a cabo qualquer ideia – ainda que de um mero plebiscito -, que implicasse, pelo menos por enquanto, numa convocação em que a “mãinha” de cada um de nós seja chamada a se pronunciar a respeito de qualquer um dos temas debatidos. – “Vamos levar uma surra!”, sem dúvida, um mau presságio. Temeu-se, e não sem boa dose de razão, que todas as poucas conquistas voltadas para a democratização da comunicação no Brasil, a respeito da qual tanto já se discutiu, isso há alguns pares de anos, escorreriam facilmente pelo ralo, diante da singela constatação de que, provavelmente, as santas mãezinhas da maioria dos participantes do Fórum encontrariam sérias dificuldades para entender o porquê do governo tanto querer democratizar e tornar público o controle da comunicação no país quando todas elas estão “carecas de saber” que, na verdade, o que ele pretende mesmo é “censurar a imprensa livre”.
 
Portanto, se por um lado a constatação de que a terrível desigualdade de conhecimentos técnicos entre os próprios participantes dos GT’s, em última instância, ajudou a reproduzir no microcosmo do seminário a mastodôntica realidade do pouco saber político presente no macrocosmo brasileiro, tal verificação ainda serviu para que, ao menos no aspecto essencialmente técnico, as conclusões e recomendações do encontro não repetissem e muito menos divergissem em profundidade daquilo que foi prescrito em 2009 quando no governo Lula, Franklin Martins realizou a Iª CONFECOM (Conferência Nacional de Comunicação). Com sabedoria, cuidava-se assim de evitar desperdícios de tempo e esforços na ingrata tarefa de “reinvenção da roda”. E isso parece ter sido levado em conta, bem assimilado no instante de formular o documento final do seminário, pois ficou lá escrito que a sociedade já contribuíra significativamente para essas discussões e que “as mais de 600 propostas ali aprovadas representam demandas de um conjunto significativo de cidadãos e cidadãs e entidades da sociedade civil, do poder público e do setor empresarial, e devem ser utilizadas como referência neste debate.”
 
Resgatou-se dessa forma um elenco de preocupações objetivas já esboçadas anteriormente e agora aqui, novamente reproduzidas por gente da área da Comunicação vinda de todo o país, do Pará ao Rio Grande do Sul, passando por Brasília, Bahia, Paraná, Ceará, São Paulo e Minas quando abordaram o fato de que no longo processo de universalização da Banda Larga, não apenas o valor do serviço ou o preço de uma tarifa a ser paga pelo usuário deva constituir-se no único fator a ser levado em conta no instante de pensar na disseminação do acesso. Acresça-se a ele também os custos de todas as demais aquisições (micro, laptop, scanner, etc) e contratações (treinamento, manutenção, etc) e cuja experiência pioneira engatinhou na Comunidade Santa Marta, em Botafogo, Rio de Janeiro – contando inclusive com a intervenção de “lan-houses” locais, esses “Jardins da Infância” da blogosfera não reconhecidos pelo MEC -, e que demonstrou não serem nada desprezíveis. E se a universalização da Banda Larga que se pretende é um estupendo desafio atado à ideia inadiável da democratização da comunicação no Brasil como um todo – imprensa escrita inclusive – e não apenas dos veículos associados à radiodifusão, esses valores todos se somam ao fato de que, ainda assim, não interessa às concessionárias ou a quem quer que seja do Mercado levá-la até às populações ribeirinhas dos rios amazônicos e tampouco ao vasto universo periférico de uma metrópole qualquer, onde um jovem de escassos recursos ou uma escola modesta ver-se-iam de mão presas, sem saber como pleitear ou exigir uma “razoável” velocidade de transmissão, o fornecimento de um serviço contínuo e, principalmente, o provimento de um conjunto de recursos técnicos e operacionais que caracterizam a prestação desse serviço como algo de boa qualidade, ainda que já tivessem transposto a fase inicial de aquisição dos equipamentos.
 
Não fosse pela noção geral de que em todos os aspectos da comunicação no Brasil os imensuráveis interesses da poderosa mídia oligopolizada se fazem presentes no jogo, os debates estariam encerrados aqui. Sabemos, entretanto que a grande família GAFE da imprensa (Globo, Abril, Folha e Estadão) tem consciência de que o que eles concebem, os interesses patrimoniais e políticos que defendem, a censura que estabelecem em toda matéria onde se denunciam suas posturas antidemocráticas encontra em seus veículos a possibilidade ampla de repercussão, especialmente junto à classe média. Assim, consagram a ideia de que qualquer opinião contrária a de seus editoriais deve reverberar na sociedade como algo que ofende a liberdade de imprensa, se possível, impregnada dos hálitos da censura e dos controles arbitrários como nos tempos rançosos da ditadura.
 
E é exatamente isso que “mãinha” precisará entender. Pelo menos enquanto estiver claro para nós que ainda somos minoria, frágeis diante do poder midiático e financeiro da família GAFE. Embora possamos contar com a força disseminatória e de mobilização dos blogues e das redes sociais que bem ou mal estão dando alguma voz à “primavera árabe”, não temos entretanto e no que diz respeito à democratização da comunicação, um discurso comum e de assimilação fácil pelo grande público que não seja um episódio de ilusionismo, mas ao contrário, algo que possa ser transformado numa bandeira de luta capaz de contaminar a multidão e levá-la a se contrapor aos discursos sombrios e ameaçadores daquela mídia hegemônica que teme perder seus privilégios, privilégios esses que, embora remanescentes aqui, já estão há muito extintos no restante do mundo civilizado. Mas é neste ponto que queremos chegar.
 
Bem antes de “mãinha” perceber o quão importante é o Estado regular os grandes portais, estabelecer a neutralidade da rede, definir que papel a Telebrás vai desempenhar, papel esse fruto do regime no qual o serviço da Banda Larga será prestado, fazer renascer o Conselho de Comunicação Social e, sujeito a outros, por sua vez criados nos âmbitos Federal, Estadual e Municipal, “linkados” entre si e em diálogo com a realidade, uma Agência ou qualquer outro nome que se queira dar a um órgão regulador que não contenha o odor do neoliberalismo que criou as demais e sobretudo incorporar a Comunicação no grande marco regulatório que a Constituição de 88 concebeu para a Educação, para a Justiça e os Direitos Humanos, para a Ciência e Tecnologia e para a Cultura e que desde então procuram em conjunto, nortear com princípios democráticos as relações entre o Estado, o Mercado e a Sociedade, ela terá “que votar com a gente” carregando em si a plena convicção de que a Banda Larga no Brasil discrimina, é cara, lenta e para poucos e que esta geração está fadada a fazer o “dever de casa”, sem poder se dar ao luxo de dispensar a contribuição dela porque o que se quer é que sejam estabelecidas as “regras que afirmem a liberdade de expressão e o direito à comunicação de toda a população, buscando garantir a pluralidade e a diversidade informativa e cultural”, como consta da Carta final e ela tem que saber disso na ponta da língua, que não se trata de um sonho disparatado e muito menos de censura de qualquer espécie.
 
Assim e quase sem perceber ela estará ajudando a “pôr sua própria casa em ordem”, vendo-a emergir desse caos social onde, em meio a complexidade tecnológica e a diversidade de conteúdos, está mergulhada a comunicação no Brasil e, conosco, estará concorrendo para que o avanço da democracia na esfera e na blogosfera, leve o país a se exibir ao mundo, não mais nessa posição desconfortável que o gráfico de jun/2009, do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) mostra, mas, ao contrário, com o perfil de uma nação que ostenta um otimismo desafiante para encarar o futuro, que coleciona um histórico de muitos anos de lutas bem sucedidas, como as descreveu um dos palestrantes no primeiro dia, e por mérito próprio, a fazer jus a uma posição de destaque, resultado de mais uma redução de desigualdades, de um “dever de casa” enfim, bem cumprido. Penso que foi isto que quisemos dizer quando, com a convicção de um apóstolo, aprovamos a Carta final na qual se pode lê: “este debate não pode ser feito sem o pleno envolvimento da sociedade brasileira, representada em toda a sua diversidade. De sua parte, as entidades participantes deste seminário se colocam a tarefa de organizar suas propostas em um documento que sintetize e aprofunde as referências da Iª Conferência Nacional de Comunicação, a fim de compartilhar esse acúmulo com o conjunto da população.”  

 


Blogueiros a caminho da organização

10/06/2011
 
 
Com algum atraso, uma interessante matéria sobre o que será a nova comunicação, a qual nos libertará da mídia tendenciosa e uníssona. Edemar.

 

 
Não seria exagero supor que o vigoroso aparato de ideias que transitou no Iº Encontro de Blogueiros Progressistas do Rio (06 a 08-mai/2011) pavimentou a trilha que nos levará, não a uma grande revolução como prevista por certos teóricos, mas certamente a um aprimoramento da nossa capacidade de comunicação, vista em toda sua dimensão social, política e cultural.
 
Mal apagadas as luzes desse evento, em tudo bem sucedido, e já estávamos nós, no dia seguinte, 09/05, reunidos com a deputada Jandira Feghali (uma das palestrantes do Encontro), juntamente com o PCult (Partido da Cultura) e outros promotores de eventos culturais de toda a região metropolitana do Rio. Nessa 2ª feira, tão logo a deputada ter destacado a possibilidade – quem sabe – do BNDES apoiar financeiramente a mídia independente e dissertado sobre a formação da Frente Parlamentar Mista Nacional pela Cultura (cerca de 300 parlamentares do Congresso), nada menos de sete militantes, comunicadores e articuladores da cultura do Rio puderam lhe transmitir o quanto consideram importante erigir-se um Ponto de Cultura em cada município ou escola – a ideia da cultura viva inserida em um abrangente Plano Nacional de Cultura onde até mesmo a singela figura de um agente cultural “pessoa física”, passe a ser vista como uma almejada contribuição ao sistema e não como um entrave burocrático como ocorre hoje em dia, além de manifestarem interesse em estar presentes – através de membros do PCult de Brasília – na reunião de instalação do Conselho da Frente Nacional de Cultura, hoje cedo, 11/05, com voz assegurada como se já fôssemos membro veterano.
 
Nas semanas que antecederam, os contatos na Câmara Muncipal, do Rio e na Assembleia Legislativa (ALERJ) já nos permitiram levar à Frente Parlamentar em Prol da Democratização da Comunicação e da Cultura, liderada pelo vereador Reimont Otoni (com a participação de Sônia Rabello e Eliomar Coelho, entre outros vereadores), nossos pleitos voltados para a desoneração tributária (IPTU e ISS) nas atividades da cultura, para a criação do Conselho Municipal da Cultura, para a reformulação da Lei de Incentivo e para a criação de um Fundo Municipal, estímulos mais do que atraentes às atividades de cultura em nossa cidade, ainda mais se permeadas com os conhecidos desafios inerentes às atividades da chamada Economia Solidária (EcoSol), demandas enfim que vieram à tona sem aquele habitual cortejo de hesitações. Algo semelhante se promoveu no âmbito da ALERJ em sintonia com os deputados Robson Leite, Gilberto Palmares, Paulo Ramos, Ines Pandelo, entre outros que não tardaram em se abrigar numa Frente Parlamentar de nome extenso, pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular.
 
A pauta é longa, não cabe toda num informe que neste instante se propõe apenas dar conhecimento aos blogueiros e ativistas das redes sociais aquilo que se articula nas esferas municipal, estadual e federal, no âmbito da comunicação, da economia solidária, da educação e da cultura quando tais Frentes parlamentares, multipartidárias por excelência, se propõem discutir com a sociedade temas – alguns espinhosos, mas relevantes – como a garantia sobre a liberdade de expressão e a proteção jurídica devida aos blogueiros e demais comunicadores, a não criminalização assegurada às rádios comunitárias, as performances e realizações prazerosas dos artistas de rua, o plano nacional da banda larga, um desafio e tanto, o lado pouco iluminado do  ECAD, o marco regulatório da comunicação, outra pedreira, o Vale-Cultura e assim por diante, todos eles tão caros a nós blogueiros, colaboradores e ativistas das redes.
 
Se nós, como protagonistas, temos em mente oferecer aos nossos leitores uma espécie de instrumento de um contrapoder, ou seja, de uma alternativa de apreensão da realidade que faça prosperar neles uma capacidade crítica capaz de levá-los a perceber a existência de uma visão diferente do mundo ora trombeteado pela grande mídia empresarial torna-se importante que tenhamos uma ideia, a mais precisa possível, da dimensão cultural na qual estamos inseridos, seja no universo do nosso condomínio, da comunidade, bairro ou cidade, sabendo de antemão que informação não implica necessariamente em comunicação. Daí porque soa bem que se abram as portas, ou seja, que blogueiros e ativistas que queiram vender seu peixe, acolham em seus veículos não apenas a ideia tecnicista da comunicação embutida nas novas tecnologias e que, não raro, conduzem a um espaço onde todo mundo tende a pensar mais ou menos a mesma coisa, mas ao contrário que se livrem de qualquer incumbência que nos torne encenadores da nossa própria rigidez e estejam sempre dispostos a desempenhar o papel de um agente do plural, quando essa pluralidade exigir de cada um que se produzam conteúdos com a atenção cada vez mais e mais voltada para o vasto universo das outras possibilidades que só a educação, a arte e a cultura proporcionam.
 
Portanto, ao nos dispor participar dessas atividades e mais especificamente do Grupo de Trabalho que abrigará na Frente municipal carioca o tema Comunicação queremos propor à comunidade de internautas progressistas um vínculo em que o RioBlogProg possa, assim como o fez com a realização do Iº Encontro, liderar, de braços dados com o PCult, EcoSol e as Frentes, um processo de integração e pluralidade, de caráter rebelde e pleno de ousadias, que conduza a avanços no desenvolvimento da comunicação e da cultura, longe de um universo de usuários isolados em seus blogues e páginas, limitados às vezes a seus grupos de afinidades, incapazes de dialogar com conteúdos e significados diferentes dos seus, mas ao inverso, edificar um espaço vasto e múltiplo, capaz de refletir o pluralismo da sociedade, onde não nos sintamos presos às nossas próprias simpatias e onde as diferenças políticas, que sempre existirão, possam ser negociadas à luz dos valores que acalentamos e dos alvos que perseguimos, consumando com tenacidade a travessia entre o discurso e a adoção de práticas que fortaleçam nossas crenças e a continuidade das lutas.
 
 
 
Antonio Fernando Araujo