LULA e um canto de um herói

25/12/2011

 

Não são tantos os heróis assim, porque deixar um rastro profundo na alma de qualquer povo exige do pretendente, antes de tudo, que se torne o sal da terra. Ora, ser um daqueles caras que adubam o chão por onde passam é fazer o que tem que ser feito, quando tem de ser feito, independente das conseqüências, porque se assim não for “será jogado fora e pisado pelos homens.” Quem escreveu isso foi o apóstolo Mateus. “Cheguei  à Presidência, disse Lula, para fazer as coisas que precisavam ser  feitas e que muitos presidentes antes de mim foram covardes e não tiveram coragem de fazer.” (Folha de São  Paulo, 30/10/2003). E assim se tornou o sal da terra.

O mesmo apóstolo lembra: “ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim num candeeiro, onde ela brilhará para todos….” Talvez tenha sido assim com Lula, cintilou e estendeu seu brilho para todos e por todos os rincões deste país. Não demorou e a intensidade da chama alcançou os outros lados do planeta. Então passaram a lhe render homenagens.

“Eu sou  filho de uma  mulher que  nasceu analfabeta,” disse ele em 8 de março de 2004, no Dia Internacional da Mulher. E por conta desse falar estropiado, por ter nascido pobre, retirante, operário e líder sindical, por ter estudado quase nada e ter a língua presa, por cada uma de suas falas dar a impressão que a simplicidade destoava da sabedoria, por lhe faltar além do dedo a solenidade que se espera de um presidente a imprensa-empresa e parte considerável das elites médias e altas do Brasil nunca o perdoaram e assim optaram por fazer do absurdo um estilo com o qual consagraram um sistemático bombardeio difamatório – que se prolonga até os dias de hoje – ao governo daquele “sapo barbudo” que ousava exibir qualquer coisa de esfinge atrás de um rosto amável fora do tempo. Nunca o entenderam, tampouco o decifraram. Sequer perceberam aquele dom que ampliava a intensidade da sua luz: a paciência – como a de um camelo – que exaltava assim, o que escrevera Giacomo Leopardi: “é a mais heróica das virtudes, justamente por não ter nenhuma aparência de heroísmo.”

“Pobre do país que precisa de heróis para defender a dignidade”, pronunciou Lula em 29 de junho 2004, dessa vez na  abertura da Conferência Nacional dos Direitos Humanos. “Nunca dantes na história deste país” alguém atropelou com tanta habilidade, graça e magia a língua portuguesa. E assim, com os olhos incandescentes e por vezes lacrimejantes de um sonhador, com sua personalidade avassaladora, barba de profeta e um coração benevolente iluminou um canto de amor à dignidade dos pobres deste país.

Certa vez falou aos jornalistas, sem se apequenar, o quanto era tamanho o peso de chumbo da sua educação. Se via cercado pela ditadura das palavras erradas e o quanto invejava a liberdade das palavras certas. “O governo tenta fazer o simples, porque o difícil é difícil”, pronunciou solene na 1ª Conferência  Nacional do Esporte, em 17 de junho de 2004. Aos meus olhos isso é parte de um horizonte brilhante que muitos adorariam ter alcançado, desse universo de semelhanças que num instante o identificam com seu povo, muito maiores que as diferenças que poderiam separá-los, ainda mais quando adornado com a expressão de um orgulho ímpar com que celebra cada conquista de sua tenacidade, com a luz da poesia.

E é por causa dessa luz inebriada de paciência que ele exibe no rosto as marcas das vitórias e das perdas em oito anos de mandato e que, embora decorrido um ano, ainda teima em brilhar para todos, que a jornalista Zilda Ferreira, finalmente, poderá entender – doze meses depois de ter escrito -, “por que a multidão [em Brasília, 01 de janeiro de 2011] gritava ‘Lula, herói do povo brasileiro!’. Gritava também enquanto o ex-presidente passava a faixa presidencial…. Depois, quando descia a rampa… Nesse momento…, em que quebrou o protocolo, atravessou a rua e foi cumprimentar o povo, quase chorando.” Consagrou então seu canto de herói, entregou-o em lágrimas à multidão que o aclamava, ampliou como ninguém a chama de seu candeeiro e sem ornamento algum tornou pálida a arte dos governantes que o antecederam.
 
– “Cheguei à Presidência para fazer as coisas que precisavam ser  feitas…” Taí…, um singelo canto de um herói.
 

 Antonio Fernando Araujo 

 

 


ARGENTINA – O caso “Papel Prensa”

25/12/2011

 

Esclarecedor texto publicado em Carta Capital desta data.

 

 

 

O monopólio controlado ao longo dos últimos 34 anos pelos dois maiores jornais argentinos começará a desmoronar, e esse desmoronamento será veloz. É fácil entender a ira do Clarín, do La Nación e de todos os barões da imprensa latino-americana, a começar pelos do Brasil. Difícil é entender que não se diga, às claras, que o que está sendo ameaçado é um negócio espúrio, embora de ouro, e não a sacrossanta liberdade de expressão. O artigo é de Eric Nepomuceno.

 

Eric Nepomuceno, de Buenos Aires.

 

A aprovação no Congresso argentino, por ampla maioria de votos, do projeto de lei que declara que “a fabricação, distribuição e comercialização do papel de imprensa é questão de interesse público”, reforçou ainda mais os ataques dos dois principais jornais argentinos, o La Nación e o Clarín, contra a presidente Cristina Kirchner.

E isso porque, assim que entrar em vigor, a nova legislação argentina irá tirar o papel de imprensa do férreo controle desses dois jornais, que controlam o capital da Papel Prensa. O Clarín tem 47% das ações, o La Nación outros 22%, enquanto o Estado argentino é dono de 27%. Os restantes 4% estão pulverizados entre pequenos acionistas.

A fábrica é a única a fornecer o papel utilizado pelos jornais e revistas do país. De um consumo médio de 230 mil toneladas anuais, a Papel Prensa produz e distribui 175 mil toneladas. Outras 55 mil são importadas, isentas de impostos. Controlar 75% desse mercado, como faz a Papel Prensa é exercer, de fato, o monopólio.

A nova lei, além de declarar de interesse público a fabricação, distribuição e importação do papel de imprensa, estabelece exigências que vão da expansão da capacidade da Papel Prensa à aplicação de um preço único, sem levar em conta a quantidade adquirida pelos compradores. Isso significa que um pequeno jornal do interior pagará o mesmo preço cobrado ao Clarín, que vende em média 400 mil exemplares diários e 700 mil nos fins de semana.

Hoje, o Clarín e o La Nación consomem 71% da produção da Papel Prensa. Os outros 29% vão para 168 publicações, que pagam pelo menos 15% a mais do que é pago pelos dois maiores jornais do país. E mais: ao controlar o capital da fábrica, Clarín e La Nación sabem, com certa antecedência, quando o preço do papel vai subir, e antecipam compras grandes, forçando um aumento nas importações. Todas as outras publicações argentinas pagam a diferença.

Outro detalhe do negócio: a Papel Prensa compra, para reciclar, os exemplares não vendidos tanto do Clarín como do La Nación, pagando 900 dólares a tonelada. Apenas esses dois jornais vendem seus encalhes à Papel Prensa. Os outros vendem no mercado avulso, a um preço bastante inferior.

Atualmente, a Papel Prensa opera com apenas 60% de sua capacidade. Quando a nova legislação entrar em vigor, será determinado de imediato um aumento na produção, até o país alcançar sua autonomia. Serão estabelecidas metas de investimento a cada três anos. Caso os dois jornais, que detêm a maioria da Papel Prensa, não cumpram sua parte, o Estado cobrirá a diferença, aumentando sua participação no capital da empresa. Por isso, o Clarín e o La Nación acusam Cristina Kirchner de ter armado uma tramóia que permitirá que o Estado assuma a empresa.

É assim que o monopólio controlado ao longo dos últimos 34 anos pelos dois maiores jornais argentinos começará a desmoronar, e esse desmoronamento será veloz. É fácil entender a ira do Clarín, do La Nación e de todos os barões da imprensa latino-americana, a começar pelos do Brasil. Difícil é entender que não se diga, às claras, que o que está sendo ameaçado é um negócio espúrio, embora de ouro, e não a sacrossanta liberdade de expressão.

Difícil, além disso, é entender as razões claramente falaciosas de tantos protestos indignados, todos eles tendo como bandeira a liberdade de imprensa. Afinal, mesmo que se admita que deixar o controle do papel de jornais e revistas nas mãos do Estado possa ser uma ameaça, manter esse mesmo controle nas mãos de dois grupos privados hegemônicos seria um meio eficaz de assegurar essa tão ameaçada liberdade? Será que os métodos aplicados pelo Clarín e pelo La Nación à concorrência asseguram essa liberdade?

Não é necessário mencionar a desfaçatez com que o Clarín distorce o noticiário e sabota informação através de seu formidável poderio, que vai de emissoras de rádio à internet, passando por jornais regionais, revistas e o domínio praticamente absoluto da televisão por cabo. Bastaria recordar a maneira com que, sempre em associação com o La Nación, impõe regras draconianas e imperiais sobre a publicidade privada.

Nas críticas que tanto um como outro lançam, furiosos, contra o governo, sempre há amplo espaço para denunciar a concentração da publicidade oficial em meios que são, em maior ou menor medida, simpáticos ao governo.

Essa concentração realmente ocorre. Mas falta recordar que tanto o Clarín como La Nación se jactavam, até há pouco, de sua recusa sistemática a aceitar publicidade oficial em suas páginas, salvo raras exceções. No caso específico do Clarín, José Aranda, vice-presidente do grupo, diz que um terço da receita vem de anúncios classificados, outro terço da venda de exemplares, um terço mais de anúncios convencionais. Portanto, diz ele, a publicidade oficial não faz falta.

Além disso, os dois jornais têm uma regra comum para a venda de seus respectivos espaços de publicidade: os grandes comércios e indústrias que anunciarem nos dois, e somente nos dois, têm um desconto de 50% sobre suas tabelas. Quem se dispuser a anunciar nos outros jornais, ou seja, nos que se alinham com o governo, perde esse desconto.

O que acontece na Argentina é mais profundo e complexo do que parece. Existe, sim, uma clara pressão do governo, mas não sobre a liberdade de expressão e de informação: o que se trata de combater é a liberdade de pressão e de deformação.

Além do mais, paira sobre a Papel Prensa a denúncia de um crime. Há indícios mais que concretos de que a única fábrica de papel de imprensa do país foi parar nas mãos do Clarín e do La Nación graças à ditadura militar que seqüestrou, ameaçou e torturou familiares de David Gravier, que era seu sócio majoritário e morreu de forma misteriosa em agosto de 1976, quando o terrorismo de Estado estava no auge (um auge, a bem da verdade, que durou até 1983).

Foi assim, na base de crimes de lesa-humanidade, que a Papel Prensa foi parar nas mãos dos donos do Clarín e do La Prensa. Os mesmos que, beneficiados por um regime sanguinário e corrupto que ajudaram a construir e, depois, a manter, agora acusam um governo eleito democraticamente, e reclamam o sacrossanto direito da propriedade privada.

 

 

Edemar ainda acredita e confia no “Efeito Orloff”