Leia, mas confira tudo que Veja diz

15/09/2011
 
Normalmente, os países buscam informações sobre outros pesquisando a imprensa destes. Espionagem à la 007 é, comparativamente, bastante rara.
 
Os americanos não fogem à regra mas, confirmando seu pendor para o domínio mundial, já perceberam que nossa Veja não é das publicações mais confiáveis.
 
Ao contrário, muitos de nós, brasileiros, fazemos profissão de fé sobre as capas do semanário. O texto abaixo foi copiado http://operamundi.uol.com.br. Edemar.
 
 
 
 
 

Wikileaks: Para EUA, Veja fabricou proximidade do PT com as FARC por objetivos políticos

 
No dia 16 de março de 2005, a revista semanal Veja publicou a matéria “Os Tentáculos das FARC no Brasil”, em que detalhava uma possível relação entre membros do PT (Partido dos Trabalhadores) com a guerrilha colombiana. O caso, porém, foi relatado pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília como um exagero, além de uma tentativa de “manobra política”.  O documento da embaixada com o relato foi  divulgado pelo Wikileaks.
 
Segundo a matéria, candidatos petistas teriam recebido 5 milhões de dólares da guerrilha durante uma reunião no ano de 2002, em uma fazenda próxima a Brasília. Na ocasião, membros do PT teriam se encontrado com o representante da organização colombiana no país, Francisco Antonio Cadenas, e acertado os detalhes. O objetivo seria financiar a campanha de reeleição do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010)… 
 
O partido, porém, negou as acusações e a Veja não conseguiu provas documentais sobre a transferência de dinheiro.
 
Para embaixada norte-americana, a revista “exagerou o real nível das relações entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o PT”, segundo o documento datado de março de 2005. Isso porque, após as acusações, membros da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) em Brasília, que de acordo com a revista, estavam infiltrados no encontro, não obtiveram provas concretas sobre o recebimento de dinheiro.
 
Citado pela embaixada norte-americana, o general Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Abin e que acompanhou a investigação, afirmou que os documentos internos da agência citados pela Veja como provas foram “forjados”, já que não estavam nas formatações da agência.
 
“O que foi publicado é uma mistura de meias verdades e meias mentiras. Nós não temos qualquer documento oficial que prove que o encontro ocorreu”, afirmou o delegado e chefe da Abin, Mauro Marcelo, também citado no despacho.
 
No documento, fica explícito o estranhamento do embaixador norte-americano em relação a demora de três anos para divulgação do possível financiamento. “A história mais parece uma manobra política. O que é incontestável é que os membros do PT e representantes das FARC estiveram juntos em um encontro, mas não há provas de colaboração financeira”, disse.
 
Para ele, o que deveria ser uma denúncia importante tornou-se uma ferramenta arquitetada pela Veja para minar a candidatura de Lula ao segundo mandato. “Enquanto os opositores e a outros veículos de comunicação estão notavelmente desinteressados em prosseguir com as acusações e investigações, parece que a Veja está exagerando os fatos”, conclui o embaixador.
 
 
 

Veja José Dirceu

06/09/2011

 

Reproduzo alguns trechos do blog de José Dirceu (www.zedirceu.com.br) onde este desnuda a desonestidade daquela revista. Edemar.

 

Medo da regulação da mídia? É pavor de concorrência                                                                                                                     Publicado em 06-Set-2011

Os barões da mídia e seus porta-vozes, inclusive no Congresso Nacional, continuam inconformados com a decisão tomada no 4º Congresso Nacional do PT, realizado no fim de semana, em Brasília, de lutar e mobilizar o país e a sociedade pela regulação da mídia. Também não mudaram de tática: continuam a seguir a principal, adotada há muito tempo, de tentar infundir na opinião pública que regulação da mídia é o mesmo que censura à imprensa.

Mais do que infundir, querem confundir, desinformar seus leitores. Vejo que hoje são auxiliados por dois senadores da oposição, o líder do PSDB, senador Álvaro Dias (PR) e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). O parlamentar pernambucano diz que marco regulatório da mídia “é o nome pomposo para um verdadeiro tribunal da inquisição da comunicação que os petistas querem implantar”. O líder tucano vem com uma história de que o PT defende a regulação para impedir denúncias de corrupção.

Os barões da mídia e seus porta-vozes nada mais fazem do que defender sua posição retrógrada e atrasada de sempre contra a regulação que, repito, existe na maioria dos países democráticos do mundo. É uma posição defensiva deles. Acuados, temem a concorrência e a perda do poder político, dos monopólios que detêm sobre a informação, graças aos impérios de comunicação que, ou herdaram, ou montaram em cada Estado.

Regulação não tem nada a ver com censura à imprensa

Regulação não tem, no entanto, nada a ver com censura ou controle da mídia. Ao contrário do que falou o senador Jarbas Vasconcelos, tampouco tem a ver com Veja, até porque o PT e a parcela consciente da nossa sociedade pró-regulação defendem-na há muito tempo e essa reportagem da revista contra mim saiu na semana passada (Leia mais neste blog). E a reportagem é outra coisa, é um caso de polícia e de jornalismo marrom.

Muito menos – ao contrário do que afirma Álvaro Dias – regulação tem a ver com denúncias de corrupção, que precisam ser todas apuradas e os responsáveis punidos.

Essa questão da regulação é um direito – meramente isso – inscrito na nossa Constituição, e defendido para que a mídia, que reina absoluta entre nós sem nenhuma legislação, tenha leis que rejam seu funcionamento e a obriguem a respeitar a Constituição (remeto-me a ela, mais uma vez) a princípios universais elementares como o respeito aos direitos de resposta, de imagem, privacidade e presunção da inocência.

Tudo isso já é assegurado pela nossa Constituição. Os barões da mídia fazem disso letra morta, mas terão de obedecer esses princípios com a regulação – daí a sua resistência contra.

Leiam também no portal Opera Mundi material completo sobre a regulação da mídia em diversos países.
 

  

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A tentativa de Veja de justificar seu injustificável jornalismo marrom
Publicado em 06-Set-2011

Veja usa toda a Carta ao Leitor desta semana para tentar justificar sua reportagem da edição 2232, de 31 de agosto, a meu respeito. É uma iniciativa para justificar o injustificável. Antes de a matéria ser publicada eu já havia denunciado a tentativa criminosa de seu jornalista, Gustavo Ribeiro, de invadir meu apartamento e o uso ilegal de imagens – obtidas não se sabe de que forma – de cidadãos que se reuniam ou me visitaram no Hotel Nahoum, onde resido quando estou em Brasília. 

Sem falar na tentativa do mesmo jornalista de se passar por assessor da prefeitura de Varginha (MG), cidade onde ele nasceu, para me entregar supostos documentos com pedidos da prefeitura ao governo, o que caracteriza outro crime – o de falsidade ideológica, o que também denunciei (Leia mais neste blog). 

A Carta ao Leitor, com o título sugestivo de “A verdadeira questão”, começa com um erro que revela o mau jornalismo da revista, ou o mais grave, as suas mentiras: diz que meus direitos políticos foram cassados. Não foram. A Câmara, ao me cassar o mandato de deputado federal em 2005, sem provas e injustamente, tornou-me inelegível por oito anos, mas não me cassou os direitos políticos. Voto, sou filiado ao PT, membro do Diretório Nacional e tenho direitos políticos sem restrições, inclusive para ocupar cargos públicos.

Ônus da prova cabe ao acusador

Ser réu não significa culpabilidade, já que o ônus da prova cabe ao acusador, no caso o Ministério Público Federal, como deixaram claro vários ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao acolherem a denúncia em agosto de 2007. Veja não pode afirmar – ao contrário do que faz em suaCarta ao Leitor – que a reportagem se baseia em imagens da câmera de segurança do hotel. Somente a perícia a ser realizada a partir do Boletim de Ocorrência (BO) e do inquérito instaurado pela 5ª  Delegacia de Polícia do Distrito Federal poderá dizer se as imagens são da câmera do hotel ou têm outra origem.

E, ao afirmar que suas imagens são da câmera do hotel, a revista reconhece que cometeu mais um crime, o de publicar, sem crédito, imagens sem autorização do hotel e dos hóspedes e visitantes que aparecem nas fotos, uma invasão da privacidade e da intimidade desses cidadãos. A revista não esclarece a seus leitores que meu escritório de advocacia, Oliveira e Silva e Ribeiro Advogados Associados na capital paulista, mediante contrato de reciprocidade (inclusive no uso das instalações comuns) registrado nas seccionais da OAB de São Paulo e Brasília, tem associação com o escritório Tessele & Madalena Advogados Associados.

Não esclarece, tampouco, que os apartamentos 1604 e 1606 do hotel estão alugados pelo escritório Tessele & Madalena, conforme confirmação de reserva nº 2309386 da Nahoum Turismo e Hospedagem S.A.. No registro da reserva de 13/03/11 a 06/12/11 consta como hóspede Oliveira, José Dirceu. 

Gabinete pseudo secreto

A revista diz que tenho um “gabinete secreto”, mas sabe que me hospedo nesse hotel e, inclusive, que jornalistas ali me visitam para entrevistas. Aliás, notas publicadas na coluna política dos jornalistas Cláudio Humberto e no Blog do Noblat registram que, desde 2006, em Brasília, resido em hotéis, frequento suas academias, restaurantes e cafés. É público e notório, portanto, que tenho residência e atendo naquele domicílio como extensão de meu escritório de advocacia, conforme o contrato registrado na OAB-DF. 

Tudo isso torna muito mais grave a tentativa de invasão de meu apartamento, só frustrada pela ação da camareira do hotel. Ela impediu que o jornalista Gustavo Ribeiro consumasse sua intenção de entrar no meu quarto ao alegar que perdera a chave do meu apartamento. O incidente foi imediatamente comunicado pela funcionária à sua chefia. 

Há, também, o fato gravíssimo de o jornalista somente ter se registrado no hotel depois da tentativa criminosa de invadir minha residência. Mesmo assim, não fui eu quem o acusou. Quem o fez foi o Hotel Nahoum, como consta do Boletim de Ocorrência à disposição de todos em meu blog (confira as imagens aqui e também neste link). Por esse documento, quem comunicou os fatos à polícia foi o chefe da segurança do hotel. No BO, José Dirceu e Hélio Madalena (meu sócio no escritório) constam como vítimas. O jornalista Gustavo Ribeiro é registrado como autor e a camareira como testemunha. O hotel consta como responsável pela comunicação do fato. Repito: não sou o autor do BO, como falsamente afirma a revista. Mais claro impossível. 

“Gente desclassificada”

Sobre a origem das imagens, não adianta a revista vociferar e agredir os blogs que, segundo ela, são feitos por “gente desclassificada”. Esse tipo de afirmação mostra o desespero da publicação.

Somente o inquérito policial poderá dizer se as imagens são da câmera do hotel ou de uma câmera ilegalmente instalada por arapongas, e se a revista comprou, ou não, as imagens. O fato irrefutável é que a Veja usou imagens sem autorização e as obteve ilegalmente. Também não se pode negar que o jornalista procurou se passar por mim para tentar invadir meu quarto; e que, por fim, simulou ser um assessor da prefeitura de Varginha para, novamente, ter acesso ao meu quarto.

O malfeito da revista está provado. São fatos e imagens que nenhumaCarta ao Leitor ou editorial podem mudar. Sem contar com o ridículo do conteúdo político da matéria, uma prova concreta do mau jornalismo panfletário e ideológico de Veja.

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Noventa Vezes em Nove Anos

04/09/2011

 

Trago material copiado do excelente Blog do Miro (http://altamiroborges.blogspot.com) e manifesto minha curiosidade sobre as razões de tanto ódio. Um dia saberemos, espero. Edemar.

Dirceu, Veja e o tribunal midiático

 
Por Washington Araujo, no Observatório da Imprensa:

Espanto, perplexidade, surpresa. Alguém em sã consciência poderia dizer que teve uma destas reações ao deparar com a capa da revista Veja (nº 2232, de 31/8/2011)? Só se for a de um brasileiro residindo em Berlim ou em Nairobi. Veja pode ser acusada de práticas jornalísticas pouco usuais, politicamente destemperada, editorialmente desequilibrada, mas não pode ser acusada de incoerência. No caso atual, a eterna “bola da vez” é o combativo militante petista – e sempre combatido pela revista – José Dirceu. E quem apostar que está difícil nesses tempos de turbulência na economia internacional “emplacar” um escândalo com fortes cores nacionais apostará corretamente, pois nesses casos a revista da Abril lança mão de seu tema-de-escândalo-habitual: Zé Dirceu.

Uma rápida busca nos arquivos digitalizados da própria revista mostra nada menos que 49.587 resultados quando preenchemos o campo de pesquisa com as palavras “José Dirceu”. E se formos pesquisar por edição, teremos que bisbilhotar – algo que a revista faz com maestria – nada menos do que em 91. Este é o número de vezes em que, no período 2002-2011, José Dirceu irá figurar na capa da revista, seja na manchete ou em chamadas secundárias.

Em uma breve retrospectiva vemos o vírus insidioso da intriga em seu nascedouro, como a farejar a proximidade inevitável do poder. E assim nasce a primeira chamada lateral de capa (25/9/2002): “José Dirceu: O homem que faz a cabeça de Lula”. E perfil mostra o guerrilheiro que treina em Cuba, participa ativamente da luta contra a ditadura brasileira e, foragido, se submete a uma cirurgia plástica no rosto.

A segunda “aparição”, ocorre na edição de 6/11/2002, quando Dirceu divide a capa-palco com dois outros ministros do primeiro governo Lula – Antonio Palocci e Luiz Gushiken. Os três vestidos a caráter para ilustrar a chamada que guarda certa nostalgia dos tempos do Brasil Império. Diz a manchete: “A cúpula da nova corte – Os três mosqueteiros com quem é preciso falar para ser ouvido no governo Lula”. O texto tem um único objetivo: mostrar quem tem poder real no novo governo e classificar as demais autoridades como meros figurantes, resultado de acertos de promessas a partidos políticos ao longo da campanha presidencial.

Escolhidos a dedo

Chega o ano de 2004 e Veja mostra a que veio, elegendo José Dirceu como representante-mor do “mal” que se apossa do corpo do Brasil, quase como uma entidade sobrenatural, não obstante a chamada lateral de sua capa de 3/3/2004 parecesse vender a imagem de um ex-ministro-todo-poderoso em franca desgraça: “José Dirceu: O ministro continua encolhendo”.

Para chegar à tese do encolhimento do detentor de poder político, a revista vinha desde 2003 lançando farpas e lanças, como para dividir de forma irremediável aqueles mesmos três que antes saudara como sucedâneos de Athos, Portus e Aramis. É o período em que escapa da artilharia pesada apenas o D’Artagnan redivivo em Luiz Inácio Lula da Silva. E escapa porque consegue se manter em crescente popularidade junto aos milhões de súditos, para usar a metáfora acolhida pela revista. Logo na semana seguinte a edição de Veja (10/3/2004) traz seu rosto tomando toda a capa e os dizeres simulando desabafo do retratado: “Dirceu: Não vou sair do governo”.

São muitas matérias, geralmente citando fontes em off, frases recolhidas fora do contexto em que foram ditas e reajuntadas a contextos mais atuais, mas tendo um único objetivo: manter com Dirceu a aura de malévolo, gângster, traficante de influência nato e outros epítetos nada lisonjeiros a alguém que tem claro protagonismo político e partidário, além de sagaz operador do governo que ajudou a eleger ao criar estratégias vitoriosas e reconhecidas mesmo por seus mais acerbos adversários. Esta abordagem que cada vez mais se enraíza no modo-Veja-de-fazer-jornalismo deságua em outra capa com o rosto do ex-ministro e a manchete premonitória e sombria (3/8/2005): “O Risco Dirceu”.

De 2005 a 2007, José Dirceu estará sempre relacionado com o que a grande imprensa optou por chamar de “Mensalão do PT”. Matérias e quase-reportagens no período esposarão teses fatalistas tendo como ponto de convergência o impeachment do presidente Lula, a desmoralização completa dos partidos de esquerda, em particular do Partido dos Trabalhadores. As “páginas amarelas”, aquelas que abrem as edições de Veja com “grandes entrevistas”, serão literalmente amareladas com entrevistados que desenvolvam qualquer tese, por mais estúpida que seja, para desmerecer ou se contrapor frontalmente a quaisquer das políticas públicas mais vistosas do governo Lula: o Bolsa Família, a transposição de águas do Rio São Francisco, o ProUni, a política de ações afirmativas (cotas para negros, índios nas universidades). Entrevistados mostrarão por a+b que o Bolsa Família é na realidade uma Bolsa-Esmola, que o programa tem apenas apelo eleitoral, é insustentável e só tem porta de entrada.

Lembram dessas histórias? Entrevistados escolhidos a dedo para prestar sua devoção incondicional aos cânones do neoliberalismo, ao papel mínimo do Estado, ao sacrossanto direito a extensões de terras para corar de inveja os faraós do antigo Egito. O acesso de afrodescendentes às universidades através de cotas receberá a cada semana um novo petardo onde tais luminares encontrarão apenas mazelas sociais no Brasil e nunca mazelas raciais.

Imprensa criminosa

Na edição de 19/9/2007 a chamada lateral na capa é um primor de síntese da atividade judiciária: “Caso MSI/Corinthians: A Polícia Federal descobre as pegadas de José Dirceu”. A criminalização de José Dirceu parece fazer parte do manual de redação da revista. É quando Veja levanta suspeitas, investiga, acusa, julga, condena, acompanha o cumprimento da pena e veta qualquer direito ao contraditório. O Tribunal Midiático parece ter mais poder destruidor que Tribunal regular, instância judiciária em uma sociedade democrática.

O Tribunal Midiático recebe o apoio não falado, não escrito, não reverberado, não consignado de seus pares, igualmente juízes e donos do mesmo poder de noticiar, informar, afirmar, acusar, julgar, condenar. Para integrar tal Corte basta ter jornal impresso com alta tiragem e ampla circulação diária, ter concessão pública de exploração de canal de tevê aberta e emissora de rádio com cobertura nacional em AM e FM, além de vistosos portais na internet e a propriedade de alguns canais de tevê a cabo.

Como um contrato de gaveta, sem legitimidade ou valor legal perante o Poder Público, os que integram o Tribunal Midiático agem à la James Bond, aquele velho personagem vivido por Sean Connery, cujo poder estava inscrito em sua identidade: “Licença para matar”. A verdade é que a maior concessão que um capo da mídia pode fazer em relação a um desafeto é lhe conceder, eventualmente, espaço para escrever algo, colocar de pé uma ideia. Mas nunca para se contrapor de maneira frontal e explícita contra o veículo de comunicação que assaque contra sua honra, invada sua privacidade, utilize de banditismo para fazer circular a “sua” verdade sobre um determinado assunto. Qualquer assunto.

Chega agosto, mês de desgosto para alguns, mês de tragédias nacionais na política brasileira (Getúlio Vargas, Jânio Quadros etc). E a revista Veja parece continuar impressionada com a saga de Mario Puzo, com o seu Don Corleone, de O Poderoso Chefão. A capa da edição de 31/8/2011 traz o rosto de José Dirceu, óculos escuros, meio-sorriso mafioso, bem versão Marlon Brando, vestindo o personagem de Puzo. O texto de capa é, muito provavelmente, o mais destoante entre uma chamada de capa e sua matéria interna: “O Poderoso Chefão / O ex-ministro José Dirceu mantém um ‘gabinete’ num hotel de Brasília, onde despacha com graúdos da República e conspira contra o governo da presidente Dilma”.

O que merecia mesmo uma ampla reportagem é a metodologia adotada pela revista para cumprir sua pauta. Repórter se passando por companheiro de quarto de hotel de José Dirceu. Repórter tentando conseguir a chave do apartamento de José Dirceu com a camareira. Imagens citadas/retratadas na revista como se houvessem sido cedidas pela segurança do hotel – aliás, e isso parece inacreditável, o mesmo hotel que lavrou boletim de ocorrência em delegacia de polícia dando conta de hóspede suspeito querendo invadir um quarto. Etc., etc., etc. Os crimes lançados na “reportagem” infelizmente, para a revista, não são tipificados no Código Penal brasileiro: receber visitas em seu quarto de hotel, visitas que tanto podem ser de entregadores de pizza ou comida chinesa, como de parlamentares ou mesmo ministros de Estado.

Não discorro mais sobre o assunto porque Ricardo Kotscho já disse tudo sobre esta última parte (ver “Repórter não é polícia; imprensa não é justiça”). A pulga que tenho na orelha é saber se, por algum acaso, repórteres de Veja estagiaram recentemente no jornal News of the World do realmente mafioso midiático Rupert Murdoch. Caso tenham estagiado, pelo jeito não aprenderam bem as lições que somente uma imprensa criminosa poderia ensinar.

  

O Banco Central e os juros

02/09/2011

 

 

Reproduzo com orgulho, por todos escassos meios a meu alcance, este elucidador artigo do Jornalista Mauro Santayana que li no Conversa Afiada, do Paulo Henrique Amorim. Edemar.

 

Os juros e o Banco Central


por Mauro Santayana


Os defensores da plena autonomia do Banco Central consideraram um erro a redução da taxa Selic, de meio ponto percentual, para 12% ao ano – ainda assim, a mais alta entre as economias industrializadas. Sempre que isso ocorre, os mesmos interesses se erguem, na defesa dos rentistas. Como as moedas não copulam, nem partejam, quem paga os juros é o trabalho, que produz a mais valia obtida pelo capital. Desculpem se a expressão é marxista, mas qualquer um que pense um pouco não precisa de Marx e seus textos contestados pelo fundamentalismo mercantil, para chegar à verdade. Como trabalho se entenda também a administração das empresas produtivas, seja diretamente pelos acionistas ou gerentes contratados. Mas o rentista clássico, que vive longe das máquinas ou, que, como banqueiro, manipula o dinheiro alheio – e leva à angústia e ao desespero os devedores, os estados à falência, como está ocorrendo agora, com o desemprego e a violência –  sua atividade não pode ser vista como produtiva, por mais se esforcem os seus porta-vozes, ao expor os argumentos de uma pseudo-filosofia econômica. Esse “senhorio” da moeda, em nome de falsa racionalidade técnica, que está sempre a serviço do capital, e não das pessoas,  tem sido responsável pelas grandes crises do capitalismo moderno, como a História demonstra.


O Banco Central – e os lugares comuns têm a sua força – vem sendo, no Brasil, mais do que em outros países, a central dos bancos. Ora, seus diretores, por mais geniais sejam, não dispõem de legitimidade política para cuidar da moeda, que é o símbolo mais forte da soberania nacional. A moeda representa os bens da comunidade, acumulados com o trabalho de gerações sucessivas. Para que assegure  seu valor real, ela deve ser emitida por quem tenha a legitimidade política para fazê-lo: os eventuais governantes do Estado, como detentores da vontade nacional. Sem voto, nos estados democráticos como se identifica o nosso, não há poder legítimo. De duas, uma: ou o Banco Central se submete às decisões políticas do governo nacional, ou se estará sobrepondo ao poder dos eleitos para conduzir o Estado, e, assim, colocando-se acima da soberania do povo.


A quem interessa manter os juros altos? Há um axioma, que nunca se respeitou no Brasil, de que a taxa de juros não pode superar a taxa de crescimento do PIB. O raciocínio, empírico, é irretorquível: uma sociedade não pode pagar mais de juros do que o que ela obtém com o seu trabalho. A tradução de um leigo, como o colunista, é simples: trata-se de uma extorsão cometida pelo sistema financeiro contra os que trabalham e produzem. É mais do que uma transferência de recursos, é uma usurpação do poder real sobre a sociedade. Isso explica a dívida pública acumulada como confisco de parcela dos resultados do trabalho dos brasileiros.


É um mistério que o país continue crescendo dentro desse sistema. Talvez ele se explique se considerarmos as estatísticas uma ficção. É provável, portanto, que o nosso PIB real seja maior do que o IBGE constata no exame do comportamento da economia. Se assim for, que viva a informalidade, menos sujeita à expropriação dos bancos e aos instrumentos de aferição oficial.


A economia não é, como dizem os que a conhecem melhor,  ciência exata. Deveria ser  ciência moral, mas não é, a não ser que ouçamos alguns santos, que dela trataram, como Santo Antonino de Florença, do século XV, autor do clássico de teologia “Summa Moralis” e feroz combatente contra a usura.


Os economistas, de modo geral (menos, é claro, os mais competentes) costumam fazer de seu ofício uma espécie de culto esotérico, com confusas fórmulas algébricas e aleijões lógicos. Como recomendava Lord Keynes, eles deveriam encarar o seu trabalho com a mesma modéstia com que os dentistas encaram o seu. O certo é que todas as aplicações da inteligência, ou todos os saberes, se assim entendemos as ciências, se encontram a serviço das relações de poder.  Isso faz com que a economia volte à sua denominação clássica, da qual seus profissionais de hoje buscam fugir: economia política. Fora da política, que trata do poder, não há economia, nem há coisa alguma. O Banco Central, como administrador da moeda, deve sim, submeter-se à legitimidade do poder político.


Para lembrar um empresário e homem público brasileiro, que nos deixou recentemente – José Alencar – a taxa de juros cobrada no Brasil (e cobrada sobretudo do Estado, com a cumplicidade de alguns de seus servidores) é um assalto.