Essas mulheres maravilhosas influenciam todos

31/10/2010
30 de outubro de 2010 às 21:34

Fátima Oliveira: Comida búlgara e mineira, para mulherar Dilma Rousseff


– “Urso com fome não dança” (Гладна мечка хоро не играе)  –

Fátima Oliveira*

Sou de uma família na qual comer é um ritual e que tem o hábito de festejar datas especiais, alegrias e conquistas com comida farta e deliciosa. Daquelas de lamber os beiços! Acabei sendo algo que não sei definir, se “gourmand” (apreciadora de boas comidas, dos sabores…) ou “gourmet” (apreciadora do ritual da comida, da elaboração à degustação), por aí… Desde que montei a minha primeira casa faço questão de manter o hábito. Uma amiga, sabedora da tradição, não se conteve e, ao telefone, foi logo atacando, num falar mineirês dos legítimos:

– Minha linda, eu sei que “Quem morre de véspera é peru”. Também sei que no 31 de outubro estarás de plantão durante o dia, mas… Mas vai rolar alguma comidinha à la Dilma Rousseff aí pra gente acompanhar a apuração e se esbaldar depois? “Nossinhora, vai ser um trem doidim, uai!” Vai ser bonita a festa, pá!

– …

– “Acá”, silenciou “cadiquê? “Cê” sabe que “Urso com fome não dança” (Гладна мечка хоро не играе). E eu quero dançar em cada rua de “Belzonte”…

Entrei na onda dela e resolvi demonstrar que também domino o mineirês, de algum modo entremeado de maranhês… Origem é origem e eu não sou ingrata de renegar as minhas. Ao contrário, cultivo com desvelo.

– “Nadica de nada! Tô sensabê doncovim, proncovô, oncotô”, mas “ondocê“ aprendeu esse ditado do urso?

– Ahraaaaan, minerou, hein? É um provérbio búlgaro! “Doidimais”, não?

– Hem-hem… Putz! Eu não sabia que você era versada em qualquer coisa da Bulgária… Achei que era que nem aquele mineiro compositor, o Rômulo Paes, que disse: “Minha vida é esta: subir a Bahia e descer a Floresta”.

– “Óiaquí” não era mesmo, mas na campanha tive de me virar e aprender um monte de coisas, só pra ter respostas na ponta da língua… Ô campanhazinha do cão, minha irmã!

– Sem dúvida! A intenção era promover uma morte moral da Dilma, seguindo também um figurino do fundamentalismo cristão do mais baixo calão que o patriarcado troglodita pode imaginar e valendo-se da condição dela de mulher moderna. Por último, inventaram até que a mineiríssima Dilma nasceu na Bulgária! E aí, quem é Pinóquio mesmo?

– “Ah, coitado”, pego na mentira todo santo dia, de bolinhas de papel a vigas e grana surrupiada do Rodoanel, passou um debate de TV todinho chamando Dilma de mentirosa! Não foi apenas deselegante. Era o Serra em transe midiático ensaiado, mais antipático do que de costume. Perdeu muito voto ali. Estava “iscritim” o capiroto do patriarcado. Aposto que até Regina Duarte teve medo.

– Como se diz em Minas: “Sangue de Jesus tem poder”, só assim para suportar tanta vilania de uma campanhazinha feita aos moldes dos detratores de Obama. Lembra que também disseram que Obama não era norte-americano? Pois é, do mesmo jeitinho. Ô falta de criatividade! E ainda custou um milhão de reais… “Ó dó”!

– Vamos lá! Aos comes e bebes… Se eu a conheço bem, vai rolar tudo de bom na comilança… Mas diga aí, você que é mulher viajada, versada em gastronomia, que diz que comida é cultura, como é a da Bulgária?

– Bem lembrado, vou homenagear a culinária da Bulgária também no dia 31. Lá, na Bulgária, o povo vai festejar a vitória de Dilma, por ser filha de búlgaro, tal como o Quênia fez na vitória de Obama, que é filho de um queniano do povo luo. E aqui vamos nos irmanar ao povo búlgaro também, via inspiração de muita gente de várias partes do mundo que fez “celebração luo” (comida queniana do povo luo) para acompanhar a apuração da eleição de Obama.

– Dizem que os vinhos búlgaros são especiais…

– Há vinhedos em toda a Bulgária. E a cerveja búlgara é saborosíssima.  E tem uns “licorzinhos”, ai, ai… O licor e o aguardente de rosa são o top do top das bebidas búlgaras. Há aguardentes populares impensáveis pra quem não é de lá: o slivova (de ameixa), grozdova (de uva), kaisieva (de damasco) e mastika (de anis). É costume búlgaro beber aguardente de frutas antes das refeições e durante as mesmas bebe-se vinho. E também gostam muito de boza – bebida balcânica de milho fermentado. Ah, os vinhos búlgaros, tanto o tinto quanto o branco, pouco divulgados aqui, são deliciosos e estão em pé de igualdade com os franceses e os espanhóis.

– Ah, são? Pois levarei os “bebes”: vinho e cerveja da Bulgária… Vou procurar, deve haver em algum lugar por aqui… Vou correr atrás do licor de rosa também…

– A comida búlgara tem muita similaridade com a grega e a turca: muita carne, de porco ou de cordeiro, e muito “boi ralado”, como em Beagá! – de sabor picante e com condimentos fortes (pimentão picante, orégano, salsinha, segurelha, pimenta preta e pimentão vermelho). Gostam muito de feijões brancos, couve e sopas – além da popular tarator (sopa fria de pepino com iogurte), há a shkembe chorba, (sopa quente de tripas de cordeiro ou de porco, temperada com vinagre e alho).

– “Nossinhorinha”, eca com essa de comer tripa! Mas, e os pratos ditos típicos?

– “Os principais pratos populares são o kebabche, o kufte e a musaka. Os dois primeiros são muito similares. Ambos são feitos com carne moída picante e grelhada. Se diferenciam principalmente pela forma. Musaka é prato tradicional, feito de batatas recheadas e carne moída, com cobertura de iogurte, farinha e ovos”. Há a kebapcheta (almôndegas de carne de vaca e de porco, grelhadas e bem condimentadas);  o guiuvech (carne de vaca ou porco, tomate, pimentão e ervilha, cozido no forno dentro de uma vasilha de barro); o shishcheta kavarma (carne de vaca ou de porco com muita cebola); e a patcha (pernil de porco temperado com sal, alho e muita cebola + papada de porco gordo, gordo, que cozinha até virar geléia), que é comida gelada.

– Humhum…

– Hem-hem… Os búlgaros gostam até demais da conta de caldos. Mas usam também muita salada: shopska salata, que é a cara da Bulgária (tomate, pepino, pimentão assado e queijo branco ralado) e a kiopolu, também chamada de “caviar vegetariano” (berinjela, pimentão e tomate).  “O iogurte é um ingrediente bastante comum, usado na preparação de saladas como a mletchna, sopas como o tarator, uma sopa fria ou de verão; e a popular bebida ayrian, levemente salgada”. A forte presença do iogurte na culinária búlgara é devida à crença de que é um alimento essencial para a longevidade.

– Ah, disso eu sei, inclusive que “o iogurte búlgaro tem conquistado um privilegiado lugar no mundo. Para sua elaboração, mistura-se ao leite, seja de vaca, ovelha ou búfala, o célebre lactobacterium bulgaricum, agente que só pode se desenvolver plenamente nas condições geográficas e climáticas da Bulgária”. O que será que aquelas coisas maravilhosas e esplendorosas da natureza, a Cordilheira dos Balcãs e o Vale das Rosas, tem a ver com isso? E os queijos?

– Queijos… Há o sirene, que é branco (de cabra ou ovelha, similar ao feta grego) e o kashkaval, que é amarelo. São muito apreciados. A mineiríssima sobremesa Romeu e Julieta (queijo com goiabada) é influência legítima da cozinha búlgara. Sabia?

– Nãããão diga!  E os “pons”?

– “Pons”?

– Sim, o pai da Dilma, Pétar Russév (abrasileirou o nome, afrancesando para Rousseff) só chamava pão de “pon”. Não sabia que ele nunca aprendeu a dizer pão?

– Nas padarias mais tradicionais encontramos os deliciosos banitsa (folheado de queijo), o mekitsa, e o pitka (um tipo de pão muito conhecido). Há dois pratos que eu diria típicos da Bulgária: kavarma – carne e vegetais guisados em cerâmica – e o plakiya, feito de peixe e arroz.

–  Geeeeeeente, e eu só conhecia o repolho búlgaro e o borek (börek). Ou é bureka?  É o mesmo que banitsa?

– Todos são pastéis de massa folhada.  O que difere o borek (börek) da bureka, que são de origem turca, mas apreciadíssimos pelos búlgaros, é o formato (que pode ser uma rosca, um quadrado), pois o recheio, nos dois é semelhante. Usa-se desde só queijo, a carne picada, batata ou outros vegetais, como berinjela.

– Me diga: o borek (börek), a bureka, são o mesmo que banitsa?

– Não sei. Tem de perguntar à Dilma. Sei que ela nunca foi à Bulgária e nem fala búlgaro, mas o pai dela com certeza cultivava alguns hábitos alimentares de sua nacionalidade. Acho que banitsa é um pastel doce (massa folhada com recheio de queijo, com calda de açúcar), logo é uma sobremesa. Mas vamos aos nossos comes da mulheragem. Então, teremos bureka de carne, de queijo e de berinjela, tarator…

– Esqueceu do churrasco, ô tchê? Ela deve gostar, pois passou a maior parte de sua vida nos pampas gaúchos…

– Na posse. Na posse! Churrasco é só na posse. E na rua, pra quem passar comer a folote…

– Na calçada do prédio? Na zona Sul de Beagá? Eu sei que mora aí, no mesmo lugar, há mais de vinte anos. Não é da nova classe média do Lula, pero… E se destoar?

– Sim! Na calçada do prédio! “Cadiquê” está espantada? Se duvidar, vou fazer na praça. Naquela ali perto de casa, ao lado do Museu Abílio Barreto, que eu amo, mas nem sei o nome… ehehhehehe. Quero ver quem é “seu ninguém” pra proibir. Conversa que vou atrás de prefeitura pra tirar licença coisíssima nenhuma! Onde já se viu tirar licença pra comer na praça? Se bem que aqui em Minas, “liberdade essa palavra”… Vai que essa gente da prefeitura aprendeu com aquele galã que ocupou o prédio da “pradaliberdade”, hein? Ah Pimentel, Pimental, ocê ainda me paga! Já começou. Num votei “nocê”, viu? Voto meu, nunca mais! Nunquinha meeeeeeeesmo!

–  Mulher do céu, que zanga, hein?

– Ainda é pouca, amiga. Não leu o Pedro Mingão, não? “Óia”, em “O voto e o preconceito de classe”, fez a ferida sangrar depois de deslindar o ódio de classe patente “nos contra Dilma”: “A segunda razão [do ódio de classe] é puramente econômica (…) Vejo muita gente reclamar ‘que é um absurdo pagar um salário mínimo e meio mais os direitos para uma empregada que, olha que audácia, vai embora pra casa todo dia!’ Percebe-se que é uma visão excludente, de que ‘o que importa é eu estar bem, o resto que se dane’, e ‘do pobre a Polícia cuida’. Mas garanto ao leitor que este mesmo indivíduo reclamaria se em seu emprego tivesse de chegar segunda-feira de manhã e somente voltar para casa no final da tarde de sábado…”

– Entendo, entendo! E da cozinha mineira, teremos o quê? Humhum…  Não vale mais nada de “boi ralado”, já tem demais…

– Torresmo com cachacinha. “Providência”, lá de Buenópolis, não faltará! Nem “Insinuante”, lá de Januária! E costelinha frita, na hora, para acompanhar a nossa cervejinha búlgara… E bambá-de-couve, uai! Do legítimo, inventado nas senzalas de Ouro Preto, com couve rasgadinha, e tem de ser rasgadinha, nunca cortada porque muda o gosto, “sá”! Vai resolver nossa ressaca.

– Tudo isso?

– E por que não, amiga?!  Com qual cara, ou com qual argumento, uma mãe, tia, avó ou bisavó, dirá à sua filha, sobrinha, neta ou bisneta que não votou em Dilma Rousseff?! Que não deu o voto para eleger a primeira presidenta do Brasil? Nós, as mulheres Oliveira Ferreira (Lívia, a mãe de Maria Clara, Débora e eu) não temos o direito de “fazer feio” diante de Maria Clara!

– Como assim?

– Entendo que, embora a opressão de gênero seja comum a todas as mulheres nas sociedades não-matriarcais contemporâneas, nem todas as mulheres são desprovidas de poder. Traduzindo: o mito da mulher universal está superado. Entre nós, as mulheres, há um fosso de classe e uma clivagem racial/étnica. O único fio que nos une é a opressão de gênero, que é vivenciada de modo diferenciado, por causa do fosso de classe e da clivagem racial/étnica. Tá sacando?

– Então, eleger Dilma Rousseff presidenta do Brasil terá uma repercussão positiva importantíssima na autoestima das brasileiras, sobretudo das meninas e das jovens. Nas mais velhas, orgulho nas alturas. É isso?

– Acertou na mosca! E entendendo que não é possível empoderar quem não possui autoestima, o resto você se vire pra concluir, pois não? Eleger uma mulher com a trajetória política e a história de vida de Dilma Roussef significa empoderamento para as mulheres, que no âmbito no âmbito privado é o nome político da velha auto-estima/amor próprio.

– …

– Na hora em que Dilma ganhar, eita festa!… Tá tudo “preparadim”, “preparadim”… Na casa de Dona Canô, lá em Santo Amaro da Purificação, também! Ela, do alto da moral da lucidez de seus 103 anos, declarou: “Eu vou votar em Dilma, porque ela tem toda a capacidade de governar”. Na casa de Mãe Beata de Iyemoja, lá em Nova Iguaçu, da mesma forma.

– Meeeeesmo?

– Mesmo, uaaaai! Sem “fuleragem”, juro! Imagine o impacto cultural na vida das nossas meninas e das nossas jovens de hoje uma presidenta da República do quilate de Dilma? É que a mudança de padrão cultural que beneficiará, sobremaneira, a vida de nossas meninas e jovens aparecerá muito mais na vida delas do que nas nossas….  “Prestenção”! Escreve aí o que estou dizendo. Não é por outra razão que essa gente conservadora, fundamentalista cristã, homofóbica, mesquinha e misógina até o talo levou a cabo essa vigorosa campanha de destruição da imagem da Dilma. Apenas porque ela é mulher! Foi a sua condição feminina que fez o “boca de sulapa” chamá-la de “poste” (Ai, que ódio!), como se fosse crime um presidente ter o direito de dizer e de escolher quem ele deseja que continue sua obra! Bah, fazer o que, se tudo que Lula faz para essa gente é crime, não é? Não é isso que nosso povo pensa! Olha só a popularidade de Lula lá nas alturas!

– Se fosse um homem o oponente dos “muy amigos”, a campanha não teria sido tão rasteira e despolitizada. Até serviram “bandejas e bandejas de ovários”. Das brasileiras, obviamente… Juarez Guimarães, em “O caluniador, figura da barbárie”, foi perfeito ao citar o que afirmou o sociólogo Ricardo Guedes, após divulgar o resultado da primeira pesquisa Sensus/CNT para o segundo turno: “Nessa eleição, principalmente no final do primeiro turno, temos um fenômeno sociológico de natureza cultural de desconstrução de imagem. O processo de difamação, até certo ponto, pegou.’ Quem conhece alguém que não recebeu uma calúnia contra Dilma?”

– Tem razão. Toda a razão. São uns machistas “disgramados”, isso sim! Dilma Rousseff tem cabeça própria, não entrou na política pulando as cercas dos currais da oligarquia – “relações de parentesco de pai, irmão, marido, ex-marido, cunhados e primos”. Nem podem alegar tal coisa, daí o ódio do “coiso”, pois ela é filha da primeira geração de um pai búlgaro no Brasil!

– Ela não entrou na política empurrada por um contexto oligárquico, que usa as mulheres para representar os interesses das elites locais, como frisa Lúcia Avelar: “Se as mulheres ascendem por esses canais, sua atuação nada tem a ver com as mudanças propostas pelas gerações de mulheres que lutaram pela estruturação de sua própria identidade política. Em suma, podemos até ter mais mulheres, mas elas não representam as necessidades especificamente femininas”

Dilma na política corre em raia própria. Não chegou à esfera pública nem em nome do pai e nem em nome do clã. Já escrevi que “Mulher que entra na política tendo como base o poder ancestral, especificamente o patriarcal, vai a qualquer canto ‘em nome do pai’” e do clã. A força que a move tem origem nas decorrências da opressão de gênero na vida familiar”. Daí porque Dilma não é um pau-mandado (um poste!)

– Bem lembrado…

– Como resposta à pergunta “Há um estilo feminino de fazer política?” Lúcia Avelar não vacila: “É a consciência feminista que determina a singularidade da atuação política da mulher, porque é ela que informa quais são os temas relevantes a serem politizados e defendidos na arena política formal”. Afirmativa que dá razão a quem diz que “Não basta ser mulher”.

– Essa Dilma, essa Dilma é “dilmais”, eheheheh…. Lembra daquela história do encontro dela com a Vitória?

– Lasca aí. Lembro, não!

– Dilma encontrou no aeroporto, durante a campanha, uma mulher com a filha no colo, que falou “Trouxe minha filha aqui para você dizer a ela que mulher pode”. “Pode o quê?”, perguntou Dilma. “Ser presidente”, respondeu a mulher. E Dilma enfatizou: “Pode sim, não tenha dúvida que pode”. Ao contar a história Dilma disse que a menina se chama Vitória: “É para ela e para todas as outras Marias e Vitórias que eu dedico a minha luta.”

– Eita Lula cabra da peste! Além do legado de um governo popular e democrático, ele sabe que “Não basta ser mulher”! A escolha de Dilma foi assim como se ele estivesse, através dela, fazendo um “mea culpa” do muito que ficou para fazer pelas brasileiras. Pode ser, pode ser… O futuro dirá.

Nazdrave! (saúde!) Dilma Rousseff!

E-mail: fatimaoliveira@ig.com.br

* Fátima Oliveira é médica e escritora. Feminista. Integra o Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR) e o Conselho Consultivo da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe (RSMLAC). Escreve uma coluna semanal no jornal O Tempo (BH, MG), desde 3 de abril de 2002. Uma das 52 brasileiras indicadas ao Nobel da Paz 2005, pelo projeto 1000 Mulheres para o Nobel da Paz 2005.

Autora dos seguintes livros de divulgação e popularização da ciência: Engenharia genética: o sétimo dia da criação (Moderna, 1995 – 14a. impressão, atualizada em 2004); Bioética: uma face da cidadania (Moderna, 1997 – 8a. impressão atualizada, 2004); Oficinas Mulher Negra e Saúde (Mazza Edições, 1998); Transgênicos: o direito de saber e a liberdade de escolher (Mazza Edições, 2000); O estado da arte da Reprodução Humana Assistida em 2002 e Clonagem e manipulação genética humana: mitos, realidade, perspectivas e delírios (CNDM/MJ, 2002); Saúde da população Negra, Brasil 2001 (OMS-OPS, 2002).

Autora dos seguintes romances: A hora do Angelus (Mazza Edições, 2005); Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras (Mazza Edições, 2008); e Então, deixa chover (no prelo).

Belo Horizonte, 28 de outubro de 2010

Notas:

1. AVELAR, Lúcia. Mulheres na elite política brasileira. Editora UNESP e Konrad-Adenauer-Stiftung, 2a. Edição revisada e ampliada, 2001).

2. GUIMARÃES, Juarez. “O caluniador, figura da barbárie”,

http://www.cartacapital.com.br/politica/o-caluniador-figura-da-barbarie

3. MINGÃO, Pedro. “O voto e o preconceito de classe”

http://advivo.com.br/blog/luisnassif/o-voto-e-o-preconceito-de-classe

4. OLIVEIRA, Fátima. “Mulheres na elite política brasileira” (resenha)

A mulher na política em seu lugar histórico (O TEMPO, BH, MG – Magazine. O Tempo, p 3, 20 de abril de 2002

“Em nome do pai… e do clã”

http://www.observatoriodaimprensa.artigosjd/60120021.htm

Referências:

1. Carta Aberta de Mãe Beata de Iyemoja: Apoio a Dilma Rousseff

http://br.groups.yahoo.com/group/discriminacaoracial/message/62711

2. Celebração Luo – Luís Alberto Furtado

http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=2137

2. Dicionário maranhês

http://jamirlima.blogspot.com/2008/11/dicionrio-maranhs.html

3. Dicionário mineirês-português

http://www.nababu.org/?p=898

4. Dona Canô é Dilma!

http://www.geledes.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=7963:dona-cano-e-dilma&catid=508:presidencia&Itemid=1430

5.   ”Hem-hem uma marca polissêmica do falar maranhense” – José Neres

http://linguaportuguesa.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/25/artigo185982-1.asp

6. Povo de Terreiro em apoio à Dilma Rousseff

http://blogdoclaudionascimento.blogspot.com/2010/10/povo-de-terreiro-em-apoio-dilma.html

7. Rômulo Paes – A minha vida é esta: subir Bahia e descer Floresta (1994)

http://sonetista.blogspot.com/2006/06/minha-vida-esta-subir-bahia-descer.html

8. Rua da Bahia – Paulo Mendes Campo

http://avidatemsemprearazao.blogspot.com/2006/09/rua-da-bahia.html

Links das receitas:

O bambá-de-couve é nosso!

http://www.ouropreto-ourtoworld.jor.br/bambanosso.htm

Banitsa

http://www.eurocid.pt/pls/wsd/wsdwcot0.detalhe?p_cot_id=2518&p_est_id=6393

Bureka de berinjela

http://www.culinaria-receitas.com.br/salgados/bureka-de-berinjela.html

Bureka de carne ou de queijo

http://www.flavorcollection.com.br/tag/bureka/

Patcha: aventuras pela culinária búlgara

http://www.camiseteria.com/profileblogpost.aspx?usr=egonzakuska&bid=9399

Repolho búlgaro

http://www.culinariatotal.com.br/default.aspx?id=4406

Tarator (Sopa Fria de Pepinos)

http://correiogourmand.com.br/receitas_sal_156.htm

Outras receitas da culinária búlgara:

http://www.recetasycomidas.com/pais/recetas-de-bulgaria/

http://easybulgarian.com/portalbulgaria/pt_comidas.htm

http://www.depositodamasco.blogger.com.br/2004_07_01_archive.html

* O presente texto é uma obra de ficção, escrita com a finalidade de injetar ânimo em quem está na campanha de Dilma Rousseff. Estamos na reta final das eleições 2010. Nos molhamos muito em todas as chuvas que se abateram sobre nós. A tempestade vai chegando ao fim. É hora de, confiantes na vitória, fruto do nosso empenho, iniciarmos os preparativos para a festa. Acho que o melhor da festa é prepará-la. Não podemos deixar que “os contra” nos roubem a nossa festa.

O diálogo narrado é imaginação da autora. Qualquer semelhança com histórias de vidas reais não pode ser considerada, para quaisquer fins, como relatos de tais vidas.

Edemar.

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Aposentado não fica sobre o muro

30/10/2010

 

Até por questões de segurança, um aposentado não deve ficar sobre o muro. Daí, voto Dilma 13 amanhã, com a maior confiança de estar ajudando meu País.

 

Edemar.


Serra/Bush, por Miguel Nicolelis

28/10/2010

Uma coisa estranha aconteceu na noite passada em Natal

por Miguel Nicolelis*, especial para o Viomundo

Desde que cheguei ao Brasil, há duas semanas, eu vinha sentindo uma sensação muito estranha. Como se fora acometido por um ataque contínuo da famosa ilusão, conhecida popularmente como déjà vu, eu passei esses últimos 15 dias tendo a impressão de nunca ter saído de casa, lá na pacata Chapel Hill, Carolina do Norte, Estados Unidos.

Mas como isso poderia ser verdade? Durante esse tempo todo eu claramente estava ou São Paulo ou em Natal. Todo mundo ao meu redor falava português, não inglês. Todo mundo era gentil. A comida tinha gosto, as pessoas sorriam na rua. No aeroporto, por exemplo, não precisava abrir a mala de mão, tirar computador, tirar sapato, tirar o cinto, ou entrar no scan de corpo todo para provar que eu não era um terrorista.  Ainda assim, com todas essas provas evidentes de que eu estava no Brasil e não nos EUA, até no jogo do Palmeiras, no meio da imortal “porcada”, a sensação era a mesma: eu não saí da América do Norte! Mesmo quando faltou luz na Arena de Barueri durante o jogo, porque nem a 25 km da capital paulista a Eletropaulo consegue garantir o suprimento de energia elétrica para um prélio vital do time do coração do ex-governador do estado (aparentemente ninguém vai muito com a cara dele na Eletropaulo. Nada a ver com o Palmeiras), eu consegui me sentir à vontade.

Custou-me muito a descobrir o que se sucedia.

Porém, ontem à noite, durante o debate dos candidatos a Presidência da República na Rede Record, uma verdadeira revelação me veio à mente. De repente, numa epifania, como poucas que tive na vida, tudo ficou muito claro. Tudo evidente. Não havia nada de errado com meus sentidos, nem com a minha mente. Havia, sim, todo um contexto que fez com que o meu cérebro de meia idade revivesse anos de experiências traumatizantes na América do Norte.

Pois ali na minha frente, na TV, não estava o candidato José Serra, do PSDB, o “partido do salário mais defasado do Brasil”, como gostam de frisar os sofridos professores da rede pública de ensino paulistana, mas sim uma encarnação perfeita, mesmo que caricata, de um verdadeiro George Bush tropical. Para os que estão confusos, eu me explico de imediato. Orientado por um marqueteiro que, se não é americano nato, provavelmente fez um bom estágio na “máquina de moer carne de candidatos” em que se transformou a indústria de marketing político americano, o candidato Serra tem utilizado todos os truques da bíblia Republicana. Como estudante aplicado que ainda não se graduou (fato corriqueiro na sua biografia), ele está pronto para realizar uns “exames difíceis” e ser aceito para uma pós-graduação em aniquilação de caracteres em alguma universidade de Nova Iorque.

Ao ouvir e ver o candidato, ao longo dessas duas semanas e no debate de ontem à noite, eu pude identificar facilmente todos os truques e estratégias patenteados pelo partido Republicano Americano. Pasmem vocês, nos últimos anos, essa mensagem rasa de ódio, preconceito, racismo, coberta por camadas recentes de fé e devoção cristã, tem sido prontamente empacotada e distribuída para o consumo do pobre povo daquela nação, pela mídia oficial que gravita ao seu redor.

Para quem, como eu, vive há  22 anos nos EUA, não resta mais nenhuma dúvida. Quem quer que tenha definido a estratégia da campanha do candidato Serra decidiu importar para a disputa presidencial brasileira tanto a estratégia vergonhosa e peçonhenta da “vitória a qualquer custo”, como toda a truculência e assalto à verdade que têm caracterizado as últimas eleições nos Estados Unidos.  Apelando invariavelmente para o que há de mais sórdido na natureza humana, nessa abordagem de marketing político nem os fatos, nem os dados ou as estatísticas, muito menos a verdade ou a realidade importam. O objetivo é simplesmente paralisar o candidato adversário e causar consternação geral no eleitorado, através de um bombardeio incessante de denúncias (verdadeiras ou não, não faz diferença), meias calúnias, ou difamações, mesmo que elas sejam as mais absurdas possíveis.

Assim, de repente, Obama não era mais americano, mas um agente queniano obcecado em transformar a nação americana numa república islâmica. Como lá, aqui Dilma Rousseff agora é chamada de búlgara, em correntes de emails clandestinos. Como os EUA de Bill Clinton, apesar de o país ter experimentado o maior boom econômico em recente memória, foi vendido ao povo americano como estando em petição de miséria pelo então candidato de primeira viagem George Bush.

Aqui, o Brasil de Lula, que desfruta do melhor momento de toda a sua história, provavelmente desde o período em que os últimos dinossauros deixaram suas pegadas no que é hoje o município de Sousa, na Paraíba, passa a ser vendido como um país em estado de caos perpétuo, algo alarmante mesmo. Ao distorcer a verdade, os fatos, os números e, num último capítulo de manipulação extremada, a própria percepção da realidade, através do pronto e voluntário reforço  do bombardeio midiático, que simplesmente repete o trololó do candidato (para usar o seu vernáculo favorito), sem crítica, sem análise, sem um pingo de honestidade jornalística, busca-se, como nos EUA de George Bush e do partido Republicano, vender o branco como preto, a comédia como farsa.

Não interessa que 26 milhões de brasileiros tenham saído da miséria. Nem que pela primeira vez na nossa história tenhamos a chance de remover o substantivo masculino “pobre” dos dicionários da língua portuguesa. Não faz a menor diferença que 15 milhões de novos empregos tenham sido criados nos últimos anos. Ou que, pela primeira vez desde que se tem notícia, o Brasil seja respeitado por toda a comunidade internacional. Para o candidato da oposição esse número insignificante de empregos é, na sua realidade marciana, fruto apenas de uma maior fiscalização que empurrou com a barriga do livro de multas 10 milhões de pessoas para o emprego formal desde o governo do imperador FHC.

Nada, nem a realidade, é  capaz de impressionar os fariseus e arautos que estão sempre prontos a enxovalhar o sucesso desse país de mulatos, imigrantes e gente que trabalha e batalha incansavelmente para sobreviver ao preconceito, ao racismo, à indiferença e à arrogância daqueles que foram rejeitados pelas urnas e vencidos por um mero torneiro mecânico que virou pop star da política internacional. Nada vai conseguir remover o gosto amargo desse agora já fato histórico,  que atormenta, como a dor de um membro fantasma, o ego daqueles que nunca acreditaram ser o povo brasileiro capaz de construir uma nação digna, justa e democrática com o seu próprio esforço. Como George Bush ao Norte, o seu clone do hemisfério sul não governa para o povo, nem dele busca a sua inspiração. A sua busca pelo poder serve a outros interesses; o maior deles, justiça seja feita, não é escuso, somente irrelevante, visto tratar-se apenas do arquivo morto da sua vaidade, o maior dos defeitos humanos, já dizia dona Lygia, minha santa avó anarquista. Para esse candidato, basta-lhe poder adicionar no currículo uma linha que dirá: Presidente do Brasil (de tanto a tanto). Vaidade é assim, contenta-se com pouco, desde que esse pouco venha embalado num gigantesco espelho.

Voltando à estratégia americana de ganhar eleições, numa segunda fase, caso o oponente sobreviva ao primeiro assalto, apela-se para outra arma infalível: a evidente falta de valores cristãos do oponente, manifestada pela sua explícita aquiescência para com o aborto; sua libertinagem sexual e falta de valores morais, invariavelmente associada à defesa do fantasma que assombra a tradição, família e propriedade da direita histérica, representado pela tão difamada quanto legítima aprovação da união civil de casais homossexuais. Nesse rolo compressor implacável, pois o que vale é a vitória, custe o que custar, pouco importa ao George Bush tupiniquim que milhares de mulheres humildes e abandonadas morram todos os anos, pelos hospitais e prontos-socorros desse Brasil afora, vítimas de infecções horrendas, causadas por abortos clandestinos.

George Bush, tanto o original quanto o genérico dos trópicos, provavelmente conhece muitas mulheres do seu meio que, por contingências e vicissitudes da vida, foram forçadas a abortos em clínicas bem equipadas, conduzidas por profissionais altamente especializados, regiamente pagos para tal prática. Nenhum dos dois George Bushes, porém, jamais deu um plantão no pronto-socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo e testemunhou, com os próprios olhos e lágrimas, a morte de uma adolescente, vítima de septicemia generalizada, causada por um aborto ilegal, cometido por algum carniceiro que se passou por médico e salvador.

Alguns amigos de longa data, que também vivem no exterior, andam espantados com o grau de violência, mentiras e fraudes morais dessa campanha eleitoral brasileira. Alguns usam termos como crime lesa pátria para descrever as ações do candidato do Brasil que não deu certo, seus aliados e a grande mídia.

Poucos se surpreenderam, porém, com o fato de que até o atentado da bolinha de papel foi transformado em evento digno de investigação no maior telejornal do hemisfério sul (ou seria da zona sul do Rio de Janeiro? Não sei bem). No caso em questão, como nos EUA, a dita grande imprensa que circunda a candidatura do George Bush tupiniquim acusa o Presidente da República de não se comportar com apropriado decoro presidencial, ao tirar um bom sarro e trazer à tona, com bom humor, a melhor metáfora futebolística que poderia descrever a farsa. Sejamos honestos, a completa fabricação, desmascarada em verso, prosa e análise de vídeo, quadro a quadro, por um brilhante professor de jornalismo digital gaúcho.

Curiosamente, a mesma imprensa e seus arautos colunistas não tecem um único comentário sobre a gravidade do fato de ter um pretendente ao cargo máximo da República ter aceitado participar de uma clara e explicita fabricação. Ou será que esse detalhe não merece algumas mal traçadas linhas da imprensa? Caso ainda estivéssemos no meio de uma campanha tipicamente brasileira, o já internacionalmente famoso “atentado da bolinha de papel” seria motivo das mais variadas chacotas e piadas de botequim. Mas como estamos vivendo dentro de um verdadeiro clone das campanhas americanas, querem criminalizar até a bolinha de papel. Se a moda pega, só eu conheço pelo menos uns dez médicos brasileiros, extremamente famosos, antigos colegas de Colégio Bandeirantes e da Faculdade de Medicina da USP, que logo poderiam estar respondendo a processos por crimes hediondos, haja vista terem sido eles famosos terroristas do passado, que se valiam, não de uma, mas de uma verdadeira enxurrada, dessas armas de destruição em massa (de pulgas) para atingir professores menos avisados, que ousavam dar de costas para tais criminosos sem alma .

Valha-me Nossa Senhora da Aparecida — certamente o nosso George Bush tupiniquim aprovaria esse meu apelo aos céus –, nós, brasileiros, não merecemos ser a próxima vítima do entulho ético do marketing eleitoral americano. Nós merecemos algo muito melhor.  Pode parecer paranoia de neurocientista exilado, mas nos EUA eu testemunhei como os arautos dessa forma de fazer política, representado pelo George Bush original e seus asseclas,  conseguiram vender, com grande sucesso e fanfarra, uma guerra injustificável, que causou a morte de mais de 50 mil americanos e centenas de milhares de civis iraquianos inocentes.

Tudo começou com uma eleição roubada, decidida pela Corte Suprema. Tudo começou com uma campanha eleitoral baseada em falsas premissas e mentiras deslavadas. A seguir, o açodamento vergonhoso do medo paranóico, instilado numa população em choque, com a devida colaboração de uma mídia condescendente e vendida, foi suficiente para levar a maior potência do mundo a duas guerras imorais que culminaram, ironicamente, no maior terremoto econômico desde a quebra da bolsa de 1929.

Hoje os mesmos Republicanos que levaram o país a essas guerras irracionais e ao fundo do poço financeiro acusam o Presidente Obama de ser o responsável direto de todos os flagelos que assolam a sociedade americana, como o desemprego maciço, a perda das pensões e aposentadorias, a queda vertiginosa do valor dos imóveis e a completa insegurança sobre o que o futuro pode trazer, que surgiram como conseqüência imediata das duas catastróficas gestões de George Bush filho.

Enquanto no Brasil criam-se 200 mil empregos pro mês, nos EUA perdem-se 200 mil empregos a cada 30 dias. Confrontado com números como esses, muitos dos meus vizinhos em Chapel Hill adorariam receber um passaporte brasileiro ou mesmo um visto de trabalho temporário e mudar-se para esse nosso paraíso tropical. Eles sabem pelo menos isto: o mundo está mudando rapidamente e, logo, logo, no andar dessa carruagem, o verdadeiro primeiro mundo vai estar aqui, sob a luz do Cruzeiro do Sul!

Fica, pois, aqui o alerta de um brasileiro que testemunhou os eventos da recente história política americana em loco. Hoje é a farsa do atentado da bolinha de papel. Parece inofensivo. Motivo de pilhéria. Eu, como gato escaldado, que já viu esse filme repulsivo mais de uma vez, não ficaria tão tranqüilo, nem baixaria a guarda. Quem fabrica um atentado, quem se apega ou apela para questões de foro íntimo, como a crença religiosa (ou sua inexistência), como plataforma de campanha hoje, é o mesmo que, se eleito, se sentirá livre para pregar peças maiores, omitir fatos de maior relevância e governar sem a preocupação de dar satisfações aqueles que, iludidos, cometeram o deslize histórico de cair no mais terrível de todos os contos do vigário, aquele que nega a própria realidade que nos cerca.

Aliás, ocorre-me um último pensamento. A única forma do ex-presidente (Imperador?) Fernando Henrique Cardoso demonstrar que o seu governo não foi o maior desastre político-econômico, testemunhado por todo o continente americano, seria compará-lo, taco a taco, à catastrófica gestão de George Bush filho. Sendo assim, talvez o candidato Serra tenha raciocinado que, como a sua probabilidade de vitória era realmente baixa,  em último caso, ele poderia demonstrar a todo o Brasil quão melhor o governo FHC teria sido do que uma eventual presidência do George Bush genérico do hemisfério sul. Vão-se os anéis, sobram os dedos. Perdido por perdido, vamos salvar pelo menos um amigo. Se tal ato de solidariedade foi tramado dentro dos circuitos neurais do cérebro do candidato da oposição (truco!), só me restaria elogiá-lo por este repente de humildade e espírito cristão.

Ciente, num raro momento de contrição, de que algumas das minhas teorias possam ter causado um leve incômodo, ou mesmo, talvez, um passageiro mal-estar ao candidato, eu ousaria esticar um pouco do meu crédito junto a esse grande novo porta-voz do cristianismo e fazer um pequeno pedido, de cunho pessoal, formulado por um torcedor palmeirense anônimo, ao candidato da oposição. O pedido, mais do que singelo, seria o seguinte:

Candidato, será  que dá pro senhor pedir pro governador Goldman ou pro futuro governador Dr. Alckmin para eles não desligarem a luz da Arena Barueri na semana que vem? Como o senhor sabe, o nosso Verdão disputa uma vaguinha na semifinal da Copa Sulamericana e, aqui entre nós, não fica bem outro apagão ser mostrado para todo esse Brazilzão, iluminado pelo Luz para Todos, do Lula. Afinal de contas, se ocorrer outro vexame como esse, o povão vai começar a falar que se o senhor não consegue nem garantir a luz do estádio pro seu time do coração jogar, como é que pode ter a pretensão de prometer que vai ter luz para todo o resto desse país enorme? Depois, o senhor vem aqui e pergunta por que eu vou votar na Dilma? Parece abestalhado, sô!

* Miguel Nicolelis é um  dos mais importantes neurocientistas do mundo. É professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e criador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, (RN). Em 2008, foi indicado ao Prêmio Nobel de Medicina.

 

 

 

Edemar copiou de http://www.viomundo.com.br

 


Erenice – a explicação final

25/10/2010

Para entender o caso Erenice

Enviado por luisnassif, dom, 19/09/2010 – 11:41

 

Vamos tentar entender um pouco desse imbroglio da velha mídia, separando fatos reais dos factoides.

Vai-se chegar a um retrato acabado do que são as alianças malucas da política brasileira, os esquemas brasilienses, de funcionários indicados por políticos, o submundo do lobby e do jornalismo local.

No episódio em pauta, o começo de tudo é o loteamento dos Correios, feito na gestão Hélio Costa no Ministério das Comunicações. Nos últimos anos, os Correios foram entregues a esquemas pesadíssimos – juntando chefes de quadrilha, esquemas de lobby no submundo brasiliense e repórteres de escândalo.

Descrevo esse jogo no capítulo «O araponga e o repórter» da série «O caso de Veja». Mostro como o escândalo do funcionário que pedia propina de R$ 3 mil, na verdade serviu para derrubar o esquema Roberto Jefferson nos Correios e permitir um esquema mais barra pesada ainda – que trabalhou valendo-se da parceria araponga-Policarpo Jr, diretor da sucursal da revista Veja, devidamente indicados pelo bicheiro Carlinhos Maracanã.

A figura-chave

A figura chave desses últimos episódios é Marco Antonio Marques de Oliveira, ex-diretor de operações dos Correios e exemplo típico da promiscuidade reinante em Brasília.

Marco Antonio foi diretor da ANAC (Agência Nacional da Aviação Civil). No dia 7 de agosto de 2007, na CPI do Apagão Aéreo, foi apontado pelo senador Demóstenes Torres como «ligado ao crime organizado», segundo matéria da Follha (clique aqui). Na mesma matéria, aparece como indicação do PMDB governista e ligado ao então governador de Minas, Aécio Neves.

Na verdade, sua ligação é com o ex-presidente Itamar Franco e com Hélio Costa – que são a mesma coisa. Na mixórdia política brasileira, apesar de estarem em partidos concorrentes em Minas, Hélio sempre foi ligado a Itamar e vice-versa. Sempre fizeram política juntos.

Não significa que compactuassem com o esquema por fora de Marco Antonio. Quando um político indica alguém para um cargo, é para facilitar negócios para aliados em cima das regras vigentes.

Demitido da ANAC, Marco Antonio é imediatamente indicado para a Diretoria de Operações dos Correios, uma decisão temerária de Hélio Costa.

Antes disso, Israel Guerra, filho de Erenice Guerra, havia trabalhado por um tempo na ANAC. Lá, conheceu e fez amizade com dois rapazes, mais jovens que ele: Vinícius Castro, sobrinho de Marco Antonio, e Marcelo Moreto. Quando a mãe vai para a Casa Civil, Israel indica os dois amigos para trabalharem com ela. Imprudentemente, a sugestão é acatada.

A partir daí, os três amigos – mais Marco Antonio – passam a vender terrenos na Lua para recebimento em Marte – na feliz expressão de uma fonte. Apregoam no submundo de Brasília que teriam acesso a decisões, ao agendamento de reuniões etc.

Esse é o escândalo devidamente circunscrito: um esquema de lobby de terceira categoria, que terá que ser apurado, com as devidas punições. Em nenhum momento, nenhuma matéria – apesar de estarem envolvidos mais de duas dezenas de jornalistas – levantou o menor indício de que qualquer uma das demandas tivesse sido atendida.

A parceria lobistas-repórteres de escândalos

A velha mídia recorreu, então, a um de seus estratagemas que, por coincidência, havia descrito um pouco antes no Twitcam “Como a velha mídia atua”.

A jogada é simples. O repórter consegue alguns dados reais, em geral de menor gravidade. Em cima disso, compõe um roteiro inverossímil, com acusações gravíssimas, não comprovadas. Denomina-se a esse esquema “A técnica da mentira”, como bem descreveu o grande  Antonio Carlos Fon.

Quando começa o questionamento aos fatos graves, apresentam-se os fatos menos graves como prova. É como o pescador que pesca um lambari, chega no boteco e informa ter pescado um lambari e um dourado de 120 quilos. O pessoal pede: prova! E ele mostra o lambari para provar que não mentiu.

Aí começa o segundo tempo do jogo. O esquema dos Correios fica pesado demais, por culpa da leniência de Lula com as estripulias de Hélio Costa. Quando se dá conta, a diretoria barra pesada é demitida. Entre eles, o maior barra pesada, Marco Antonio. E pela própria Erenice. Prova maior, aliás, de que ela não compactuava com o esquema.

Provavelmente a reportagem de Veja saiu atrás de Marco Antonio para levantar escândalos dos Correios. E deve ter recorrido aos métodos policialescos que caracterizam a revista: me diga o que quero ouvir que eu o poupo de minhas denúncias.

Não se pretende levantar nada, nem denunciar esquemas pesados. Mesmo porque repórteres e lobistas são aliados de jogadas: a expectativa de transformar o dossiê em reportagem valoriza o passe do lobista; a possibilidade de atender à demanda de escândalos pela direção garante o emprego do repórter. Ambos são habitantes do mesmo mundo e beneficiários das mesmas jogadas.

Aí esse Marco Antonio, figura ilibada assim como o “consultor” da Folha condenado à prisão, passa a dizer qualquer coisa que lhe pedem. E ambos – Folha e Veja – acrescentam informações que sequer passam pelo teste da verossimilhança. Como afirmar que o dinheiro iria para Dilma ou para Erenice. E a ombudsman da Folha tem a caradura de afirmar que se fez jornalismo porque, graças ao fato de se tentar criar uma falsa denúncia contra a candidata favorita à presidência da República, a brava mídia nacional conseguiu deslindar um esquema de três lobistas pés-de-chinelo que vendiam fumaça.

Por exemplo, a informação de que o “consultor” avisou a Casa Civil de que estava sendo chantageado para que seu pleito pudesse ser aprovado pelo BNDES, antes sequer do projeto ter sido apresentado ao banco. Ou a informação de que o esquema de Israel faturou propina em cima da compra de Tamiflu – que tinha apenas um fornecedor mundial. Juntam-se lobistas desqualificados e ex-detentos condenados por golpes com publicações sem escrúpulos, e pode-se conseguir tudo. Até envolver o Santo Padre em golpes de venda de indulgência plenária para financiar a campanha de Dilma.

Conclusão final

Erenice não foi apontada como cúmplice de nenhum crime. Não há um dado objetivo sequer de que tenha compactuado com a quadrilha. O próprio fato de ter demitido Marco Antonio dos Correios é prova mais que robusta.

Mas cometeu desvios éticos, ao não analisar devidamente as sugestões do filho.

Não há nenhum dado que  comprove o atendimento de qualquer demanda por parte da Casa Civil. A tentativa de ligar o caso a Dilma Rousseff é bisonha e não convence sequer o cidadão comum, mesmo bombardeado pela mídia de maneira exaustiva.

Ficam as lições:

1. Os esquemas de aliciamento político, através da entrega de cargos a aliados, é uma ameaça à estabilidade política. Não dá mais para manter esse “pacto de governabilidade” que garantiu a tranquilidade dos governos FHC e Lula.

2. A velha mídia é sócia dos lobistas no que interessa aos dois. Não está aí para moralizar a política, mas para utilizar as jogadas dos lobistas em proveito próprio.

 

 

Original em Luis Nassif Online. Edemar