Generais não dão flores

 
 
Antonio Fernando
 
 
 
Quando o simpático tenente da PM paulista, achegando-se a um grupo de moças que na Marcha da Liberdade (28/05) seguiam pela av. Paulista portando flores e cantando, indagou-lhes quem eram os líderes do movimento ouviu, quase que numa única voz, que ali não havia líderes, todos eram soldados rasos nenhum general. E enquanto estendiam-lhe flores uma completou, “até porque generais não dão flores”.
É possível que nesse instante o tenente tenha ouvido algo mais, aquilo que só daqui a alguns anos a próxima geração contará de verdade sobre suas mães que nessa Marcha, numa espécie de desobediência coletiva, inauguraram um tempo de passeatas que depois se alastrou pelo país porque naquele dia não apenas entregaram flores, mas foram capazes de perceber com acerto “por quem os sinos dobravam”, coisa que os magistrados que vêem a sociedade de longe e pela vidraça do andar de cima e por isso a proibiram, foram incapazes de o fazer.
Pois bem, era por eles mesmos que os sinos dobravam. A rigor, não exatamente, mas por tudo que representavam, uma sociedade autoritária, traumatizada pelas ditaduras do século XX que tanto fez para sufocar as utopias, equivocada por essa idéia de progresso que ao misturar alta tecnologia e postura consumista imagina estar dando respostas adequadas à uma sociedade que acabou parida por um arremedo de capitalismo ao qual se convencionou chamar de neoliberalismo e no qual todos estamos mergulhados até o pescoço.
Entretanto, enquanto na ilusão os de toga ou gravata viram apenas a apologia à maconha o que os jovens queriam era algo impregnado de um outro sentido, o direito de não apanhar por manifestar livremente as suas idéias. E porque lhes acalentava o sentimento de revolta que germina na alma e anseios por passar a borracha naquilo tudo que ali estava, não lhes foi difícil perceber que suas inquietudes tinham muito a ver com o que há pouco acontecera na Tunísia e na praça Tahrir, do Cairo e se propagara pela Síria, Bahrein, Yemen, Wisconsin, praça Catalunha, Puerta del Sol e, naquele instante, acabara por conceber aquele ensaio proibido no vão do MASP, quando, na marcha que se seguiu, distribuíram flores pelas avenidas Paulista e Consolação, nem que fosse apenas para comprovar que distribuir flores pode ser mais letal do que emitir proibições.
Quem nos garante que a juventude européia, latino ou norte-americana está a salvo de angústias semelhantes? Quem é capaz de jurar que um universo de frustrações existenciais, decepções políticas de variados tons, um não sei o quê de uma auto-estima que em algum momento se escafedeu, de uma não percepção de que o mundo se constrói aos poucos, mas que suas urgências não lhes permite ver nem sentir, tudo isso enfim não seja capaz de fornecer a munição suficiente para que uma passeata pela legalização da maconha se torne o combustível suficiente para que a insurgência assuma suas verdadeiras cores, a de um clamor popular que se recusa, por exemplo, a aceitar uma “governabilidade a qualquer preço”, desde a presença de um Sarney até o salário da professora Amanda Gurgel, passando por essa vergonhosa taxa Selic que, de antemão, já assinala para esta geração impaciente que em muito pouco deve apostar quando lhe falarem de um futuro promissor, digno e comparável a de outros países? (ainda que possa parecer melhor, quando nos comparamos com nós mesmos).
Não se trata de desestabilizar o governo Dilma, como me apontaram, longe disso, mas talvez de chacoalhá-lo. Fazê-lo ver que não basta comparecer à cerimônia de beatificação de irmã Dulce. É importante marcar presença na Marcha da Liberdade, dia 18 próximo, no Rio, no Encontro de Blogueiros Progressistas, na mesma ocasião, em Brasília, na feira de Garanhuns e no forró de Caruaru, em julho, no Círio de Nazaré, em Belém do Pará, em outubro. Fazê-lo entender que, neste momento em que o mundo parece querer entrar em ebulição e o nosso país não está a salvo, mais decisivo do que as intrigas do palácio é o gesto de chegar perto, bem perto. De dar as mãos aos indígenas e ribeirinhos para, contornados os impasses e junto com eles, às margens do Xingu, assistir a primeira carga de dinamite dar início a construção de Belo Monte e testemunhar o otimismo aflorando nos semblantes em volta. Fazê-lo perceber que nossos jovens têm pressas e sonhos e parecem querer passar o rodo na UNE e a na UBES, quietas até demais, como se estivessem cochilando ou por terem se tornado obsoletas antes do tempo, naqueles entraves jurássicos ou jurídicos que lhes obstrua o caminho das suas utopias, das suas realizações, sejam elas de natureza ética, política, profissional, moral ou existencial e em tudo o mais que lhes lembre o quanto é repugnante, por exemplo, um Pimenta Neves e os poucos meses que passará na cadeia ou os motivos que levaram à morte o casal sindicalista Zé Cláudio e Ma. do Espírito Santo, assassinado no Pará, cujos autores e mandantes, certamente ficarão impunes.
Em meio a sentimentos de tolerância, de solidariedade, de liberdade, de fraternidade, outros temas afins a tudo que entendemos como respeito aos inúmeros dos nossos valores emergem. E aí entra em cena a ânsia de expurgar a mentira e a hipocrisia presente, por exemplo, na grande mídia nativa, mais especificamente a oriunda da grande família GAFE (Globo, Abril, Folha e Estadão), de bradar pelos direitos das mulheres, pelo combate à pobreza, à desigualdade social, ao racismo, xenofobia e homofobia, pelo realce da nossa auto-estima, por um futuro próximo (não o daqui a 15 ou 20 anos) livre de um capitalismo predatório e egoísta, como se fôssemos – e os jovens em especial -, herdeiros delirantes daquela geração de hippies que valorizava a integridade, a honestidade e a verdade como princípios imutáveis de vida já que nesses aspectos, em muito se parecem, com o que sentiram os dos países árabes e agora sentem os da Espanha e, se estou certo, até mesmo o que distingue esses de São Paulo.
Assim, quando se assiste o ressurgimento dessas manifestações populares anticonservadoras, antiautoritarismos, solidárias, nascidas e articuladas nas redes sociais e ainda se constata que há flores de sobra para a PM’s e magistrados paulistas, podemos apostar então, os jovens saberão com destemor, reservá-las em maior escala para as centenas de camponeses sem terra, para os trabalhadores rurais, para a massa dos sem-advogado, rotos e pobres, sindicalistas, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, favelados e em especial para todos aqueles que defendem a volta do país que lhes pertence, seu pedaço de chão ou teto, ousam sonhar e ir contra alguma coisa, uma injustiça, por exemplo, e por isso são mártires anunciados, marcados para morrer. Estou certo que, daquela egoísta indiferença que Bertold Brecht, Maiakovski e Niemöller lamentaram em seus poemas esta geração já acena por querer se livrar, convidando Dilma a se juntar a ela, combinando tudo direitinho pela internet e depois não arredar mais o pé das ruas. 
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